Deus do Submundo

Este título, apesar de não poder descrever na perfeição estas divindades, é o que melhor se aplica a classificá-las, especialmente de um ponto de vista semelhante ao que existia na Antiguidade.

Existem relatos de que na Gália e Irlanda era adorado um Deus de cariz ctónico, com ligações à vida e à morte.

Para o caso Gaulês, temos as palavras de Gaius Iulius Caesar, que no “Commentarii De Bello Gallico” (6.18) afirma que os druuides (druidas) afirmavam que os Gauleses eram descendentes de Dīs Pater.
Antes de mais, temos de definir esta divindade Romana. Dīs Pater era o nome dado ao original Deus do Submundo Romano, mas que foi posteriormente substituído por outros nomes (Ploutōn e Orcus); a etimologia por detrás do nome Dīs foi-nos deixada por Cicero (na sua obra “De Natura Deorum“), que afirmou que tal palavra significava “riqueza”. Juntamente com pater, o título significa “Pai da Riqueza”. A raison d’être deste título deve-se certamente aos minerais que provêm do interior da terra.
(Note-se que é incorreto estabelecer uma ligação com o título Diespiter, que é atribuído a Iuppiter; Caesar faz uma clara distinção entre os supostos equivalentes Gauleses de Dīs Pater e Iuppiter)

No caso Irlandês, temos duas figuras principais: Donn e Dagda.
Donn – cujo nome provém do Proto-Celta *dusno-, “escuro” – é filho de Míl Espáine e Seang e é tido como o primeiro ancestral dos Gaélicos a morrer na Irlanda. Morreu afogado após cortejar Ériu (que pode ser considerada como uma Deusa Soberana ou Deusa da Terra) – nome dado à Irlanda, proveniente do Proto-Celta *φīweryon-. Uma ilha perto do local da sua morte ficou conhecida como Tech Duinn (Casa de Donn) onde os mortos residiam.
Dagda (do Proto-Celta *dago-deywo-, “Bom Deus”; o adjetivo “bom” refere-se à sua grande competência em tudo o que faz), porém, possui características que o relacionam com a morte e a vida; as mais notáveis são a sua enorme clava, que mata os vivos e ressuscita os vivos, e o seu caldeirão da abundância que nunca se esvazia. Também os seus vários epítetos revelam algo sobre as suas características:

  • É chamado de Athgen Bethai, que provém do Proto-Celta *ati-genā-bitu-, “renascimento do mundo” e que revela os seus poderes sobre a a morte e a vida.
  • Duir, que tem como antecedente *duro- , “porta” “portão” pode referir-se à sua qualidade como mestre dos portões do Outro Mundo.
  • Ollathair, do Proto-Celtca *olyo-φatīr, “pai de todos”, refere-se não à frequentemente repetida – e incorreta – ideia de que é pai de todos os Deuses (impossível), mas sim pai de todos os humanos.
  • Curiosamente, também tem o epíteto de Donn – que já vimos anteriormente que significa “escuro” – que é uma ligação interessante a Donn, embora não signifique que sejam o mesmo, mas sim versões semelhantes.

Porém, é necessário ter em conta que Dagda não é uma perfeita representação dos atributos que se verificam nos outros Deuses do Submundo das restantes subculturas Celtas. Vários dos seus outros epítetos indicam que foram atribuídas a Dagda funções de outros Deuses, nomeadamente do Deus do Trovão/Tempestade, do Deus Campeão e do Deus Selvagem/Pastoril (que são abordados nos respetivos artigos). Para evitar que haja confusões na mente do leitor, deixo uma simples lista dos epítetos com indicações:

  • Cerrce.
  • Fer Benn, que tem como claro antecedente *wiro-bando-, “homem cornudo”, que pode ser uma referência a um esquecido Deus Selvagem/Pastoril (conhecido na Gália como Cernunnos e Carnonos).
  • Labair, que provém de *labaro-, “falador” “que fala”, que seria um epíteto que se esperaria de um Deus ligado à eloquência (Ogma na Irlanda e Ogmios na Gália).
  • Áed.

Então tendo isto em conta, como realmente eram as coisas na Gália?

Até hoje, não temos um exemplo melhor de Deus do Submundo que Sucellos. O nome deste Deus provavelmente provém do Proto-Celta *su-kel-n-, “bom golpeador”. Sucellos tem dois atributos principais, o seu enorme martelo e uma olla, que são bastante reminiscentes da clava e caldeirão de Dagda; pode-se argumentar contra isto, mas acho bastante provável que um martelo possa ser uma evolução da clava original e que o pote tenha sido um fruto do processo de romanização, pois representar um enorme caldeirão não seria algo esperado dos romanos – regra geral, os romanos simplificaram a religião original Gaulesa. Por vezes Sucellos aparece acompanhado por um cão com três cabeças.
Apesar de não aparecer sincretizado com Dīs Pater ou outro Deus claramente ligado à morte, isso não é muito surpreendente. Os Deuses Helénicos e Romanos ligados ao Submundo não possuíam as características revitalizadoras dos Celtas e Eslavos e é por isso que Sucellos aparece sincretizado com Silvanus. Isto provavelmente deve-se a uma possível e provável relação entre o Deus do Submundo (Celta) e a fertilidade agrária. John T. Koch, no seu “Celtic Culture: A Historical Encyclopedia” (pág. 554) defende que Dagda pode ser classificado segundo o modelo trifuncional de Georges Dumézil (*) como um Deus da “terceira função” relacionado com a riqueza e produção de comida, o que parece ser ainda mais aplicável a Sucellos.

Sucellos

Uma das placas do caldeirão de Gundestrup pode mostrar um Deus do Submundo a revivificar soldados mortos, usando um caldeirão. Além deste elemento, temos um cão ou lobo que impede a passagem de mais guerreiros, o que indica que estão a esperar a sua vez. Na parte de cima, vemos guerreiros montados em cavalos a perseguir uma serpente cornuda.
Um ponto adicional a ter em consideração, é a representação de uma árvore; esta pode ser uma árvore do mundo. Em baixo, estão os mortos e em cima os vivos a perseguir uma serpente fugitiva (ver Deus do Trovão/Tempestade). Isto pode indicar a viagem entre mundos.
Atenção: a ausência de um torque na figura de tamanho superior pode muito bem indicar que é um sacerdote e não um Deus. Assim sendo, ficamos com uma cena sacrificial algo peculiar, devido à presença de uma árvore e da serpente cornuda.

Um paralelo interessante e consideravelmente exato pode ser encontrado no Deus Veles dos povos Eslavos, que para além de ser senhor do mundo dos mortos, também está relacionado com o gado e a fertilidade vegetal por meios ctónicos.

Outro ponto a adicionar para o facto de Sucellos ser um Deus do Submundo é a sua ligação a Nantosueltā. Esta Deusa – cujo nome provém do Proto-Celta *nanto-swelo-tā, “vale solarengo”- está claramente associada à Terra tendo em conta a etimologia do seu nome e ainda os atributos com que é representada na iconografia Romana que a aproximam de Proserpina. J. J. Hatt afirma em “Mythes et Dieux de La Gaule” (tomo II, capítulo IX) que Nantosueltā é uma divindade que passa o Inverno no Outro Mundo (com base na representação desta com uma aedicula e um corvo), além de estar relacionada com a fertilidade agrária e a própria terra. Uma Deusa, também de cariz local e não supra-regional (como Nantosueltā) e com atributos muito semelhantes à anterior, chamada Airecurā é colocada na posição de consorte de Dīs Pater e junto com estes está mencionado Ogmios (que tem função de psicopompo).

Nantosueltā e Sucellos

Juntando tudo isto, forneço um esquema de qualidades e atributos deste Deus como um sumário do que foi dito.

Teónimos conhecidos: Sucellos, Cīcollus
Atributos: Um dos primeiros Deuses, criador, ligado à fertilidade vegetal, através de meios terrenos, ciclo de vida-morte-renascimento (assim sendo, longevidade),
mundo inferior (Andedumnos) e criador dos humanos.
Consorte: Nantosueltā (de Sucellos), Litauī (de Cīcollus).
Posses: Caldeirão e martelo.
Animais: Cão, corvo.
Plantas: Teixo, pinheiro.
Cores: Preto ou cinzento (relação à morte), verde (atributos relacionados com a vegetação e aproximação a Veles).
Festival principal: Trīnoχtes Samonī.
Oferendas: Libações no solo, deixar oferendas de alimentos ou objetos numa cova.


*
– Confesso que não sou grande apologista do sistema de Georges Dumézil, que considero um pouco rígido e não permite explicar a totalidade das crenças Celtas (e de vários outros povos). É bom, sim, mas é inegável que falta algo.

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