Deusa da Terra

Esta tipo de Deusa era frequentemente mal interpretada e analisada há algumas décadas atrás, na medida em que era unida a outras Deusas com funções diferentes, mas com alguma afinidade entre si. Porém, o conhecimento de que dispomos atualmente permite que tais enganos sejam coisa do passado.

Em termos Proto-Indo-Europeus, a Deusa da Terra tinha o nome de *Plth2wih2, que significa ‘a ampla’, que provém do adjetivo *plth2u-, ‘amplo’.Esta é a principal característica da terra, é ampla, parece quase não ter fim, e assim surgiu o título para estas Deusas.
Mas antes de partirmos para o paradigma Celta, temos de observar o ponto de vista Védico, no qual foram preservadas bastantes características religiosas PIE.
Entre os Védicos, a Deusa da Terra era conhecida como Prithvi Mata, ‘Terra Mãe’, e era consorte de Dyauṣ Pitā, ‘Céu Pai’ por aproximação. Prithvi Mata era tida em consideração como sendo a própria terra, a sua essência, e os seus epítetos de “provedora”, “sustentadora” e “enriquecedora” fazem jus aos seus atributos relativos à produção agrícola, riqueza mineral e como figura maternal geral.
Estes dois foram responsáveis por parte da Criação, numa das versões do Rigveda: Dyauṣ Pitā fertilizou Prithvi Mata através de chuvas.

Pares semelhantes ocorrem em outras culturas Indo-Europeias: Gaia e Ouranos, Dēmētēr e Zeús (entre outros), Þorr e Sif, Tellus e Aion… Porém este padrão não é universal; uma Deusa da Terra não tem sempre como consorte um Deus do Céu, até porque este pode não existir. Tal é o caso Celta.

É dito que a Deusa Galesa Dôn e o nome Irlandês ‘Danann’ são nomes de uma Deusa do Rio, cujo antecedente linguístico provém do PIE Deh2nu , mas recentemente tal etimologia foi provada errada por John T. Koch, que propõe uma origem no termo Proto-Celta *gdon-, ‘terra’. Citando o excerto próprio, da página 607 de “Celtic Culture: A Historical Encyclopedia“:

Em muitas discussões modernas sobre mitologia Celta, Dôn é ligada ao epónimo da raça
mitológica da literatura Irlanda, os Tuatha Dé Danann e a Deusa do rio Danúbio (ver Gruffydd, BBCS 7.1–4). No entanto, estas equações são foneticamente inexequíveis: o cognato do Irlandês Médio Danu, Britónico *Donū ou *Danū teria necessariamente de ser o Galês *Dyn ou *Dein. A autenticidade e antiguidade do Irlandês Médio Danu foi questionado por Carey (Éigse 18.291–4). Carey ofereceu uma interpretação de Math como um mito pré-Cristão (Journal of the History of Religions 31.24–37), o que sugere outra possível etimologia para o nome Dôn, que este é um cognato do genitivo, dativo e acusativo singular do Irlandês Antigo don ‘lugar, solo, terra’, que é ainda um cognato o genitivo do Grego (…) khthonós ‘terra’.

Assim sendo, temos uma Deusa da Terra como mãe de alguns Deuses, não todos, isto porque não existe qualquer epigrafia ou folklore que faça da noção de que todos os Deuses sejam filhos de uma Deusa uma noção falsa que teria como provável origem a má compreensão por parte de monges cristãos que “registaram” os mitos. Algo que é frequentemente esquecido atualmente é que houve um processo de humanização quando os mitos foram registados, o que é incrivelmente óbvio no “Mabinogi“: apesar dos fantásticos poderes que algumas das personagens possuem, não é dito uma única vez que estas têm carácter divino, são apenas tratadas como humanas.

E é aqui que o argumento anterior de num ponto de vista Celta as Deusas da Terra não estarem ligadas a Deuses do Céu – que não existem, pois foram substituídos por Deuses do Trovão/Tempestade, como no caso Germânico – e o argumento de estas não serem mães de todas as Deusas fica ligado.
Como o leitor se deve lembrar, ao ter lido o artigo Deus do Submundo, os povos Celtas acreditavam que era este Deus que era o seu ancestral, o seu criador. Na Gália, onde temos exemplos tangíveis de emparelhamentos autênticos, não encontramos uma Deusa da Terra uma única vez como consorte de Iuppiter Optimus Maximus. Em vez disso, estas podem ser encontradas como pares de Deuses do Submundo, como nos seguintes exemplos:

  • Sucellos e Nantosueltā.
  • Cīcollus (< kīko-olyo-, ‘carne de tudo’) e Litauī (< *φlitawī < *plth2u-, ‘ampla’).
  • Dīs Pater e Airecurā (este teónimo provavelmente não é Celta).

Assim sendo, temos pelo menos a versão Gaulesa de parte da genealogia divina: o Deus do Submundo e a Deusa da Terra são um par.
Mas nunca é dito nos relatos Clássicos qual é a ancestral dos humanos para os Gauleses, apenas sabemos quem que o antepassado. Porém, os posteriormente humanizados Deuses de Gales e Irlanda são tidos como “filhos da Terra”, segundo a interpretação linguística de John T. Koch. Podemos então postular que como o Deus do Submundo tem a Deusa da Terra como esposa que esta poderia ser considerada como mãe dos humanos… isto poderia ser muito bem um insulto por parte de cristãos aos velhos Deuses, dando-lhes um título que os diminuiria.
Mas isto faz surgir outra questão… se a Deusa da Terra poderia ser considerada mãe por afinidade (geralmente apenas um Deus cria os humanos, como no caso de Óðinn, numa versão) da Humanidade, porque é que nunca é esta mencionada como tal?
Para o leitor com um mínimo de conhecimento sobre a teologia Gaulesa e Britónica, talvez as Mātres sejam uma opção óbvia, mas, a meu ver, está incorreta.
Isto porque o culto das Mātres – verifique a entrada “Matronae” página 1279 de “Celtic Culture: a Historical Encyclopedia” – está eminentemente associado a rios e não à terra, tendo em conta a origem do culto e o que se pode verificar fora da Gália. Porém, este assunto será abordado mais detalhadamente no artigo Deusa do Rio, pelo que o seguinte será uma versão “light”.
Na sociedade pan-Celta, a adoção era algo intrínseco à comunidade, porque a maioria – se não todos os indivíduos – da população era mandada, desde cedo, viver com outra família, apesar de a sua família original se manter viva e capaz de cuidar destes. Pensa-se que praticamente todos os indivíduos teriam crescido numa família adotiva. Temos provas secundárias disto na Gália através de relatos Clássicos e na Irlanda através do folklore e de práticas que sobreviveram até ao séc. XVIII.
Então se na sociedade Celta as crianças são dadas para a adoção, não seria nada impensável acredita que algo teria ocorrido em termos da criação da Humanidade: o Deus do Submundo, cuja esposa é a Deusa da Terra, criou o Homem, mas cedeu a sua “tutela” sobre este. Então, como espécie, ficámos ao cuidado da Deusa do Rio que teria, provavelmente Toutātis (note bem que este nome é um epíteto e não um teónimo) como consorte.

Deixando este assunto de parte, quais são, então, os atributos das Deusas da Terra? Para melhor responder, temos as representações de Nantosueltā e Airecurā.

Nantosueltā (*nanto-swelo-tā, ‘vale solarengo’), consorte de Sucellos, é representada frequentemente com os mesmos atributos: cornucópia, patera, corvo, ceptro encimado por uma aediculastèle-maison.

Nestas representações, as cornucópias e paterae indicam uma relação óbvia à terra, campos férteis e à produção agrícola. Isto atribui-lhe um carácter de Deusa da terceira função de Georges Dumézil.
Por outro lado, o corvo (como mensageiros do além), a aedicula e uma stèle-maison relacionam-na com o Submundo. Como já dito no artigo Deus do Submundo, J. J. Hatt afirma em “Mythes et Dieux de La Gaule” (tomo II, capítulo IX) uma stèle-maison ligaria Nantosueltā a um retiro invernal no Submundo, de forma semelhante a Proserpina; esta associação também lhe daria uma ligação com a estação primaveril, a mais produtiva.
Nas pedras gravadas de Villiers-le-Sec, Teti e Liffol-le-Grand, Nantosueltā é representada como tendo ao pé de si stèle-maisons, que estão associadas aos túmulos, logo, aos mortos. Assim sendo, esta Deusa desceria ao Submundo periodicamente, provavelmente numa data importante, como Samonos ou o Solstício de Inverno. Em alternativa, pode ser que de facto nunca abandonasse esta região, sendo que os frutos e vegetais seriam os seus “presentes” enviados desde o Submundo.

Assim sendo, fica o resumo dos atributos aqui:

Teónimos conhecidos: Nantosueltā, Litauī, Airecurā.
Atributos: Uma das primeiras Deusas, personificação da terra, fertilidade
agricultural, colheitas, vales, montes, gado bovino, Outro Mundo (Andedumnos), sexo.
Consorte: Sucellos (de Nantosueltā), Cīcollus (de Litauī).
Posses: ?
Animais: Corvo (?), vaca (?).
Plantas: Macieira (?), vegetais e grãos.
Cores: Castanho (terra) e verde (vegetação).
Festival principal: Trīnoχtes Samoni, Samalinoχđ Uesonniās (Equinócio de Primavera), Samalinoχđ Uogiami (Equinócio de Outono).
Oferendas: Libações no solo e enterrar parte das colheitas.

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