Deus da Fonte

Para minha própria surpresa, parece que o padrão Irlandês da veneração de um Deus associado a fontes – principalmente termais – parece ter sido cumprido na Gália.

Em suma, a “personagem” de Nechtan é apresentada num mito que figura no “Dindsenchas” (e que Koch menciona, em “Celtic Culture – A Historical Encyclopedia” pág. 217), segundo o qual existe um poço chamado Poço de Segais (que seria a origem de todos os rios), que era habitado por um salmão e rodeado por nove aveleiras. Quem comesse o salmão ou as avelãs que caissem ao posso teria acesso a incrível sabedoria poética e conhecimento. Para evitar que tal acontecesse, apenas Necthan e os seus portadores de copos (cupbearers) se podiam aproximar do poço.
Certo dia, Bóand, esposa de Nechtan, foi até à localização do poço e aproximou-se deste. Três ondas irromperam deste e desfiguraram-lhe um pé, um olho e uma mão, ao que esta fugiu para o mar para escapar à mutilação, mas foi seguida pelas águas brancas de Segais e afogou-se. Assim, surgiu o rio hoje conhecido como Boyne, que era uma das fronteiras territoriais do reino de Ulster.

Este poço e o seu dono – Nechtan – têm intrigado historiadores filologistas e muitos que buscam revitalizar as crenças Celtas antigas, tanto que é necessário enquadrar ambos no panorama religioso Indo-Europeu.

No seu afamado artigo “Le Puits de Nechtan“, Georges Dumézil faz comparações entre Nechtan e outros Deuses associados às águas, nomeadamente NeptunusApąm Napāt (Persa) e Apām Napāt (Védico). Sugere uma etimologia comum para estes quatro teónimos: *nept-o-no ou *h2epom nepōt-, ‘descendente das águas’. A primeira hipótese provavelmente seria viável para o caso Celta, devido à sua ausência no próprio Irlandês. A segunda, não seria apropriada, já que daria origem ao Proto-Celta *nefot- > Irlandês Antigo nia (“Etymological Dictionary of Proto-Celtic“, págs. 286-287).

Quanto a uma análise mitológica, creio que a estabelecida por Jaan Puhvel, em “Myth in Indo-European Antiquity“, é a melhor no que toca ao formar de ligações entre os exemplos Indo-Iranianos e o exemplo Celta registado na Irlanda.

Referindo-se ao curioso conceito de “fogo dentro de água”(algo que na perceção Indo-Europeia tinha grandes poderes essencialmente mágicos), o autor refere que o védico Apām Napāt aparece no “RigVeda” como estando submerso irradiando luz, e rodeado de donzelas (as águas) que o purificam constantemente. O dito brilho seria concedido apenas àqueles que o honravam, algo que poderia ser feito nas águas de rios, do mar e de poços, segundo o conselho do “RigVeda“, no 30º hino da 10ª Mandala, que é dedicado às Águas:

Vai ao reservatório, ó Adhvaryus [título de sacerdote com funções comparáveis às de um uātis] venerar o Filho das Águas com as tuas oblações.
A onda consagrada ele te concederá, por isso prepara-lhe o Sóma rico em doçura.
Aquele que bé brilhante em cheias, em jejum de alimento, a quem os sábios veneram com os seus sacrifícios:
Dá águas ricas em doces, Filho das Águas, até mesmo as que deram heróico poder a Indra.

Por outro lado, na Persia, Apąm Napāt é ainda mais famoso na coletânea de textos religiosos conhecida como “Avesta“, tendo o seu culto sido rival do de Arədvī Sūrā Anāhitā. No mito que expõe o poder de Apąm Napāt este vê-se como o único capaz de resolver favoravelmente um confronto entre as duas forças opostas da cosmovisão Persa: Ahura Mazdā e Angra Mainyu. No mito, ambos os Deuses desejavam possuir Xvarənah – algo comparável à inspiração e sabedoria atribuída por Segais, mas que era um género de aura flamejante que distinguia reis e heróis – e, após uma batalha entre ambos os lados, Apąm Napāt rouba a substância e leva-a até ao fundo do lago Vorukaša. Ahura Mazdā aprova o ato e passa a incitar os humanos a tentarem obter Xvarənah, prometendo-lhes que se o conseguissem, que obteriam o dom do sacerdócio, domínio sobre gado e pastagens e o poder de derrotar qualquer inimigo.

Embora os casos Indo-Iranianos difiram entre si, têm as suas óbvias parecenças: enquanto que os dons de Apām Napāt parecem poder ser encontrados em praticamente qualquer corpo de água, mas através de uma demonstração devoção, podem ser obtidos; por outro lado, Apąm Napāt não incorpora o Xvarənah (‘glória’), sendo apenas seu mestre, e esta apenas pode ser obtida mergulhando no lago Vorukaša.
O tema comum era, portanto, o místico fogo que pode subsistir dentro de água e que concede grandes bênçãos aos humanos e aos Deuses.

Faravahar, por vezes associado ao Xᵛarənah.

Faravahar, por vezes associado ao Xᵛarənah.

Algo curioso é que existe um relato de alguém que tentou alcançar o Xvarənah. O herói Fangrasyan chega ao lago Vorukaša, despe-se e mergulha. Avista Xvarənah e nada até ele, mas este escapa, provocando um turbilhão de água. O herói tenta alcançar Xvarənah mais duas vezes, e em cada uma delas, uma potente descarga de água é libertada do rio.
Posteriormente, vários rios são exaltados somente por serem tributários do lago Vorukaša.

Este episódio lembra o do mito de Bóand e Nechtan, tal como Puhvel bem repara (“Myth in Indo-European Antiquity“, pág. 69), assim como ao motivo de Segais ser a fonte de alguns rios da Irlanda.

 

Pessoalmente, sou da opinião de que o conceito de “fogo em água” possa ter sido inspirado ou por fontes termais, ou pelo expelir de gases que se encontrem armazenados sob o fundo de uma fonte de água: ou seja, talvez tenha uma dimensão geológica.
Na Irlanda existem, atualmente, 29 fontes termais (http://www.ecoserve.ie/index.php?option=com_content&task=view&id=28&Itemid=43) e penso que seja possível que o poço de Segais possa ter sido um. Isto alia-se ao facto de, segundo a proposta de Matasović, o teónimo Necthan provir do PIE *neygw- (‘lavar’, ‘banhar’), nomeadamente do particípio passado *nigw-to-, que passou para o Proto-Celta *niχto-, permitindo a existência do Irlandês Antigo Nechtan, de *Niχto-ono-, ‘Grande Banhado/Lavado’ (“A reader in comparative Indo-European Mythology”, pág. 13; “Etymological Dictionary of Proto-Celtic“, págs. 291-292).

Este é o metafórico bilhete de passagem para a Gália.

Em Haute-Marne a Champagne no centro-norte de França, existem dedicações a Deuses de nome Boruū, Bormū e Bormānus (latinização de Bormānos), todos sincretizados com Apollō. Todos estes teónimos têm raiz no Proto-Celta *berw-ā-, ou seja, ‘ferver’ ‘cozinhar’ (“Etymological Dictionary of Proto-Celtic“, págs. 63), sendo que as formas que figuram -rm- se devem e lenição tardia do -rw- original, sendo que teríamos, em Gaulês Antigo e Médio: Boruū e Boruānos, ambos significando ‘Fervilhante’ (“Celtic Culture – A Historical Encyclopedia” pág. 231) (“Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 83).
Existe, contudo, um detalhe fulcral: apesar de sincretizados com Apollō, apenas partilham talvez um dos seus atributos – a cura. Se o leitor ler o artigo Deus do Sol, poderá ler uma ampla comparação entre vários Deuses solares Indo-Europeus, e como estes ajudam a interpretar o mais amplamente atestado Deus solar da Gália: Grannos. Para não ter de repetir tudo o que foi exposto no dito artigo, peço-lhe que o abra para que possa fazer a comparação de atributos por si próprio.

Ora, Boruū aparece na localidade de Vichy, representado na forma de um homem sentado numa rocha, nu, e segurando um cálice do interior do qual borbulha um líquido (“Celtic Culture – A Historical Encyclopedia” pág. 230).

Boruū de Vichy.

Por outro lado, em Entrains, aparece segurando, de novo, um cálice, um saco cheio de dinheiro e uma patera com frutos (“Celtic Culture – A Historical Encyclopedia” pág. 230).
Por fim, em St-Aubin-des-Chaumes, este Deus segura um pote no qual é contido um líquido, uma ânfora, e uma cornucópia cheia de frutos (“Symbol and Image in Celtic Religious Art” pág. 107).

Comparando-o com Grannos, podemos aperceber-nos de que a faceta de curador está, de certa forma implícita, pois era esta a fama das fontes termais na Antiguidade (e até na atualidade). Contudo, as duas representações sugerem que talvez não fosse a sua principal função.
Não é feita nenhuma alusão a visão. Não há indícios de associações equídeas, Não tem epítetos que o remetam para um autêntico Deus solar (como Grannos Phoebus). Ou seja, é uma divindade distinta.

Atrevo-me a postular que o cálice de líquido borbulhante seja como que semelhante ao dos cupbearers de Nechtan, que, além do próprio, eram os únicos que podiam ter acesso ao poço de Segais. Olhando para a escultura de Entrains, é possível postular que o cálice conteria as águas borbulhantes que contivessem o “fogo em água” que concederia a quem a bebesse ou nela se banhasse, dons vagamente semelhantes aos do exemplo do “Avesta” e do “Didsenchas“:

  • inspiração (similarmente ao poço de Segais)
  • prosperidade agrícola (patera repleta de frutos)
  • riqueza (saco de moedas)

Quanto às suas relações familiares, estas fazem mais sentido quando olhadas à luz do já mencionado artigo Deus do Sol e Deusa Celestial.
Boruū e Boruānos podem aparecer, por vezes, com versões femininas suas: nomeadamente Boruānā, como na inscrição de Die (“Celtic Culture – A Historical Encyclopedia” pág. 231). Contudo, é mais frequente aparecerem na companhia da Deusa Damonā/Dāmonā; esta última é categorizada neste website como uma Deusa celestial, tendo em conta as suas semelhanças com Đironā e o sincretismo de ambas com a Deusa Hygēa. Se Damonā/Dāmonā é esposa de um Deus solar (como tentativamente presumo que Moritascus seja, na ausência de iconografia), como pode aparecer acompanhando Boruū e Boruānos?
À luz do mito figurado no “Didsenchas“, poderíamos presumir uma ligação de Damonā ( < *damā-onā, ‘Grande Vaca/Toura’) a Bóand ( < *bow-windā, ‘branca como uma vaca’) e afirmar que seria amante ou esposa destes Deuses. Contudo, também é possível ver Dāmonā ( < *dāmā-onā, ‘Grande Seguidora’) como uma forma viável fazendo uma alusão à função desta como possível cupbearer.
Pessoalmente, não estou inclinado a ver Damonā/Dāmonā como algo mais do que esposa de um Deus solar, sendo que prefiro vê-la como um género de mãe, fazendo alusão ao que foi afirmado por Apollṓnios Rhódios e à citação do “Canção de Amhairghin“:

Uma lágrima do sol.

Ou seja, de que Boruū e Boruānos, como origem do “fogo na água” tenham nascido das lágrimas do sol.
Quanto à diferença mitológica entre fontes dedicadas a Deuses solares e a outras dedicadas a este tipo de Deus, é algo que não está muito bem claro na atualidade. Julgando pelo caso de Grannos, julgo que seria possível presumir que haveria fontes dedicadas a ambos os tipos, segundo um critério hoje desconhecido.
De igual forma, as formas femininas dos teónimos também não são compreendidas, visto não existirem cognatos Indo-Europeus destas geminações. Serão consortes ou, mais provavelmente, irmãos?

Teónimos conhecidos: Boruū ( > Bormū) e Boruānos ( > Bormānos).
Atributos: Fontes termais, cura (?), inspiração, riqueza, prosperidade agrícola.
Consorte: (dúbio).
Posses: Cálice.
Animais: ?
Plantas: ?
Cores: ?
Festival principal: ?
Oferendas: ?

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