Deus da Lei

Este artigo vai ser dedicado ao desvendar da natureza de Toutātis. Para o conseguir definir, vou-me servir de comparações com os seguintes Deuses: Varuṇa, Týr, e Njörðr.

Deixo aqui um poema genealógico Irlandês que será útil durante todo este artigo:

 “Veloz em navios,
Ele atravessou o mar como guerreiro do oeste:
Um vento vermelho,

Que pintou as lâminas das espadas com uma nuvem sangrenta.
Nuadu Necht(*1), forte e corajoso:
Um grande campeão que não amava castigo de um senhor justo.”

Ora, Toutātis não é – penso eu – um teónimo, mas sim um epíteto de um tipo específico de divindade Celta. Provém do Proto-Celta *towtā-āti- e significa algo como “o da tribo/nação”.
Já com esta simples informação etimológica podemos obter uma definição preliminar: trata-se de um Deus especialmente dedicado à vida comunitária e social de uma toutā.

Infelizmente, não dispomos de muita informação sobre este Deus, apenas a suficiente para estabelecermos relações com teónimos que provêm de fora da Gália.

Na Irlanda, o melhor exemplo de um Toutātis de que dispomos, é Nuadu Airgetlám, que, no entanto, nunca é referido por este título ou semelhante (apenas se encontra fora da Irlanda).
Nuadu foi rei da Tuatha Dé Danann, durante sete anos, até este “povo” chegar à Irlanda e se ver num conflito com os Fir Bolg, rejeitando o direito que estes tinham sobre esta terra. Algum tempo depois, na primeira batalha de Maige Tuired, perde o seu braço direito, que é decepado por Sreng, o campeão dos Fir Bolg; daí o seu epíteto Airgetlám, ‘Mão de Prata’, que provém do Proto-Celta *arganto-φlāmā, visto que Dian Cécht (o médico da Tuatha) lhe manufaturou uma mão falsa de prata completamente funcional após tal derrota
É neste momento que Nuadu perde a soberania sobre a Tuatha Dé Danann para os Fomoiri. Tudo leva a crer que foi o primeiro rei dos Deuses Gaélicos, já que nenhum antecedente seu é mencionado.
Esta história não é um caso isolado. Em Gales temos um mito que Nudd Llaw Eraint – mais tardiamente conhecido como Lludd.
Ora, o epíteto de Nudd é Llaw Eraint, que, à semelhança de Airgetlám, significa ‘da Mão de Prata’, mas que não usa uma palavra composta, recorrendo ao caso genitivo. Logo em Gaulês Médio e Britónico, teríamos ‘Lāmiās Arganti’. Porém, ao contrário do que aconteceu com Nuadu, não resta qualquer registo de como é que Nudd ganhou tal epíteto.
Assim como Nuadu, Nudd também tem função de rei entre as figuras divinas da mitologia Galesa, assim como da Grã-Bretanha.

O que podemos concluir com isto é que no passado pré-Cristão e pré-Romano, haveria uma clara conceção de que o Deus da Lei teria sido o primeiro soberano entre os Deuses, mas que perdeu a sua mão direita num conflito com os rivais destes. Como entre os Celtas existia a noção de que apenas um indivíduo fisicamente perfeito poderia governar decentemente, isto impossibilitaria de continuar o seu papel. Como é mencionado nos artigos Deus do Trovão/Tempestade e Deus Multi-Habilidoso, o seu sucessor é o Deus do Trovão.
Porém, apesar de deposto, o seu legado continuou sob a forma de regras morais e sociais. Como primeiro soberano, seria de esperar que tivesse sido ele a estabelecer as normas que regeriam a vida em comunidade; daí a denominação “Deus da Lei”.

Sirvamo-nos, então, dois exemplos comparativos: Týr e Varuṇa.

Segundo a mitologia Nórdica, Týr perdeu a sua mão direita quando esta lhe foi mordida pelo lobo Fenrir, tendo colocado a dita cuja entre as suas mandíbulas como forma de [falsamente] assegurar que os Æsir não o desejavam ludibriar.
Assim, de forma algo semelhante a Nuadu, Týr perdeu a sua mão num esforço para assegurar a continuidade do seu povo. Ambos perderam a mão com a qual brandiam as suas armas. Algo que mais ambos têm em comum é o facto de estarem relacionados à justiça e assembleias tribais, além de serem ambos considerados heróis.
Como é mencionado no poema acima transcrito, existe uma clara associação de Nuadu à arte da batalha, sendo ainda mencionada a cor associada à classe guerreira: o vermelho.
Esta dimensão guerreira explica a associação a Mārs, após a conquista, de teónimos da Grã-Bretanha e da Gália como Noudons (> Nōdons), Nōdens e Noadatus.
Uma das funções de Varuṇa é ser o senhor de ṛta, a lei universal da ordem, por ele engendrada, e que deve ser mantida por todos os seres vivos aliados aos Devās e alguns Asurās. Logo, é sua tarefa punir os transgressores, ser o punho de ferro que garante o cumprimento da lei.

É esta a tarefa do Deus da Lei, manter as normas sociais e manter a coesão dentro da toutā. É uma função jurídica e guerreira.

Representação moderna de Nuadu.

Mas o que significam ao certo estes teónimos Celtas, previamente mencionados?
De acordo com a análise de Ranko Matasović in “Etymological Dictionary of Proto-Celtic” (pág. 293), é possível fazer estes teónimos remontar a *Nowdont-, que teria como antecedente *snowdo-, ‘névoa’.
A outra hipótese é fazer os ditos teónimos remontar a *neh2w-, ‘necessidade’, o que é sinceramente impossível, já que a corresponde evolução em Proto-Celta – *nāwito- – nada tem em comum com os ditos teónimos.

Em Lidney, Gloucestershire, perto do rio Severn, existe um templo Romano que foi erigido em honra a Noudons. Estava repleto de associações à pesca e ao mar; num mosaico do chão do templo, é possível observar-se golfinhos, peixes e monstros marinhos. Um artefacto e um fresco representam um deus que “cavalga” os mares numa carruagem.
Existe uma ligação à cura – presente em santuários Galo-Romanos em honra a Deuses sincretizados com Mārs – indiciada pela presença de quartos (no quadrante noroeste) que eram reservados para a prática de incubatio ou para tratamento privado a peregrinos. Também foram encontrados alguns instrumentos médicos.
Curiosamente, existe ainda uma sincretização com Silvanus que pode ser ligada à representação de cães. Isto poderia, segundo John T. Koch in “Celtic Culture – A Historical Encyclopedia” associá-lo à caça e a Gwyn ap Nudd.
Como é dito no poema Irlandês, Nuadu é associado ao mar e às atividades que envolvessem este elemento natural. Esta ligação é intensificada com a menção do oeste, que, claro está, se refere à direção que era associada ao oceano em toda a Europa ocidental; sendo que, nas regiões costeiras, havia uma associação mais forte ao pós-vida. Acontece que também é do oeste que costuma provir a névoa que por vezes esconde as terras da Europa atlântica, nas manhãs frias.
No que toca à Gália, temos informação que provém da obra de Lucanus, “Pharsalia”. Nesta obra, é mencionado que as vítimas humanas que eram sacrificadas a Toutātis eram afogadas numa bacia (cheia de um líquido não especificado), num santuário em Massalia.

Novamente de volta a Varuṇa, algo que também o descreve é a sua faceta como Deus das águas, sejam estas de rios, poços, chuva ou do mar. Além do mais, também ele está associado ao oeste, com o acréscimo de guardar as almas dos que morreram afogados.
Porém, esta é como que uma característica secundária sua, já que a principal é a já previamente mencionada função jurídica.
Mas as associações marinhas de Varuṇa não possibilitam que possa ser classificado como uma divindade marinha. O mesmo pode ser dito de Noudons/Nuadu/Nudd (*2), que apesar de ligado ao mar e ter um templo perto do ponto em que o Severn desagua, não é um Deus marinho per se.
É para esta situação que se estabelece a ligação a Njörðr. Este Deus, apesar de estar obviamente ligado ao mar e à fertilidade, não rege o dito elemento, apenas tem afinidade a este e oferece o seu auxílio aos que nele navegam.

Será Noudonđ ou um Deus semelhante?

Apesar de frequentemente ignorado, o Deus Lēnus ou Lenus, dos Trēuerī, é o melhor exemplo de um Toutātis nativo gaulês.
A etimologia deste teónimo é um tanto misteriosa… Se o “resultado” final (em Gaulês) for Lenus, o antecedente Proto-Celta permanece bem escondido.
Mas se se tratar de Lēnus, é possível fazer o teónimo remontar a *leyno-, que pode significar ‘campo’ ou ‘suave’ (“Proto-Celtic – English Wordlist“, University of Wales, pág. 53) . Contudo,  em Pommern, o seu nome aparece como Laenus (“Les dieux gaulois : répertoire des noms de divinités celtiques connus par l’épigraphie, les textes antiques et la toponymie“),  que costuma implicar um antecedente em ai, ou seja, hipotético **Lainus, cuja etimologia é ainda mais misteriosa.
Como as inscrições em que se pode ler “LENVS” são 7 (Feyen, FlieBem, Tréves, Welschbilig, Virton, Mensdorf e Mersch), de um total de 9, que abrange a Grã-Bretanha, vou optar por presumir a forma Lēnus < *leyno- como a mais correta.

Estátua de Lēnus no templo de Martberg.

Estátua de Lēnus no templo de Martberg.

Este Deus dos Trēuerī – uma tribo que permaneceu muito fiel às suas tradições originais, até depois da conquista – tinha um grande santuário em Martberg, cujas origens remontam à Idade do Bronze final, altura associada ao Proto-Celta (“Mythes et Dieux de la Gaule”, J. J. Hatt, pág. 90) (“Der Martberg bei Pommern an der Mosel und seine Kultstätte“, de Joseph Klein, págs. 62 a 116). Neste santuário foram escavadas imensas peças de joalharia, moedas, assim como armas ritualmente danificadas que foram deixadas para Lēnus, que datam da época La Tène assim como da época Galo-Romana. Uma das duas inscrições, escrita por um indivíduo de nome helénico – Tychicos – agradece a Lēnus por o ter curado. Já em Martberg é notório que se tratava de um santuário dedicado à cura, não só devido ao testemunho de Tychicos, como também devido à existência de edifícios que se pensa terem sido usados para serem administrados tratamentos por parte de sacerdotes. Trata-se de um claro palalelo, em termos de funcionalidade, com o templo de Noudons.

Contudo, não podemos esquecer a óbvia sincretização a Mārs, ainda mais fortalecida pela estátua de Lēnus que é claramente representado como um guerreiro helenizado. Outro paralelo com Noudons, será a ligação à água, que está presente na sua fonte sagrada em Am Irminenwingert, perto de Trier; perto desta fonte, existiam banhos e santuários menores – alguns dos quais dedicados às Mātres e à esposa de Lēnus, Ancamnā – todos aproveitando as águas sagradas para os seus cultos (“Mythes et Dieux de la Gaule”, J. J. Hatt, pág. 91).
As parecenças finais, que o tornam um perfeito Toutātis, são as oferendas de estatuetas, que representam crianças; pensa-se que foram depositadas no santuário de Trier para que fossem protegidas por Lēnus (“Mythes et Dieux de la Gaule”, J. J. Hatt, pág. 90). Ainda no mesmo santuário, existe uma inscrição em que se pode ler:

Marti et Ancamnae et Genio pagi Vilciatis C. Serotinius Iustus ex voto posuit

Como Hatt desvenda (“Mythes et Dieux de la Gaule”, J. J. Hatt, págs. 128 e 129), Lēnus e Ancamnā seriam os padroeiros responsáveis por abençoar as reuniões dos pagi encarregues de administrar o templo. Deste ponto de vista, ambos estão claramente integrados na sociedade tribal e teriam sido ainda mais importantes nos tempos antecedentes da conquista.

Nascente da fonte sagrada em Am Irminenwingert.

Nascente da fonte sagrada em Am Irminenwingert.

Por fim, existe um último ponto a ter em consideração, que é o par do Deus da Lei. Como já foi mencionado no artigo Deus Multi-Habilidoso, estes dois estão ligados de raiz por causa de uma ligação que remonta a uma origem Proto-Indo-Europeia, que é abordada por Georges Dumézil em “Mitra-Varuna”.

Em suma, os panteões Indo-Europeus costumam ter um par de divindades que pertencem à primeira classe, ou seja, à classe “educada”, digamos; ou seja, que não exercem funções relativas à classe produtora ou à guerreira. Estes Deuses costumam ter, nos exemplos mais óbvios, funções de cariz social e comunitário e ainda alguma afinidade a fenómenos naturais opostos.

Existem dois exemplos perfeitos entre os Nórdicos – e, muito certamente, entre qualquer povo Germânico – e os Védicos.

O exemplo Nórdico é o caso de Týr e Óðinn. Apesar de o primeiro ter sido, em tempos, mais proeminente do que o último, ambos formam um duo que complementa mutuamente a dita primeira função de Dumézil. Enquanto que Týr se ocupa de atos sociais como julgamentos, assembleias e batalhas e de virtudes como a honra e a lealdade, Óðinn faz imenso uso das suas capacidades de mudar de forma, do conhecimento que ganhou através de várias provações e usa-o para levar avante a sua vontade. Um é um Deus de cariz jurídico e outro é de cariz mágico-religioso.
Se analisarmos o teónimo Týr, apercebemo-nos de que provém do Proto-Germanico *Teiwaz, que remonta ao Proto-Indo-Europeu *Deiwos, ‘Deus’ Esta antiga divindade está relacionada com o céu diurno. Assim, seria de esperar que Óðinn esteja associado ao céu noturno ou escuro; já um dos seus imensos nomes, Fjölnir, que pode significar ‘oculto’ nos remete para esta hipótese, assim como Ýjungr, ‘tempestuoso’.

No caso Védico, temos Mitrá e Varuṇa. O primeiro trata de assuntos claramente políticos e está associado ao dia e ao sol, enquanto que o último é capaz de usar magia para punir infratores de normas sociais e tem ainda uma ligação à noite e às águas.

No caso Celta, temos dois mitos bastante semelhantes preservados.
Na Irlanda, temos o exemplo da segunda batalha de Maige Tuired, em que Lug regressa do exílio e oferece as suas muitas capacidades a Nuadu, de forma poder ajudar a Tuatha Dé Danann a derrotar os Fomoiri.
Em Gales, temos o conto “Lludd a Llefelys”, em que Lludd – ou seja, Nudd – é irmão de Lleu e o primeiro lhe pede ajuda para acabar com três misteriosas pragas que atingem o seu reino.
Em ambos os casos, a figura do Deus Multi-Habilidoso age como um complemento do Deus da Lei.
Ora, como *Nowdont- está associado ao pôr-do-sol, seria de esperar que *Lugu-, esteja associado ao nascer deste, algo que pode ser alargado para um estar associado ao período noturno e outro ao diurno.

Teónimos conhecidos: Noudons (> Nōdons > Nudd) e (Nōdens < Noudens <) Nōdens na Grã-Bretanha; Noadātus, Loucetios e Lēnus na Gália.
Atributos: um dos primeiros Deuses, criador, mar e rios, primeiro rei dos Deuses (mais tarde forçado a resignar-se por perder uma mão), mão de prata, névoa, funções jurídicas, pesca, leis, navegação, caça, cura, o oeste, funções guerreiras, noite.
Consorte: Ancamnā (de Lēnus) e  Nemetonā (de Louceitos).
Posses: Espada, lança (?) e mão de prata.
Animais: Cães.
Plantas: ?
Cores: Vermelho.
Festival principal: ?
Oferendas: Bens e alimentos deixados em bacias com água ou no mar.

*1 – O uso do nome Necht como se fosse um sobrenome ou epíteto pode ser uma ligação à figura mitológica – e de cariz divino – Nechtan. Também Nechtan está associado a águas, mas apenas às do poço de Segais.
Um facto curioso é que se pensa que o nome de Nechtan está ligado ao Proto-Indo-Europeu *nepot-, ‘sobrinho’, ou, mais precisamente, ao teónimo Sânscrito Apām Napat  e ao Apąm Napāt, ‘sobrinho das águas’. Isto ligaria Nechtan a outras figuras como Neptunus e Nethuns.
A questão é que o Proto-Celta *neφot- jamais daria origem a tal teónimo, visto que φ desapareceu completamente em todas as línguas Celtas antigas, com possível exceção no caso Lepôntico (em que persistiria como v). Uma regressão de Nechtan a Proto-Celta daria algo como *Neχtono-.
Uma figura semelhante a este Deus permanece por atestar fora da Irlanda.

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