Calendário de Coligny

Não poderia começar a abordar o sistema de medição Gaulês sem conceder a honra de primeira menção ao calendário de Coligny, que é um dos achados mais importantes na arqueologia Gaulesa, pois providencia-nos com um vislumbre, ainda que algo vago, sobre parte da cultura da tribo dos Sequani e, até certo ponto, de toda a Gália.

Fragmento do calendário.

Descoberto em Coligny, no departamento de Ain, em França, é o único calendário deste tipo alguma vez achado. Ao contrário do que se poderia esperar dada a grande importância da lua para os Celtas, mencionada pelos autores Clássicos, trata-se de um calendário lunisolar, ou seja, concilia os ciclos solar e lunar. Apesar de quebrado em 37 fragmentos (faltando ainda algumas partes), continua a fornecer informação muito preciosa.

Etimologia
Porém, existem algumas – na verdade bastantes – dificuldades na interpretação deste, especialmente no que toca ao significado das palavras e siglas nele inscritas. Assim sendo, forneço aqui algumas explicações, tendo como base as obras linguísticas mais recentes e conceituadas.

SAMONI > Samonos

  • E hipótese etimológica que está a ganhar cada vez mais popularidade é que o nome deste mês provém do Proto-Celta *samono- / *samoni-, ‘assembleia’, que é de facto um cognato do do Irlandês Antigo Samain.
    Ranko Matasović, “Etymological Dictionary of Proto-Celtic“, pág, 322.
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 267.
  • Outra proposta mais conhecida é a de que o nome provém de *samo-, ‘verão’. Isto é o que é proposto quando se confronta a designação com o nome oposto, GIAMON.

DVMAN > Dumanios

  • A ligação com o Proto-Celta *dumno-, ‘mundo’, tem sido proposta, mas é impossível, já que tal evolução seria descabida.
  • Uma proposta que liga esta palavra com outras palavras de origem Indo-Europeia que significam ‘fumo’ está a ganhar popularidade; as palavras são o Latim fūmus, Sânscrito dhūmáh, Lituano dūmai e o Grego thūmiáō.
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 154.

RIVRO > Riuros

  • Uma das etimologias propostas é que esta palavra deriva do Proto-Celta *reswo-, ‘geada’, ‘frio intenso’. Tenho as minhas sérias dúvidas, visto que nunca ficariamos com “ruiros” mas sim com resuos ou um mais tardio risuos.
  • Outra proposta, feita por Lambert, é que Riuros provém do Proto-Celta *remro-, ‘gordura’, ‘grande’. Apesar de a maioria das opiniões de Lambert estarem desatualizadas, acho que esta está de facto correta; isto porque poderá ter ocorrido a seguinte evolução do Proto-Celta para o Gaulês (lenição do m): *remro- > reuros > riuros.

ANAGAN > Anagantios

  • Primeiramente, temos a partícula negativa an, que nega a palavra que se segue a esta. Temos, então, uma segunda palavra que provem do Proto-Indo-Europeu (PIE) *h2eg-, ‘ir’ ‘conduzir’ ‘viajar’, que pode ter dado origem ao Proto-Celta *ag-e-, ‘conduzir’. Assim sendo, teríamos o “mês em que não se conduz/viaja”.
  • Fique ciente que não existe nenhuma explicação definitiva para a origem desta palavra.

OGRON > Ōgronios

  • Esta palavra, certamente a mais fácil de interpretar de todo o calendário, provém do Proto-Celta *owgro- ‘frio’. Para se chegar a OGRON, ocorreu a seguinte evolução: *owgro- > ougron > ōgron. A mudança de ou para ō ocorreu numa fase tardia do Gaulês, verificando-se sempre após a conquista Romana.

CVTIOS/GVTIOS > Cutios/Gutios?

  • O significado de Cutios é, por agora, um mistério, apesar de existir uma palavra que é uma candidata decente: *kuti-, ‘saco’ ‘escroto’. Linguisticamente, faz sentido, mas se aplicado ao período de tempo parece despropositado, pelo menos num ponto de vista moderno e sem qualquer contexto para nos auxiliar na interpretação.
  • Caso seja Gutios (aparece assim inscrito apenas uma vez), provavelmente virá do Proto-Celta *gutu-, ‘voz’.

GIAMON > Giamonos

  • Esta palavra também é simples: provém de *gyemo-, ‘inverno’. A mudança de *gye- para *gya- verifica-se em todas as línguas P-Celta.
    Ranko Matasović, “Etymological Dictionary of Proto-Celtic“, pág. 170.

SIMIVIS > Simiuissonā

  • Recentemente, foi proposto que VIS provém do Proto-Celta *wesn-, ‘primavera’. A palavra, em Gaulês, seria uesonnā e numa versão mais tardia, uisonnā. Quanto a SIMI, tem sido sugerido que poderá provir do PIE *sem2- > *semi- > semi > simi. Tudo isto junto daria “metade da Primavera”.
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise”, pág. 274.
  • Existe também outra proposta que substitui *wesn- com uma variação feminina do *sowono-, ‘sol’ (*sowono- tornou-se sonnos em Gaulês). Ainda assim, não faz sentido, pois não existia uma visão de um sol feminino na Gália. Além disso, a partícula VI seria despropositada.
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 274.

EQVOS > Equos

  • Apesar de poder ser uma preservação do kw Proto-Celta, assim como um empréstimo do Latim (o que é improvável, já que seria o único em todo o calendário). Trata-se, provavelmente, de um arcaísmo, visto que o Proto-Celta *ekwo-, ‘cavalo’, tornou-se epos em Gaulês e Britónico.
    Ranko Matasović, “Etymological Dictionary of Proto-Celtic“, pág. 114.

ELEMBIV (ELEMBAN?) > Elembiuos?

  • Esta é, sem dúvida, uma das palavras mais complicadas. Uns dizem que provém do Proto-Celta *elan(t)ī, ‘corça’… Não consigo entender como é que tal mudança radical poderia ocorrer do Proto-Celta para o Gaulês.
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 161 e 162.
  • Curiosamente, pelo menos uma pelo menos numa inscrição pode-se ler ELEMBAN e não ELEMBIV. Visto que o elemento ELEM permanece um mistério, é escusado tentar decifrar BAN.

EDRINI > Ēdrinios

  • Pensa-se que o nome deste mês está relacionado com o Proto-Celta *aydu-, ‘f’ogo’ para fins sacrificiais. A evolução da palavra seria: *aydu- > aidu > ēdu. A passagem de ai para ē – que é bastante tardia e sem dúvida influenciada pelo Latim – também se pode verificar em etnónimos e teónimos, noemadamente em Ēdui (< Aidui) e Ēsus (< Aisus).
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 34.

CANTLOS > Cantlos

  • Este nome tem sido maioritariamente interpretado como uma evolução de *kantlo-, ‘canção’ ‘cântico’.
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 104.

CIALLOS B(…)IS SONNOCINGOS AMMAN M. MXIII LAT CCCLXXXV (AM)BANTARAN(OS) M. > Ciallos B(lidn)is Amman (?) M. 1013 Lation 385 Ambentaranos Mīđ

  • Trata-se do nome do segundo mês intercalar.
    CIALLOS signifca algo como ‘este segundo’, sendo derivado de *ki-alyo-, ‘outro’ ‘segundo’ (ly > ll em Gaulês). Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 116.
    B(…)IS foi sugerido por Albin Jaques tratar-se de blēdnis, ‘ano’, o que faz sentido; contudo, seguindo a análise dos termos para ‘ano’ em línguas Celtas, por parte de Matasović, prefiro um *blid-ni(yo)-.
    SONNOCINGOS 
    tem origem clara: *sowono-kengo-, ‘marcha do sol’. Provavelmente deve o seu nome às medidas Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 278.
    AMMAN pode provir de *amsterā, segundo Delamarre, mas, segundo Matasović, existiu o termo *amo-, ‘tempo’ ‘momento’, que deu origem ao Irlandês Antigo amm. Talvez descenda deste termo.
    LAT é, obviamente, lation, ‘dia’, no sentido de um período de 24 horas.
    (AM)BANTARAN(OS) M provém de *ambi-entar-ono- mīns, ou seja, ‘mês relativo ao que está no meio’; Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 163.

Existem ainda outra palavras e abreviações, mas como algumas não são decifráveis, vou restringir-me às que de facto são.

MID > Mīđ

  • MID aparece antes do nome de cada mês e é certo que é uma abreviação da palavra “mês”. Aqui está a evolução da palavra: *meh1ns- (PIE) > *mīns- (PC) > mīđ (G).

IVOS > Iuos (?!)

  • Apesar do significado ser de facto desconhecido, é estranhamente equivalente a uma das palavra em Proto-Celta para ‘teixo’, *iwo-, que teria certamente evoluído para iuos. É uma das palavras mais repetidas em todo o calendário.
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 194.

ATENOVX > Atenoux?

  • A interpretação mais famosa defende que a palavra provém do Proto-Celta *ati-noxt-, ‘noite de novo’. Porém, não existem razão alguma para acrescentar um u à palavra que seria ‘noite’; curiosamente, a palavra está incluída no calendário abreviada como NOX, sendo que a palavra completa seria noxts (plural: noxtes) (< *noxt-).
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 58.
    Ranko Matasović, “Etymological Dictionary of Proto-Celtic“, pág. 293 e 294.
  • Outra proposta, é que signfica “Atenouion 15”, ‘quinzena renovada’. Em numerais Romanos, 15 é escrito como XV, mas como 15 é dito pempedecan em Gaulês, talvez a ordem tenha sido alterada. Isto não faz muito sentido, visto que o número 15 aparece sempre como XV no resto do calendário.
  • Pessoalmente, prefiro interpretar ATENOVX como “Atenouion”, ‘renovação’, do Proto-Celta *ati-nowyo-.

TIOCOBREXTIO > Diocobreχtios

  • Apesar de parecer complexa, a formação da palavra é relativamente simples. COBREXTIO advém de *kom-reχtu-, ‘com lei’; a transformação de mr em br é amplamente atestada em epigrafia Gaulesa. A partícula TIO tem sido interpretada como uma modificação de dion (< *diy(w)o-), ‘dia’.
    Xavier Delamarre, “Dictionnaire de la Langue Gauloise”, pág. 297.

TRINOX SAMONI SINDIV > Trīnoχtes Samoni Sindiiū

  • Como já foi explicado sobre o mês SAMONI, é possível traduzir esta expressão como “três noites de reunião (começam com) hoje” ou “três noites de verão (começam com) hoje”. A última opção é especialmente improvável, visto que a única variação da palavra para ‘verão’ (*samo- > samos) é *samīno- (> samīnos) e esta não teria evoluído para “samonos”. Além disso, já foi dito que samonos é um cognato de samain.

Funcionamento

Finalmente, convém que o modo de funcionamento do calendário seja explicado. Tentarei explicá-lo de forma simples e precisa, já que até hoje nunca encontrei uma explicação decentemente simples e explicita na Internet. Comecemos com o período mais curto, progredindo para o mais longo.

Crê-se que o período de 24 horas (*latyo- > lation) começava ao anoitecer, de acordo com o relato de Iulius Caesar e com os costumes Gaélicos. Assim sendo, tal período começa à noite (noχts), é seguido da aurora (*wāri- > uāris) e, por fim, do dia propriamente dito (diion).
Tendo também em consideração as duas fontes anteriores, os meses começavam com a lua nova (também chamada de “primeira lua”, *kentu-lugrā > cintulugrā). Assim sendo, a lua cheia (*φlāno-lugrā > lānolugrā) marcaria o meio do mês, ou seja, ATENOVX, e terminaria com a lua escura (temeslo-lugrā > temellolugrā). Assim sendo, o mês ficaria divido em duas semanas, 15 dias antes de ATENOVX, e 14 ou 15 após este. Esta divisão é semelhante à divisão do ano em duas metades.
É sabido que o calendário começa em Samonos, que é um cognato de Samain, por isso pensa-se que o ano (*blid-ni(yo)- > blidnis) começaria no outono também. Num horóscopo Irlandês, o ano começa na primeira lunação após o Equinócio de Outono (http://www.radical-astrology.com/irish/miscellany/irishzodiac.html), o que acrescenta mais um ponto a favor desta hipótese. Uns quantos acreditam que o ano começa na primavera, pois o mês oposto a Samonos chama-se Giamonos. Apesar de o assunto do ano novo (*nowyo-blidni(yo)– > nouioblidnis) entre Celtas ser ainda um mistério, a opção de este começar no outono é mais provável (aconselho que leia a seguinte página: http://www.tairis.co.uk/index.php?option=com_content&view=article&id=129:the-newyear&catid=38:festivals&Itemid=1), não só devido às restantes provas provenientes do calendário de Coligny, como ao folklore e mitologia insular.
Como a duração de cada mês é tão grande quanto a duração da lunação correspondente, o número de dias não é sempre o mesmo – pode-se ter meses com um mínimo de 29 e máximo de 30 dias. Os meses com 29 dias são considerados azarados e nefastos (*an-mati- > anmatis), enquanto que os 30 dias são tidos como sortudos e propícios (*mati- > matis). Existem 6 meses nefastos e 6 outros propícios, exceto em certos anos (mais abaixo).
A soma de 5 anos neste calendário é considerada um ciclo. Duas vezes em cada ciclo, há necessidade de adicionar um mês extra para evitar atrasos – que serão óbvios se tentar marcar os solstícios e equinócios nos ditos anos; estarão sempre adiantados do que se esperaria. Visto que os meses do ano Gaulês duram 12 lunações, nomeadamente 354 dias, o número total de dias não coincide com o ano solar de 365 dias, por o ciclo lunar é mais curto do que o solar. Assim sendo, no primeiro ano de um ciclo, antes do primeiro mês (Samonos), um mês intercalar é acrescentado, e no terceiro ano, é acrescentado outro mês intercalar depois do sexto mês (entre Giamonos e Simiuisonā). Todos os meses intercalares duram 30 dias.
É ao estudar este sistema de computo do tempo que a genialidade matemática e astronómica dos Gauleses é revelada.

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