Deusa da Soberania

Este tipo de Deusa está intrinsecamente ligado à conceção Indo-Europeia de que uma Deusa ligada à Terra concede soberania a um homem que seja digno de governar. Isto é, claro, uma simplificação de algo mais abstrato.

Comecemos, primeiramente, com a versão Proto-Indo-Europeia que deu origem a todo um conjunto de mitos e ritos ligados à soberania.
Algo essencial à cultura Proto-Indo-Europeia foi o uso de cavalos, principalmente para fins bélicos; algo que distinguia um guerreiro de um outro indivíduo era a posse de um cavalo, era algo que concedia estatuto e era prova de elevado estatuto.
Assim sendo, é possível conhecer uma Deusa que assumiria uma forma equina  e que, ao mesmo tempo, teria ligações à Terra; talvez esta ligação se deva ao facto de o cavalo ser desde há milhares de anos o animal que mais rapidamente percorra grandes distâncias na Europa, na terra. Porém, esta ligação à Terra não é literal, mas sim simbólica. A Deusa da Soberania é uma “abstração” do conceito da Deusa da Terra, é ela que concede domínio sobre esta embora ela não seja a própria Terra.

Estando a ligação aos equídeos estabelecida, é aqui que entra o seguinte ponto equação: o sacrifício de cavalos. Este ato bem Indo-Europeu, é tem uma atestação considerável e as funções de cada versão são bastante semelhantes.
O melhor exemplo é o do rito Védico Aśvamedhá, ‘sacrifício de um cavalo’. Este rito, que era dos mais importantes ritos da realeza Védica, é descrito no “Yajurveda“. Este ocorria durante a samiti, a assembleia anual tribal na qual se tratava de assuntos políticos e se elegia, portanto, o novo rei. Tal como na maioria das culturas Indo-Europeias, o rei provinha sempre da classe guerreira – conhecida como kṣatriya; o rito tinha, de certa forma, a função de ligar o rei ao Deus responsável pela criação, Puruṣa, o ‘Homem Cósmico’. De forma semelhante a Ymir, Puruṣa, foi despedaçado para criar o cosmos e é este ato que se procura replicar através do sacrifício do cavalo, que é descrito como análogo do universo.
Essencialmente, o sacrifício envolveria a chacina do cavalo e o posterior desmembramento deste em partes, de acordo com as analogias ao mito da criação do universo. É nesta parte do rito que o rei (rāja) é vigiado por um hotṛ, um sacerdote que está encarregue de invocar os Deuses; por cada parte que era retirada do corpo do cavalo, era invocada uma divindade à qual se devia apresentar o dito órgão ou parte. O que restasse seria consumido pelos participantes.
As mulheres do rei também estariam presentes na celebração.
O Aśvamedhá é, portanto, rito de cariz restaurativo da cosmologia, de cariz fundacional, que se alia à política e socidade, na medida em que inclui a eleição de um rei em assembleia, a inclusão da classe sacerdotal e o requerimento de votos militares (era tradição deixar o cavalo que seria sacrificado andar livremente, mas vigiado por guerreiros; caso entrasse em território estrangeiro este teria de ser conquistado posteriormente à inauguração do rei). Existe ainda o detalhe de terem sido usadas três facas para o sacrifício: uma de ouro, outra de cobre e ferro. O outro representaria a realeza guerreira(kṣatriyā), o cobre os sacerdotes (brāhmaa) e o ferro os camponeses (vaiśya).
(Confira “Aśvamedhá – A Vedic Horse Sacrifice” de Roman Zaroff, in “Studia Slavica 2005”)

Nas proximidades da Gália, em Roma, temos o semelhante – mas não igual – rito conhecido como October Equus, ‘cavalo de Outubro’. Este rito, apesar de não relacionado com a soberania nos tempos em que foi registado, pode ter origem num. Descrito por Ploútarkhos, Polybius, Paulus e Festus, este rito consistia em matar um cavalo – que tivesse ganho uma corrida – com um dardo após uma batalha encenada, que tinha lugar no Campus Martius, ‘Campo de Marte’. Era, essencialmente, um rito em honra de Mārs, e teria sido celebrado antes de batalhas importantes e guerras.
O conceito de soberania entra em cena após a morte do cavalo. Após o animal ser morto, um dos grupos – que representavam as forças autóctones Romanas – tentaria colocar a cabeça do cavalo nas muralhas da Regia (edifício situado no Forum Romanum servia de lar aos reis de Roma e, posteriormente, ao Pontifex Maximus). O outro grupo, representava as forças estrangeiras, cuja função seria impedir tal ato de acontecer.
Temos aqui, portanto, um ato que tem como função propiciar a vitória ao povo Romano, mantendo a soberania deste sobre as suas terras (presentes e futuras), através do sacrifício de um cavalo.

Os leitores mais familiares com a “Hervarar saga ok Heiðreks” (“Saga de Hervarar”), lembrar-se-ão de algo familiar aos exemplos descritos, em que Blót Sweyn é inaugurado como rei e para a ocasião requer-se que um cavalo seja sacrificado. O cavalo era morto, despedaçado e cozinhado, enquanto que o seu sangue era espalhado na árvore sagrada em Uppsala.

Entre os Citas (*Skuda), um dos mais misteriosos povos Indo-Europeus (apenas destronados pelos Tocarianos), também poderão ter celebrado um rito semelhante. Hēródotos menciona que os Citas sacrificavam regularmente cavalos a muitos dos seus Deuses (algo amplamente atestado arqueologicamente), mas davam principal primazia a “Ares”. A ligação de cavalos ao equivalente Cita de Ares faz sentido, já que os Citas usavam estes animais com grande frequência em guerras e batalhas. Infelizmente, a raison d’être deste rito perdeu-se para todo o sempre.

Por fim, antes de retornarmos aos Celtas, fica o caso Eslavo. De acordo com o etnógrafo russo Sergei Maksimov, quando uma doença do gado surgia, os camponeses levavam o ícone de São Blasius empurravam um cavalo, uma ovelha e um cordeiro para o fundo de uma ravina ou vala, juntamente com os animais doentes. Depois, os animais eram apedrejados até à morte e incinerados. Este ritual ocorreu ainda em tempos “recentes” (séc. XIX), mas foi corrompido sendo difícil de discernir os elementos pré-Cristãos claramente.
Porém, a antiguidade do rito é evidente. A associação com São Blasius aponta para que anteriormente se tenha apelado a Veles/Volos. Este Deus, como é descrito no artigo Deus do Submundo, tem, entre outras funções, a de cuidar do gado. Existem provas de que os Bálticos (vizinhos dos Eslavos) também celebravam ritos semelhantes: sacrificavam cavalos, touros e bodes Vélinas/Velnias/Vóls, que é um cognato de Veles/Volos. O rito teria sido celebrado por sacerdotes especializados, pelo menos entre os Eslavos, que mantinham uma estrutura social tripla; com destruir da sociedade antiga, os ritos antigos passaram a ser celebrados pelo povo comum.
O cariz comunitário do rito em tempos de ameaça ou perigo e o sacrifício do animal mais importante aponta para uma função de fomentar a coesão social, além da já mencionada tentativa de obter auxílio do Deus. Apesar de não estar diretamente relacionado com a soberania na forma como chegou aos dias de hoje, quer em práticas folclóricas ou em relatos, a conexão Indo-Europeia é bastante provável.

Eponā (achada em Köngen).

Entre Celtas, a história seria semelhante ao exemplo Védico. Giraldus Cambrensis (in “Topographia Hibernica”) – também conhecido como Gerald de Gales – relata que em Kenelcunill, na província de Ulster, Irlanda, no séc. XII, uma égua branca foi trazida para inaugurar um novo rei. Neste evento estava presente um grande número de pessoas, provavelmente toda a comunidade.
A égua foi trazida e o rei teve relações sexuais com ela (não se sabe isto é algo fictício, simbólico ou literal) e após tal, foi morta. Foi cozinhada e certas partes foram consumidas pelo rei, enquanto que o resto foi distribuído pelas pessoas que estavam lá reunidas. Isto é um paralelo com o rito Védico.
É dito que o rei se colocava no interior do caldeirão com água e come a carne e bebe o caldo ainda no seu interior. Isto é certamente um exagero, de tão alheio que é às conceções Celtas (e ao senso-comum, diga-se).
A parte em que o rei tem relações sexuais com a égua é algo ligeiramente mais plausível, embora seja impossível de confirmar ou não. Trata-se de um ato que representaria a união entre a senhora da Terra – a Deusa da Soberania – e o rei que ficaria encarregue de governar o território. Também teria a função adicional de provar o vigor do indivíduo. O sacrifício inaugural de um rei, entre Celtas, é, essencialmente, um contrato entre a Deusa da Soberania – frequentemente chamada de Rainha (rīganī) – e o rei (rīx).

Algo bastante comum na mitologia sobrevivente da Irlanda e Gales são os mitos relacionados à soberania. A Deusa da Soberania é a personificação do direito de governar, e não da própria terra.
Na típica narrativa sobre a soberania (*wlati- > ulatis), o homem destinado a tornar-se rei tem um encontro sexual real ou aludido com uma mulher misteriosa, que mais tarde é revelado ser uma representação da soberania do local que irá governar. Por vezes, a dita mulher é feia até se transformar em uma bela mulher quando se encontra com o futuro rei, como no “Echtra Mac nEchach Muigmedóin” (“A Aventura dos Filhos de Eochaid Muigmedón”).
Algo comum entre quase todos os mitos de soberania é a presença de uma mulher com grande afinidade a cavalos. Temos vários exemplos insulares como Rhiannon, Medb, Macha e possivelmente Morrígan.
Rhiannon (< Rīgantonā < *rīgant-onā, ‘grande rainha’)  foi associada por Catherine McKenna não só ao direito de governar de Pwyll, mas também à correta preparação deste para se tornar rei; temos então, uma Deusa da Soberania que defende quem é digno de governar. Caso restem dúvidas, o esposo de Rhiannon é Teyrnon, um nome que provém do Galo-Britónico Tigernonos, que teve origem no Proto-Celta *tigerno-ono-, ‘grande senhor’.
Por outro lado, temos Medb (< Meduā, ‘a intoxicante’ < *medu-, ‘hidromel’) que carrega um copo com uma bebida ligada à soberania, o hidromel. Segundo os mitos do “Tain Bó Cuailnge”, Medb teve uma filha chamada Findabair. Medb usou a sua filha para vários planos que – que envolviam um campeão casar-se com a sua filha – tinham como função livrar-se de Cú Chulainn. Usando assim a sua filha de forma manipuladora temos então outro aspeto desta Deusa: a relutante e ressentida em atribuir o poder a quem considere indigno. O nome desta Deusa não é acidental. A temática do hidromel é  abordada no Galês “Y Gododdin”, em que guerreiros nobres são convencidos a beberem bastante hidromel (e a se banquetearem também), mas a custo de uma posterior terrível derrota no campo de batalha. Aqui está a ligação quase paradoxal: apesar de ser uma bebida digna de guerreiros, tem efeitos nefastos, intoxicantes que toldam as capacidades dos homens. Pode-se postular que o posterior mito de Medb teria origem num mito em que uma Deusa da Soberania escolheria o seu esposo, oferecendo uma libação em honra deste. De facto, Medb faz isto mesmo, mas de forma dissimulada, com cada um dos três heróis do “Fled Bricrenn” (“Festim de Bricriu”); posteriormente, Medb dorme com Cú Chulainn. Isto pode ser uma sobrevivência de uma tradição relacionada com a soberania como a relatada por Giraldus Cambrensis, apesar de Cú Chulainn não ter vivido para se tornar rei, tendo sucumbido a uma violação das geasa (proibições, maldições) que lhe foram impostas.
Máire Bhreathnach and Máire Herbert interpretam Morrígan (*moro-rīganī, ‘rainha dos pesadelos’) como mais outra Deusa Soberana. No “Cath Maige Tuired” (“(Segunda) Batalha de Mag Tuired”) é ela que atribui o território a Dagda ao se unir a este sexualmente. Ademais, é dito que Morrígan pode comparecer a uma derrota de um herói o rei.

John T. Koch postula que os relatos Helénicos e Romanos de mulheres Celtas de elevado estatuto – como Cartimanduā (cujo nome contém *mandu-, ‘pónei, cavalo pequeno’) – possam ter sido identificadas com Deusas da Soberania, visto que não poderiam cumprir as funções de um rei e copular e casar com a própria Deusa.

Eponā (achada em Bregenz).

Então como seriam as coisas na Gália?
Sem grandes complicações, temos dois teónimos que são indubitavelmente pertencentes a Deusas da Soberania: Eponā e Medunā. O primeiro refere-se a cavalos, provindo do Proto-Celta *ekwo-onā, e significa ‘grande égua’. O segundo refere-se ao hidromel, de forma semelhante a Medb, contendo a raiz *medu-.
Algo curioso sobre Eponā é que o seu culto foi adotado pela Ordo Equester de Roma, e o seu nome é o mais bem atestado de entre todas as divindades Gaulesas. Em “Celtic Culture – A Historical Encyclopedia” podemos ler que o culto a Eponā ultrapassava a dimensão militar, sendo que a maior parte das provas do culto provém de inscrições de privados. Nestas inscrições, recebe epítetos que claramente a relacionam com a soberania e que denotam o antigo elevado estatuto que tinha entre Gauleses; tais epítetos são Dea, ‘Deusa’, e Regina, ‘Rainha’. Porém, é na inscrição achada em Rom, na commune de Deux-Sèvres, que ainda mais são revelados:

  • Eponinnā – (Gaulês) ‘pequena Eponā, Eponāzinha’.
  • Potia – (semelhante ao Grego potnia?) ‘senhora’.
  • Dibonia – (Latim) ‘boa Deusa’ .
  • Catonā – (Gaulês) ‘grande batalhante’.
  • Uouesiā – (Gaulês) ‘sob a excelência’.


Como Eponā é rainha dos Deuses invariavelmente, necessita de um esposo, como nos mitos insulares; tal como nestes, não terá um esposo definitivo, sendo que mais do que um Deus assumiu a soberania ao longo da histórica teológica Celta.
Primeiramente foi rei o Deus da Lei (Nuadu, Teyrnon, Nudd), mas após ficar fisicamente imperfeito ao perder uma mão, perdeu o direito à soberania.
Posteriormente substituiu-o o Deus do Trovão/Tempestade (Dagda, Elcmar), cujo reinado poderia ainda estar em vigor aquando da conquista Romana. Porém, Eponā aparece demasiadas vezes acompanhada por Iuppiter Optimus Maximus (a sincretização deste Deus) para sermos levados a crer que o seu reino terminou.
Eventualmente, o anterior seria substituído, tal como no caso Irlandês, pelo Deus Multi-Habilidoso (Lug, Lleu). Já no tempo da conquista dizia-se entre Gauleses (algo revoltados) que Taranus era “rude” e já o culto a Lugus era mais popular na altura. Se Lugus de facto atingiu o estatuto de rei dos Deuses, isto poderia significar uma coisa: que a sua esposa, Deusa da Prosperidade – Rosmertā, Cantismertā, Atesmertā – seria talvez filha dela (à semelhança de Findabair). Isto tem fundamentação na inscrição Gaulesa de Puy-de-Dôme em que se pode ler:

“(…) ieuri Rīganī Rosmertīac
“(…) dediquei à Rainha e a Rosmertā

Ambas as Deusas aparecem claramente distinguidas, mas com uma ligação entre si. Afinal, Lug e Lleu nunca casam com figuras associadas à soberania, o que pode ser explicado por o seu reinado ter sido considerado (em tempos pré-Romanos e pré-Cristãos) como algo que aconteceria num futuro distante; algo a considerar, mas que demoraria a acontecer.

Teónimos conhecidos: Eponā, Medunā, Dēuonā (*deywo-onā, ‘grande Deusa’) (?).
Atributos: uma das primeiras Deusas, governa a terra em vez de ser a sua personificação, concede soberania ao rei, bebida da soberania (hidromel), guerra, fertilidade terrena, riqueza, cavalos (e outros equídeos), rainha dos Deuses.
Consorte: Deus do Trovão/Tempestade (atualmente), Deus da Lei (no passado).
Posses: ?
Animais: Égua branca.
Plantas: ?
Cores: Branco (?).
Festival principal: Sonnassodion Giami (Solstício de Inverno) (per edícula de Castel e festival Romanizado de Eponalia)
Oferendas: Libações de hidromel no solo ou pedregulhos.

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