Culto Doméstico

‘Culto doméstico’ é uma expressão que pode ter pelo menos dois significados: um que surgiu com alguns movimentos politeístas modernos, e outro com conotações já advindas da Antiguidade no caso das culturas que se perderam. O primeiro significado está associado à Ár nDraíocht Féin (ADF) e à expressão hearth culture que esta organização cunhou. Hearth culture não é traduzido como ‘culto doméstico’, mas sim como ‘cultura do lar’ ou ‘culto de lareira’. Todavia, este não é precisamente aquilo em que uma pessoa com conhecimento acerca de politeísmo pensa quando lê ‘culto doméstico’, uma vez que hearth culture se refere ao panteão que o praticante – segundo o modus operandī da ADF – irá primariamente venerar, sendo que tal culto ocorrerá, muito provavelmente, na sua própria casa. Isto não impede, contudo, que o membro da ADF, ou apoiante dos seus métodos, não preste culto a outros Deuses, quer no grupo a que pertence, quer em privado.
O outro significado de ‘culto doméstico’  é referente aos Deuses que são inerentemente associados à domesticidade, por um motivo ou por outro. Temos exemplos disto em religiões politeístas tão distantes e ainda plenamente vivas como no Shintō do Japão e no Dàoshi da China, em que o culto oficial associado aos templos e ao Estado (este último aspeto não está em vigor na China, claro) é distinto do que cada praticante faz em casa. A diferença não é como viajar para outro planeta, mas claramente existem aspetos que apenas se verificam no seio da domesticidade, e outros que só podem ser encontrados nos templos. É esta segunda e última definição que nos interessa.
Nas culturas Indo-Europeias, esta divisão entre culto público e privado também existia, e o melhor exemplo é o da religião nativa de Roma. O culto público era deixado ao cuidado dos sacerdotes eleitos e, por vezes, de militares e oficiais do Estado, nomeadamente do Imperador, que tinha função de sumo-sacerdote. Isto não significa que os cidadãos não pudessem visitar os templos e deixar as suas preces, mas raramente tinham alguma função “oficial” a cumprir neles; de igual forma, a grande maioria dos festivais do calendário eram públicos e eram celebrados em locais específicos. O espaço onde os cidadãos sem funções sacerdotais podiam mais livremente atuar em termos religiosos era na sua própria casa, nomeadamente perante o seu larārium, o altar de cada casa. Porém, até em casa estavam sujeitos a duas autoridades: à do pater familiās (‘pai de família’) e da māter familiās (‘mãe de família’) [Parkin & Pomeroy 1998: 72-80].

É possível que a fronteira entre público e privado se dilua? Absolutamente. Na verdade, foi isso que ocorreu nas culturas Celtas à medida que foram assimiladas. Na Irlanda, por exemplo, com a cristianização e gradual proibição dos cultos nativos, o conhecimento dos sacerdotes foi dividido por dois ramos da sociedade: através do folclore, conhecemos os pontos mais práticos que a população mais facilmente memorizava, nem que através de observação. Por outro lado, os mitos foram preservados (com um grau de autenticidade discutível) pela nova classe mais erudita: os sacerdotes cristãos. Algo semelhante ocorreu na Gália, em duas fases distintas: após a conquista romana, e após a cristianização. A perda da independência das várias tribos e consequente romanização fez com que uma substancial parte das práticas nativas se perdessem ou adquirissem uma faceta mais amigável aos olhos de Roma (ou seja, sincretismos). As menções às tradicionais castas eruditas dos druu̯ides, ātīs, e bardī tornaram-se quase inexistentes, e as referências a títulos sacerdotais mais vagos tornaram-se a norma, como em cassidannos e gutu̯atīr [Delamarre 2003: 108, 184-185].

A ocorrência definitiva que levou ao fim da religião nativa foi a já referida cristianização, que causou um abolir total das práticas ancestrais. Um ótimo exemplo é o rito relatado no artigo Deus do Trovão/Tempestade relativo ao uso de rodas flamejantes para celebrar o solstício de verão. Porém, não sabemos como seriam as tradições domésticas da população anteriormente à total cristianização, mas tendo em conta a descrição do rito, parece que já não havia qualquer autoridade sacerdotal, mas, ainda assim, a população fielmente manteve o costume.

Todavia, a proposta deste artigo é como revitalizar as práticas domésticas partindo do pressuposto de que atualmente temos condições para revitalizar a religião de acordo com uma divisão tripla (casta guerreira, casta sacerdotal, e casta produtora); nesta situação ideal, aqueles sem vocação para o sacerdócio não teriam de ser sobrecarregados com um conhecimento extenso sobre teologia, divinação, ritos, filosofia, direito, e até mesmo medicina, mas poderiam expressar a sua fé de qualquer das formas, e até com mais conforto. Na verdade, o culto doméstico seria acessível a qualquer pessoa, independentemente da sua inclinação.
As linhas seguintes irão narrar vários factos e, posteriormente, sugestões sobre como levar a cabo o culto doméstico…

O nosso conhecimento quanto às culturas Celtas é fragmentado, mas as tradições insulares e a arqueologia, nos territórios continentais, revela que os povos Celtas não tinham um espaço exclusivamente dedicado ao divino per se, nos seus lares. Porém, isso não impede que uma casa não estivesse embrenhada na sacralidade desde a sua construção.
Apenas com a intervenção e conquista romana é que o culto doméstico na Gália se viu sincretizado, com a adoção do larārium. Este era o nome dado ao santuário de cada casa, em que se prestava culto principalmente aos Larēs Familiārēs (divindades tutelares de cada família), aos Geniī (como que a graça divina presente em cada pessoa, no caso) de familiares defuntos ilustres, Dī Penātēs (espíritos do lar), assim como a quaisquer Deuses a família tivesse especial devoção. Porém, os larāria também eram visitados aquando de mudanças importantes no seio familiar, como em ritos de passagem, casamentos, mortes…
Assim sendo, podemos postular que a religião no âmago do lar, na Gália anterior à conquista, teria um aspeto semelhante ao que se pode verificar em outras religiões indo-europeias (IEs) do norte da Europa; Os paralelos que surgirão serão prontamente indicados, abaixo.

Dois larāria – que demonstram a diferença de poder económico entre os seus donos – otimamente preservados em Pompeia (Itália).

Dois larāria – que demonstram a diferença de poder económico entre os seus donos – otimamente preservados em Pompeia (Itália).

 

Antiguidade

1. Lareira

Tal como hoje em dia o fogão é o ponto central da cozinha, a lareira era o centro das casas da Antiguidade, figurativa e, muitas vezes, literalmente. A sua importância, como que se um trono do fogo se tratasse, nas culturas Celtas, é óbvia, se analisarmos o folclore…
Segundo o folclore de Gales, apenas se toma posse de uma propriedade quando a sua lareira é acesa e o fumo tem oportunidade de passar pela chaminé [Owen 1980: 339]. Também não podemos esquecer as tradições irlandesas que se centravam à volta da lareira, como a bênção de acender o fogo, e de smaladh (apagar as chamas, mas mantendo as brasas quentes e prontas para uso no dia seguinte) [Carmichael 1992: 93-94, 595-596].
Outro detalhe relativo à centralidade do fogo pode ser encontrado em território outrora celtizado da România: algumas casas encontradas em escavações parecem ter sido voluntariamente abandonadas e, para agravar tal facto, as pedras das lareiras foram desempilhadas, relembrando o comum ato de sacrifício em que um objeto é ritualmente destruído [Zirra 1976: 16-17].

Isto pode ser visto como um claro indicador de que um dos espaços para o culto era na lareira, algo que coincide com tradições atestadas no resto a Europa. O smaladh, por exemplo, é extraordinariamente semelhante ao velho rito de “adormecer” a Deusa Báltica Gabija, que também envolve apagar as chamas e deixar as brasas quentes para o dia seguinte [Gimbutas 2001: 203] [Trinkūnas 2011: 17]. Por outro lado, o ato de inaugurar uma nova casa, e o seu abandono com proibição mágica de reutilizar o mesmo espaço, coincide parcialmente com a tradição helénica de transportar a chama do santuário público de Hestía – o prutaneion (πρυτανεῖον) – até a uma nova colónia, de modo não só a possibilitar a viajem da Deusa, mas também para que os fiéis pudessem adquirir a sua proteção no novo lar [Malkin 1987: 121-124].

Não conhecendo como era o culto ao fogo nas casas gálicas, creio que seja necessário analisar o aspeto físico das lareiras antes de formular qualquer teoria.

Imagem retirada de: http://com.cg63.fr/com/corent/

Imagem retirada de: http://com.cg63.fr/com/corent/

O/A leitor(a) já deve ter reparado que ambas as lareiras estão providas de dois utensílios nos seus extremos. Estes utensílios, conhecidos em inglês como firedogs têm a função de manter a madeira suspensa sobre as chamas, para que possa arder. Em francês, chamam-se andirons, e pensa-se que o termo pode ter origem no Gálico anderā, que originalmente significava ‘mulher jovem’ e que evoluiu para ‘bezerra’ ‘vitela’, pois cada andiron costuma ter a forma ou de uma vaca ou de um carneiro [Matasović 2009: 37].
Algo que pode ser ligado a sacrifícios ao fogo, é que quando os arqueólogos analisam as lareiras das casas gaulesas, invariavelmente encontram, além de pedra e madeira carbonizados, fragmentos de ossos de animais. Isto pode outro significado, que é verificado em outras culturas: os ossos serviriam para continuamente alimentar o fogo, de modo a não se depender apenas de madeira. Todavia, não é possível excluir que a grande variedade ofertas de pedaços de carne com osso – de lebre, ovídeos, aves de capoeira, porco, e peixe (principalmente fluvial) – poderia ter uma conotação religiosa, além de útil, tratando-se de ofertas às chamas divinas [Poux & Foucras 2008: 174-176].
Infelizmente, não podemos determinar o que mais poderá ter sido sacrificado em honra a esta Deusa, mas não é provável que não tenha sido muito diferente do que ocorria em outras culturas IEs, já que herdaram as suas crenças de uma mesma fonte comum e ancestral.

2. Família, quotidiano, e prosperidade

Estes aspetos estariam sobre principal tutela das Mātres ou Mātronās. As atestações até à data revelam que o culto provavelmente não dispunha de ídolos até à conquista romana, altura em que variadíssimas representações as Mães surgem por toda a Gália. É possível que tenham sido feitas representações em madeira, um material altamente perecível, mas não é de todo inconcebível que não fossem representadas para fins de culto. Não foi, até hoje, encontrado qualquer traço da sua adoração em qualquer casa da Gália pré-romana.

Estatueta das Mātres achada em Bonn (Alemanha), para uso em larārium.

Estatueta das Mātres achada em Bonn (Alemanha), para uso em larārium.

Tendo em conta a ausência de paralelos fora da Gália no período Medieval – com exceção de Modron, que é pouco mais que uma personagem secundária – o nosso conhecimento é derivado apenas da análise da iconografia do período Galo-Romano, que já se encontra extensamente apresentada no artigo Deusas Mães.

 

Atualmente

Hoje em dia não estamos tão presos a uma identidade cultural específica – deve haver poucos lusófonos que conseguem traçar a sua herança genética até à Gália – e temos uma perspetiva menos rígida, em certos aspetos. Mas, como politeístas (termo associado ao Reconstrucionismo, atualmente) não devemos ter problemas em encontrar formas de preencher os buracos que a História não conseguiu preservar.
No fundo, o que hoje podemos fazer quanto ao nosso culto doméstico ao fogo está dependente, em parte, das nossas preferências. Alguns de nós talvez prefiram um culto Galo-Romano, enquanto que outros preferirão algo o mais semelhante possível à religião nativa da Gália anterior à conquista. A partir desta divisão já podemos estabelecer duas diferenças: aqueles que querem focar o seu culto num larārium, e os que querem focar-se em aspetos menos tangíveis De qualquer das formas, ambas as preferências serão atendidos dentro do possível.
Um ponto essencial é que o culto privado deve ser, se possível, levado a cabo ora pelo pai, ora pela mãe de uma família. O pai presidiria ao culto que envolvesse Deuses (masculinos) ou todos os Deuses e Deusas num grande evento, e a Mãe presidiria sobre o culto doméstico mais popular às Deusas. Se quiserem, pater familiās = atīr u̯enēs / u̯eni̯atīr, e māter familiās = mātīr u̯enēs / u̯enimātīr.
Claro que hoje isto nem sempre é possível, quer porque os pais não são politeístas, ou porque existem famílias monoparentais ou com duas mães ou dois pais, ou porque o/a leitor(a) vive sozinho/a; nesses casos, sugiro que adotem uma velha filosofia minha: cada um faz como pode.

1. Lareira

Apesar de alguns de nós possuirmos lareiras, em princípio não as usamos para outro fim que não aquecermo-nos durante o inverno. Porém, não é despropositado usá-las para o culto, independentemente da estação do ano. Se não tiver lareira, reserve um canto da sua cozinha – a zona mais tradicional para o fogo, obviamente – para manter um pequeno santuário no qual possa acender uma vela, fogareiro, ou afins.
Tendo em conta os aspetos já revistos do culto ao fogo dos Celtas, no âmbito da domesticidade, é possível revitaliza-los nos dias de hoje. Segue-se uma descrição de uma possível rotina inserida no dia-a-dia do praticante inserido num emprego das 9am às 5pm:

  • Se despertar aquando da aurora, ofereça-lhe uma saudação.
  • Quando e se for preparar o seu café-da-manhã / pequeno-almoço, se utilizar o fogão, acenda, também, a chama do seu santuário em honra ao fogo. Ofereça uma parte do que vai comer à chama. Pode ser algo sólido, ou uma libação do seu café, leite, ou chá.
  • Se almoçar em casa, repita o passo anterior, com as adaptações necessárias.
  • Na hora de jantar, o mesmo também é válido.
  • Se o jantar for a última vez que vai usar o fogão, naquele dia, despeça-se da Deusa. Adotar a prática do smaladh seria o ideal, mas não receie adaptar ou desenvolver algo adequado às suas limitações.

A altura apropriada para deixar as oferendas ao fogo é algo que pode ser debatido, mas é algo que poderia, mais provavelmente, ocorrer no princípio ou no fim do rito. Tendo em conta a sua função como primeira luz do dia, é tentador vê-la como sendo o primeiro alvo dos sacrifícios, de forma semelhante a Hestía (que também recebia a última porção no fim) [Hino Homérico nº29]. Por outro lado, Vesta recebe a última oferenda, já que Janus recebe a primeira. Não querendo cair no erro de prescrever algo incorreto devido às minhas perceções, deixarei isto em aberto.

Porém, existem outras situações em que o culto doméstico perante a lareira pode ser levado a cabo…
Se tiver acabado de comprar ou arrendar uma casa nova, quando terminar a sua mudança, o primeiro passo religioso a dar seria acender a chama da nova lareira, ou equivalente, e realizar o primeiro sacrifício.
Imaginando que o/a leitor(a) tem uma filha, que tal iniciá-la no culto? A Deusa sincretizada com Minerva historicamente rege o aprendizado dos ofícios vistos como tipicamente femininos: cozinhar, coser, tratar ferimentos menores e constipações, cuidar da casa, etc. Não quer isto dizer que um rapaz não tem de aprender tais ofícios; pobre do homem que sair de casa dos pais sem saber cuidar de si próprio e do seu lar (e da pessoa que se case com ele)! Isto seria uma ótima oportunidade para não só ensinar as responsabilidades que cabem a cada um de nós aos filhos, como também de estimular a sua devoção, ao provê-los de detalhes quanto à Deusa, como lidar com ela, como a deixar orgulhosa, no que ela os pode ajudar…

2. Família, quotidiano, e prosperidade

Neste domínio existe uma gama igualmente ampla de atos que cabem no domínio da adoração privada, sendo que a maioria já foi referida no artigo Deusas Mães. Pelo que foi analisado no que toca ao seu culto, parece que elas são equivalentes aos Larēs Familiārēs em algumas das suas funções, mas também englobam funções relativas ao sustento da família como os Dī Penātēs. Como tal, é óbvio que as Mães devem ser vistas de acordo com a ótica romana – aquela com que mais estamos familiarizados – de que elas também devem ser tratadas como membros da família, dignas do mesmo respeito, ou mais ainda.
A sua inserção no nosso dia-a-dia é muito mais fácil do que o culto ao fogo, uma vez que não requerem uma forma física para serem veneradas plenamente. O seu culto pode ser dividido em três principais domínios:

Família:

  • Fazer um voto relativo ao gerar de uma criança com sucesso; ou seja, uma súplica por fertilidade.
  • Pedir a sua tutela na gravidez, e força no parto.
  • Colocar recém-nascidos ou crianças mais velhas (caso o/a leitor(a) tenha recentemente começado a praticar) sob a sua proteção.
  • Acompanhar o crescimento dos jovens, sejam eles filhos, sobrinhos, netos, etc.
  • Este último ponto pode ser conciliado com os ritos de passagem por que quase todos passamos, desde os naturais (primeiro ano de vida, puberdade, surgir de barba) até aos societários (descartar de brinquedos, carteira de motorista / carta de condução, recenseamento*1, primeiro emprego, casamento…).
  • Cuidar de familiares doentes, acompanhando o seu processo de recuperação.
  • Cuidar de animais de estimação (tendo em contas as representações das Mātres que têm cães no colo).
  • Respeitar os familiares vivos (que merecem), e relembrar aqueles que já partiram (culto periódico aos ancestrais*2).
  • Fases da vida femininas.

Quotidiano:

  • Manter a piedade, ou seja, uma boa relação com os Deuses, Espíritos, e Ancestrais.
  • Cumprir os deveres do dia-a-dia com mestria.
  • Propagar o seu conhecimento útil.
  • Manter a casa em bom estado de conservação em limpeza.
  • Ser um bom e justo companheiro/a em matrimónio ou semelhante.
  • Obter novo conhecimento, preservando as tradições.
  • Conhecer tratamentos fáceis de aplicar em casa, ou algo mais elaborado como um curso de primeiros-socorros. Conhecer curas com base em ervas, e visitar fontes curativas (com possível consagração às Mães).
  • Divinação? Se sim, não lhes seria algo exclusivo.
  • Trabalhar para auto-preservação, da família, e/ou de outros com que se partilhe a casa.
  • Trabalhos domésticos (peças de roupa, reaproveitar algo velho, redecorar, tratar do jardim, etc).

Prosperidade:

  • A noção de economizar para um futuro melhor.
  • O trabalho de bem colher; modernamente, isto geralmente equivale a saber os melhores alimentos para comprar e consumir.
  • Oferecer os primeiros frutos que serão armazenados.
  • O simples preparar de uma refeição para o seu agregado familiar.
  • Colocar os alimentos sobre a sua proteção, nomeadamente no frigorífico, mas, especial e mais tradicionalmente, a despensa/copa.

Este último ponto provém da minha UPG e da minha associação funcional com os Dī Penātēs; estes últimos além de serem encarregues da proteção da casa e família, também tinham a função de proteger o penus ou penārius, a divisão da casa romana (muitas vezes sem acesso direto ao exterior) em que se armazenavam as provisões e ferramentas [Johnston 2004: 435] [de Vaan 2008: 458-459].
Não esconderei a minha vontade irrevogável de ter um santuário em honra às Mātronās na minha despensa; creio que o meu amor por esta divisão da casa deve-se ao imenso tempo que passei na despensa da minha avó paterna, entre os 4 e 10 anos, a vasculhar os livros de cozinha e os vários utensílios.

*1 – Este evento seria marcado, também, por uma apresentação formal ao Deus da Lei e ao Deus Multihabilidoso, de modo a representar capacidade de fazer parte da vida cívica e política, além de poder participar em relações jurídicas.

*2 – Não só no contexto das Trinoχtes Samonī, mas mensalmente, ou nos aniversários de nascimento/morte dos defuntos, ou quando bem vos apetecer.

Certos pontos mais associados a ritos em grupo, e não em família, não são incluídos neste artigo, mas ainda podem ser consultados no artigo Deusa Mães.

Um ponto importante que não desejo deixar passar, é algo de que tomei conhecimento recentemente, e que me tocou profundamente. Neste ótimo artigo escrito por um politeísta galo-romano, que relata o que ocorreu na conferência Many Gods West, em Olympia, podem ler que a sacerdotisa River Devora do grupo Coru Cathubodua celebrou um rito público em honra às Mães. Neste rito, ela convidou-as, com sucesso, para que tomassem posse dela e falassem aos vários fiéis que quisessem ouvir os seus conselhos. Um dos conselhos que o autor recebeu foi que quando nos [seus devotos] dirigirmos a elas em prece, para atarmos e desatarmos nós em um fio.
Quem me conhece sabe que sou bastante cético quanto a tudo, mas neste caso creio que River Devora possa ter sido um genuíno intermédio de comunicação com as Mātronās. A sugestão de atar e desatar nós relembra as representações em que as Deusas surgem com fusos, além de que o ato de fiar está associado ao destino, algo que a iconografia também corrobora.
Leiam o artigo, e tentem, se o desejarem, de modo a que as Deusas vos comuniquem se aceitam o ato ou não. Pessoalmente, vou adotar esta prática.

Ainda hoje, as Mães não foram esquecidas. Museu de Pesch (Alemanha).

Ainda hoje, as Mães não foram esquecidas.
Museu de Pesch (Alemanha).

 

3. Larārium

O culto romanizado não é, geralmente, muito distinto do culto mais fiel às tradições nativas, tendo em conta o que sabemos através da arqueologia. Um ponto que se manteve inalterado era o facto de a lareira se manter essencial; absolutamente ninguém cozinhava no larārium. Porém, se for impossível manter uma fonte de fogo separada do santuário doméstico, é perfeitamente aceitável tê-la no larārium.
Por outro lado, o larārium, num contexto Galo-Romano poderia incluir representações não só de divindades de Roma, mas também das da Gália, independentemente de o seu culto ser visto como mais público do que privado. Um exemplo é esta famosa estatueta:

Estatueta de Sucellos, achada num larārium em Vienne (França).

Estatueta de Sucellos, achada num larārium em Vienne (França).

Atualmente, é comum que muitos praticantes incluam estatuetas de Deuses gálios nos seus larāria, sendo que ocupam o lugar que qualquer outro Deus romano ocuparia num santuário doméstico.
Vede os seguintes exemplos:

Larārium de D. Gratius Ludovicus. Entre as representações de Māter Magna Deōrum e dos Larēs, está uma estatueta galo-romana de Đīronā.

Larārium de D. Gratius Ludovicus.
Entre as representações de Māter Magna Deōrum e dos Larēs, está uma estatueta galo-romana de Đīronā.

Larārium de Marcus Julius. A disposição do santuário baseia-se no templo de Sūlis-Minerva, em Bath (Reino Unido).

Larārium de Marcus Julius.
A disposição do santuário baseia-se no templo de Sūlis-Minerva, em Bath (Reino Unido).

 

4. Deuses, Espíritos, e Ancestrais

Não sabemos muito acerca da domesticidade de outros Deuses. Podemos sugerir, com um certo nível de certeza, que alguns como Cernunnos, Gobannos/Ucuetis, Lugus, e o Tou̯tātis tivessem tido alguma forma de culto privado, ou, pelo menos, não somente estatal, tendo em conta as suas funções e/ou epítetos. Quanto aos outros Deuses, é possível apenas teorizar que os leigos os possam ter invocado em situações de necessidade em que achassem que eles tivessem capacidade para os ajudar. Um provável exemplo seria o saudar do Sol e da Lua, aquando do princípio e fim do dia, per folclore gaélico.

O culto a espíritos parece ter sido algo maioritariamente levado a cabo fora do domínio da domesticidade, tendo em conta a sua geral perceção como sendo “selvagens”, mas existe uma notável exceção: os Geniī Cucullātī, os ‘Génios Encapuzados’; ver o artigo Espíritos.
Estes misteriosos seres, geralmente com natureza itifálica, carregam consigo vários atributos que apenas podem ser interpretados como sendo relativos à fertilidade, força, e à proteção, como ovos e espadas [Green 1992: 184-185]. Embora a sua exata natureza seja desconhecida, a sua função doméstica – atestada por representações explícitas em larāria – específica provavelmente estaria associada à fertilidade e potência masculinas, da mesma forma que as Mātronās estavam associadas à fertilidade feminina. Por outro lado, é bastante provável que tivessem responsabilidade sobre a fertilidade agrária, mais apropriadamente sobre a fecundação.

Cucullātos (‘Encapuzado’, em Gálico) achado num larārium em Picardie (França).

Cucullātos (‘Encapuzado’, em Gálico) achado num larārium em Picardie (França).

Tendo em conta a expressa masculinidade destes espíritos, talvez seja possível que certos aspetos da vida dos homens estivessem a encargo deles. Isto possivelmente requer uma reinterpretação moderna dos ritos de passagem masculinos mais naturais (primeira barba, primeira ejaculação, etc) para que os Cucullātī possam oferecer a sua proteção e bênção.

O último ponto é relativo à adoração de ancestrais no lar. Não temos fontes diretas desta ocorrência, a não ser as atestações de que o 14º dia de cada mês fosse uma data dedicada ao relembrar dos mortos, e de as Trinoχtes Samonī terem as mesmas conotações que o Samain gaélico. O mais provável é que o culto pudesse ser esporádico, em caso de extremas necessidade ou saudade, mas o mais natural seria que ocorresse no local em que o corpo foi sepultado, sendo que o apenas nas Trinoχtes Samonī é que as almas viajam até às casas dos seus familiares vivos e interagem diretamente.
Todavia, é provável que o culto das Mātres de alguma forma estivesse ligado ao culto dos ancestrais, especialmente os femininos, de forma algo semelhante ao culto das Dísir Nórdicas e Idisi Anglo-Saxãs.

 

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