Recintos Sagrados e Templos

Os Nemetā Antigos

O termo Celta para ‘santuário’ tem origem no Proto-Celta *nemeto-, que por sua vez originou o Galo-Britónico nemeton (plural: nemetā), o Bretão Antigo nimet, o Irlandês Antigo nemed e Galês Antigo nivet (Marcílio Silva propôs o Celtibérico nemetom and Calleaco nemidom).
Em Gaulês, o termo está muito bem atestado e é possível encontrar vários exemplos no “Dictionnaire de la Langue Gauloise” de Xavier Delamarre; aqui estão alguns:

  • Drunemeton, em Gaulês Gálata (mencionado por Strabon), que pode significar ‘santuário de carvalhos’ ou ‘santuário firme” (*derwo- e *dru- podem querer dizer ‘carvalho’ mas também podem ser usados como adjetivos para ‘forte’/‘firme’).
  • Medionemeton, um topónimo que significa ‘santuário central’; provavelmente referia-se ao nemeton mais importante da região.
  • Na inscrição de Vaison, pode-se ler que um indivíduo chamado Segomāros (‘grande em força’) dedicou um nemeton à Deusa Belisamā.

Porém, esta palavra é um pouco vaga, pois pode ser aplicada a praticamente qualquer espaço considerado sagrado.

No que toca a exemplos físicos, existem bastantes na França e Alemanha, sendo que irei abordar três que são os que estão melhor documentados: de Gournay-sur-Aronde e Corent.

O nemeton de Gournay-sur-Aronde é algo pequeno – porém valioso por permitir discernir as práticas religiosas da Gália pré-Romana – foi encontrado na ladeira a sul do vale Aronde, no departamento de Oise, e foi escavado de 1977 a 1984 por J. L. Brunaux.
De acordo com a informação reunida, a atividade neste local começou por volta do séc. IV AEC, que corresponde ao período La Tène Inicial; foi durante esta fase que o recinto foi construído e os fosse aux vases (vala de vasos) foram escavados. No século seguinte – que corresponde ao fase La Tène Média – outro templo foi construído sobre o original e parece ter havido maior frequência de atividade nesta versão.

A área posta de parte para práticas de culto é limitada por um grande recinto retangular, que mede 40 x 40m. O próprio recinto está separado do resto do “mundano”, digamos, por uma vala de 2m de profundidade e 2.5m de largura e por uma vedação de madeira no lado interior do recinto para separar ainda mais a área e para a proteger de hipotéticas incursões inimigas. Para entrar no espaço sagrado, as pessoas teriam de atravessar uma pequena ponte de madeira e um portão de entrada que está a este, seguindo um padrão familiar a outros templos de origem Indo-Europeia (entrada no este, seguindo o percurso do sol e da lua, que era considerado propício).
No centro do santuário, existiam um grande fosso, assim como estruturas de madeira enquadradas em postes, que são resquícios de um edifício, onde os restos mortais de animais sacrificados eram mantidos como troféus.
O fosso central contém o maior número de ossos de animais, assim como de humanos e armas, de todo o nemeton e tem sido interpretado como uma vala sacrificial, na qual os seres e objetos sacrificados eram propositadamente depositados para servirem como presentes para os Deuses e Deusas do mundo inferior (Andedumnos) e talvez para os antepassados. Este fosso estava revestido com madeira (lembrando um barril), de modo a permanecer estável, sendo que se julga que teria estaria tapado com uma forma de tampa no topo depois de ritos.
Ovelhas, porcos e gado eram chacinados e consumidos in loco, não havendo restos mortais de cavalos. Isto corrobora a famosa prática de banqueteamento entre Celtas. Para além de provas de armas e animais, a atividade ritual é evidenciada pela regularidade e constância dos depósitos, que se estende durante um período de cerca de um século e meio, mais ou menos de 250 a 100 ACE.

As armas e os humanos foram previamente expostos como troféus no alpendre perto da entrada do nemeton, para que pudessem ser vistos pelos adoradores vindouros, à medida que se aproximavam do santuário. As armas foram ritualmente destruídas, uma prática esperada dos Celtas, para que não pudessem ser usadas pelos vivos; da mesma forma que só os mortos podem entrar em Andedumnos, armas e outros objetos também devem ser “mortos” para serem usados por aqueles que os vão receber.
Ou foram carregados desde um campo de batalha e lá expostos, ou então sacrificados no nemeton. No entanto, a análise de Brunaux mostra que o padrão de deposição contínua sugere que os guerreiros e as armas foram sacrificados em intervalos regulares e não eram apenas despojos de guerra. Posteriormente, foram lançados para a vala que também servia como repositório para carcaças animais.
Deve ser referido que não foi achada qualquer representação física de divindade alguma, o que não quer dizer que não houvesse outros métodos de representar os Deuses (como, por exemplo, marcas e pinturas em madeira e afins).

Posteriormente, no séc. II AEC, este nemeton foi aparentemente abandonado e as práticas religiosas só voltaram no período Augustino (27 AEC – EC), quando um fanum Galo-Romano foi construído lá perto. Infelizmente, as práticas religiosas terminaram permanentemente no séc. IV EC, depois da vitória do culto de Jesus da Nazaré.

Primeiramente, gostava de o convidar o/a dar uma vista de olhos à webpage que permite a exploração virtual da aldeia de Corent, com especial ênfase no seu nemeton: http://com.cg63.fr/com/corent/
A maioria das imagens abaixo provirão desta página e quando nenhuma for mostrada, podem ser encontradas na dita cuja (assim como a descrição das atividades que lá decorreram).
Também aconselho que visite esta página – http://www.luern.fr/Fouille.htm  – que contém informação adicional preciosa sobre os achados em Corent.

Puy de Corent fica perto da cidade de Auvergne, que foi assim nomeada em honra à tribo dos Aruerni (*φare-werno-, ‘os que estão próximos do amieiro’).
É um templo único pois não está fora das muralhas da vila, mas dentro delas, é um nemeton, urbano o que o torna verdadeiramente único.

As primeiras escavações ocorreram entre 1992 e 1993 e revelaram um grande santuário Romano. Porém, as escavações de 2001 a 2005 demonstraram que este santuário tinha sido precedido por outro local de veneração construído no fim do período Gaulês, por volta de 130 AEC. Este santuário era delimitado, originalmente, por uma vedação alta de madeira, localizada atrás de uma vala profunda escavada no solo. A primeira planta do santuário é substituída no primeiro século AEC por uma galeria de postes de madeira nos quatro lados do pátio; isto é sem dúvida devido a influência Helénica. Além disso, o pórtico de entrada (novamente a este) tinha 8m de comprimento.
Todo o santuário continha várias áreas que tinham funções específicas nas atividades religiosas que tinham lugar no interior deste. Havia uma oficina de cunhagem, um pequeno edifício onde animais eram sacrificados, uma área posta de parte para preparar festins, uma estrutura para colocar troféus, um diminuto curral para manter animais e um edifício para sacrificar ritualmente ânforas. Em algumas zonas do pátio, existiam foços para serem acendidos fogos.
Não se sabe ao certo o porquê da existência da oficina de cunhagem dentro do nemeton, mas foi revelado que pelo menos uma parte das moedas foram feitas especificamente para serem oferecidas aos Deuses, por terem sido achadas em depósitos votivos. Foram achadas mais de 800 moedas e podem também ter sido usadas para trocas comerciais dentro do templo e entre adoradores.

O edifício onde os animais eram sacrificados tinha o seu exterior adornado com maxilares e crânios de carneiros sacrificados. No interior, havia uma pedra que servia de altar, com um buraco em forma de gamela, no qual os animais eram chacinados. Também dentro do edifício, havia um buraco no chão para dentro do qual o sangue era oferecido aos Deuses.
A cozinha do nemeton tinha a função de preparar os banquetes para os adoradores, usando a carne dos animais sacrificados, que era grelhada com o auxílio de utensílios de ferro ou cozida em caldeirões ou potes de cerâmica.
Também havia uma estrutura de madeira que era usada para expor crânios de animais sacrificados, talvez como forma de prova da grande atividade – e, de certa forma, da eficácia – do nemeton e dos seus sacerdotes.
A única função do curral era manter animais por perto para que fosse mais fácil e rápido sacrificá-los.
Dentro de outro pequeno edifício, ânforas cheias de vinho importado eram abertas de forma semelhante ao costume “moderno” intitulado sabrage, que consistem em abrir garrafas com um golpe de espada. Aqui – e noutros sítios arqueológicos Gauleses – o topo das ânforas era decepado com um rápido golpe de uma espada e depois, os seus conteúdos eram derramados para dentro de um buraco, como oferendas para os Deuses.

Recomendo intensa e vivamente que o leitor visite o website da vila Gaulesa de Acy-Romance (primeiro da lista abaixo), que tem conteúdo muito precioso e útil e que não incluo aqui para não tornar o artigo demasiado extenso e cansativo de ler.
Além deste, existem outros websites que são úteis para conhecer os detalhes da organização e achados em outros nemetā.

Os Novos Nemetā

Pode um Reconstrucionista Gaulês recriar um nemeton? Acho que a respostas é bastante óbvia: com certeza! A partir de todas as provas que reuni, é possível criar um nemeton para uso pessoal, mesmo que o indivíduo não possua qualquer terra e não possa celebrar quaisquer lītoues (sg: lītus, ‘celebração’, ‘rito’) no exterior, havendo ainda uma maneira de o fazer, desde que haja determinação para tal. Darei o meu melhor para expor como qualquer Politeísta Gaulês – ou mesmo Britónico, pois não havia muitas diferenças entre os seus nemetā – pode construir o seu próprio nemeton, de acordo com o problema da vida moderna que o impossibilitaria.

O Gaulês Urbano
Não possui um jardim, apenas uns quantos vasos, o que faz? Bem, se vive sozinho/a ou vive com pessoas tolerantes – ou sabe como fazer um favor a si próprio/a, omitindo a sua fé a quem se oporia – tem duas soluções: ou reserva uma sala inteira para usar como nemeton ou usa para dela; em qualquer dos casos, não é forçado/a a ter um santuário permanente, embora fosse bom que tivesse (e conheço algumas divindades que ficariam satisfeitas se o fizesse). O que realmente tem de ser é engenhoso.

Começando pela primeira opção, é necessário ter em conta os pontos cardeais. Onde está a porta daquela sala? Se não está a este, convém que escolha outra sala ou que faça o recinto dentro da sala, para que possa entrar e sair pela dita direção. A maioria dos nemetā tem dois grandes postes ou rochas de cada lado da entrada, e também pode adotar algo semelhante.
Como irá fazer o recinto? Seria bom ter uma barreira minimamente física (nada de traçar Círculos e afins, por favor). Já vi pessoas a usarem um tapete grande, dentro da área do qual celebram os lītoues; não vejo nada de errado nisto.
Seguidamente, é necessário dividir o pretenso nemeton em partes. Precisa de um altar e de um fogo para sacrificar, um ou mais fossos/valas para depositar algumas oferendas, um local para expor alguns dos restos dos sacrifícios e mais algumas coisas… mas não pode ter nada disso, pois está dentro de um edifício. Novamente, precisa de ser inventivo/a.
Para o altar, pode-se usar uma mesa pequena ou até empilhar algumas pedras que achou num campo. Não precisará dele para suportar estátuas e afins, pois apenas era usado para sacrificar; quaisquer representações dos Deuses (Caesar afirmou que os Gauleses usavam simulacra em vez de estátuas, podendo ter-se referido a algo como ‘godpoles’ e talvez pinturas de Deuses ou símbolos deles, etc) não estariam sobre ele.
O fogo – que era usado (tanto quanto se sabe) para queimar oferendas para Taranus – também é parte integrante de vários nemetā, mas em vez de um, pode usar um fogareiro ou o que quer que ache mais seguro e útil.
Para os fossos/valas, pode certamente usa malgas, taças, jarros ou algo semelhante; usa-las-á preferencialmente para conter temporariamente as oferendas, pois deve depositá-las num destino final (debaixo do solo, de água, perto de uma árvore, etc, dependendo do Deus ou Deusa a quem está a presentear).
Por fim, pode usar praticamente qualquer superfície para exibir parte das oferendas, mas as melhores são mesas pequenas e cabides para roupa.

Pode, também, optar por uma “simplificação” que se verificou em vários nemetā (como no de Montmartin e Gournay-sur-Aronde) : prescindir da pedra de altar. De facto, o mais comum é não haver uma pedra que sirva para sacrificar, existindo apenas o fosso que se torna o foco dos ritos. Esta conceção é cognata do devi Védico, em que o “altar” é um fosso no solo, rodeado por um pequeno muro rasteiro.
Assim sendo – como verificado no nemeton de Montmartin – na posição do altar, estaria o fosso sacrificial com o aidu ao lado. Isto não impede, porém, que existem outros fossos e vales menores para sacrificar.

Lembre-se de verificar a secção “O Gaulês suburbano ou do campo” para ver duas plantas de como o seu nemeton pode ser orientado.


O Gaulês suburbano ou do campo

Um Reconstructionista Gaulês que viva nos subúrbios ou numa área mais rural pode certamente ter uma maior liberdade para expressar a sua religiosidade, quando comparado com quem vive num apartamento.
Embora provavelmente não possa ter um nemeton complete com poços de oferendas, um fogo e postes para expor “restos mortais” se viver num subúrbio, mas é possível ter algo bem semelhante.
Mas o “Gaulês do campo” é sem dúvida o mais privilegiado, pois pode usar moldar a sua terra às suas necessidades: cavar um fosso, reunir ramos para construir uma estrutura para exibir troféus, cavar o recinto, construir uma vedação, etc. Os mais sortudos terão muito terreno ao seu dispor, o que lhes permitirá manter as suas práticas escondidas dos olhares dos curiosos.
Como prometido anteriormente, aqui ficam duas diretrizes de como orientar o seu nemeton:

* – a “área relacionada com os ancestrais”, a noroeste, é algo que concebi com base em algumas características encontradas em alguns nemetā, como o de Ribemont-sur-Ancre, no qual se pode encontrar uma grande concentração de ossos humanos. Vejo isto como uma possível forma de honrar os defuntos.

Nota 1: Creio que a maioria das ações rituais eram realizadas, quando dentro de um nemeton, com o celebrante virado para este, por causa de alguns pormenores linguísticos.
O Proto-Celta *dexs(i)wo- significa ‘sul’, mas também quer dizer ‘direita’ (a direção/lado, não a noção de estar torto ou direito). Por outro lado, *tow(s)to- significa ‘norte’ e ‘esquerda’. Ranko Matasović afirma na sua obra “Etymological Dictionary of Proto-Celtic” (página 97):
“O significado ‘sul’ é derivado do princípio geral de orientação nas tradições Celtas e IE de estar de face virada para o sol nascente.”
Assim sendo, imagino que os druuides se virariam para o este aquando realizassem ritos.

Nota 2: Menciono muitas vezes os sacrifícios, mas não me refiro à chacina ritual de animais ou humanos (embora tenha cada vez menos contra o primeiro caso). O que a maioria dos RCs que conheço fazem – e eu faço também – é sacrificarem comida, preferencialmente vegetais, frutos, grãos e carne e bebidas como cerveja e hidromel/mead. Também pode oferecer coisas que elaborou, como figuras de barro ou metal (que de facto eram oferecidas frequentemente), desenhos votivos… use a sua imaginação e combine-a com o que é atestado.

Nota 3: Os nemetā eram geralmente dedicados ao culto de várias divindades, por isso o exemplo do nemeton dedicado a Belisamā pode indicar ou um caso excecional ou, mais provavelmente, um exemplo da influência Romana visto que estes tinham o costume de dedicar um templo a só uma divindade.

Nota 4: Um modelo de um rito que uso para consagrar um nemeton está disponível na página Lītoues / Ritos; pode lê-lo de imediato seguindo este link: https://celtocrabion.wordpress.com/litoues-ritos/construir-e-consagrar-o-nemeton/

Nota 5: Os fogueiras usadas num nemeton teriam forma predominantemente quadrangular, de forma semelhante à maioria das fogueiras domésticas.

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