Deus Multi-Habilidoso

Este tipo de Deus é algo relativamente curioso e – diria eu – único na cultura pan-Celta e que realmente não tem grandes paralelos, quando visto num todo, com as restantes fés Indo-Europeias. Porém, ao analisarmos cada um dos seus traços, é possível chegar a um consenso sobre as suas qualidades, algo que tem iludido a maioria dos estudiosos, principalmente nos tempos mais primordiais da arqueologia.

Quando se fala em “Deus Multi-Habilidoso”, é óbvio que é a *Lugu- que a pessoa se refere.
Já foram propostas várias possibilidades etimológicas para desvendar o significado deste teónimo. a principal destas (e que é a menos descabida) é que provém do Proto-Indo-Europeu *leu̯k-. Isto não seria possível, já que o PIE /eu̯/ transformou-se em /ou̯/ em Proto-Celta e a consoante /k/ não se alteraria para /g/.
Porém, a raiz deste teónimo já foi descoberta. John T. Koch afirma que o teónimo tem origem no Proto-Celta *lugi̯o-, ‘juramento’, algo que faz sentido tendo em conta o aparente tabu em mencionar o nome de Lugus em fórmulas de juramento atestadas nas fontes insulares.

É tomando esta hipótese como correta que é possível caracterizar uma das facetas de Lugus…

Ora, tendo em conta que *Lugu- (uso esta forma para abranger os teónimos insulares e continentais) provém de *lugi̯o-, podemos estipular que uma das suas funções era ser Deus do juramento.
Como seria de esperar, encontramos um paralelo não só na religião Védica em Mitrá, mas também no Zoroastrismo, em Mithra. Estes dois teónimos provêm do Proto-Indo-Iraniano (um ramo do Proto-Indo-Europeu) *Mitra – ‘contrato’ – e ambos são Deuses do juramento.
Mitrá, era um Deus muito importante no período Védico, sendo que era considerado regente de contratos, tratados, amizades, alianças, assembleias e defensor da veracidade.
Na linha 59 da terceira Mandala do “RigVeda”, Mitrá é mencionado na seguinte forma, no parágrafo 1, 2 e 6, respetivamente:

“Quando Mitrá fala, provoca agitação nos homens para que trabalhem (…)”

“(…) ó Mitrá, que lutas para manter a tua Lei sagrada.”

“(…) auxiliador da raça do homem, que dás o maior esplendor, a fama gloriosa”

Porém, este Deus raramente aparece mencionado no RigVeda sem o seu companheiro Varuṇa, que o ajuda no manter da Lei – rtá – que o próprio Varuṇa engendrou. Esta relação também se verifica na mitologia pan-Celta (veja o artigo Deus da Lei).

Mithra, por outro lado, é tido como ligeiramente omnisciente, sendo que esta qualidade é mencionada no “Yasna”:

“Mithra das largas pastagens, dos mil ouvidos e da miríade de olhos.”

Isto é novamente referido no “Khordeh Avesta”:

“Homenagem a Mithra das amplas pastagens de gado, cuja palavra é verdadeira, que pertence à assembleia, que tem mil ouvidos, que é bem formado, que tem dez-mil olhos, exaltado, que tem amplo conhecimento, que é prestativo.”

 Assim sendo, é possível concluir que Mithra não pode ser enganado, ludibriado e sempre vigilante. Ou seja, é impossível escapar às obrigações de um acordo após o celebrar deste, sem que Mithra possa punir a ofensa.
Ao contrário do que acontece na religião Védica, não existe nenhum cognato direto Iraniano de Varuṇa, sendo que as funções de omnisciência deste foram atribuídas a Mithra já de raiz.

Agora é altura de comparar isto com as provas dos territórios Celtas.
Como já foi dito, nas fórmulas de juramento, é possível confirmar que os seus autores estranhamente evitavam usar termos que aludissem expressamente ao termo ‘juramento’ (*lugi̯o-) e o nome de *Lugu- pertencia a esse tipo de vocabulário, certamente.
Na Irlanda, temos, em Irlandês Antigo (no Ciclo de Ulster):

Tongu do Día toinges mo thúath

“Juro ao Deus a que a minha tribo jura”

 Como é possível constatar, evita-se termos derivados de *lugi̯o-, preferindo-se a alternativa derivada de *tong-e/o-, que significa ‘jurar’ e ‘prometer’.
Em Gales, temos a seguinte fórmula, em Galês Médio (no “Math Fab Mathonwy”):

Mi a dynghaf dyghet idaw

“Juro um destino por ele”

O “ele” mencionado é, muito provavelmente, Lleu, a forma Galesa de *Lugu-.
Por fim, na inscrição de Chamalières, é possível ler:

“(…) ton cnāman toncsi̯onti̯o (…)”

Esta parte da frase tem sido comparada às formas acima descritas, apesar de ainda não se ter chegado a um consenso quanto à possível tradução.
Mas, tal como existe um aparente tabu em mencionar *Lugu-, também é possível encontrá-lo mais explicitamente referido.
Novamente no Ciclo de Ulster, é possível encontrar:

Luigim luigi luigis mo thuath

“Juro o juramento que a minha tribo jura”

Esta forma já está obviamente ligada ao Proto-Celta *lugi̯o-.
Na Gália, também na inscrição de Chamalières, é possível encontrar Lugus indiretamente mencionado:

Lugē dessūmmīīs
Lugē dessūmmīīs
Lugē dessūmmīīs
Lux
e

“No juramento os endireito,
No juramento os endireito,
No juramento os endireito.
Que se jure.”

 Ou seja, estamos perante algo (mencionar termos derivados de *lugi̯o- ou não) que podia ser opcional, já que ambas as formas estão atestadas, se bem que o não mencionar é mais comum.
Ora, tendo já definido *Lugu- como um Deus do juramento, temos de ter em conta o que mais pode ser adicionado tendo ainda esta dimensão em conta.
O primeiro a ter em conta, é o prestar de serviços. Como qualquer estudante da Lei atual saberá, os serviços são prestados e estão sujeitos a contrato/acordo (isto de forma simplificada). Acontece que a vassalagem é um serviço e que existe um epíteto do Mercurius Galo-Romano que se refere a isto mesmo: U̯ađocaletos.
Este epíteto remonta ao Proto-Celta *u̯asto-kaleto- e significa ‘duro com os servos’. Prestar vassalagem não é uma obrigação social per se e é diferente de escravatura (algo que estaria no domínio do Deus da Lei). Um vassalo presta juramento de servir um amo e é aqui que *Lugu- entra: o dito cujo vigiaria este contrato e trataria de punir o servo caso este não cumprisse a sua palavra.
Algo ainda relacionado à contratualidade é o comércio. Em “De Bello Gallico”, Caesar refere que os Gauleses viam Mercurius – ou seja, Lugus e outros nomes que este teria – como “padroeiro” de trocas e dinheiro (entre outras coisas). Esta ligação ao comércio também está sujeita a contrato, se bem que – tal como atualmente – é algo que é feito de forma quase automática: o dono quer vender e o cliente quer comprar, logo acordam em fazer a troca por um montante.
O próprio manuseamento de dinheiro – como empréstimos – também implicaria um contrato. *Lugu- também tem, portanto, a capacidade de intervir nestes casos, garantindo a honestidade entre ambas as partes (se o preço é justo, severidade dos juros, etc). Afinal, trata-se de um juramento. O próprio festival Gaélico de Lugnasad tem como uma das suas principais atividades o comércio.
Assim sendo, temos – por agora – uma divindade que rege os juramentos, contratos, trocas comerciais.

A seguinte faceta de *Lugu- são os seus dotes “artísticos”. Tal como Caesar diz em “De Bello Gallico”, Lugus era considerado pelos Gauleses como “omnium inventor artium”, ou seja, inventor de todas as artes.
Sabemos que Caesar não estava a inventar, pois Lug – a versão Irlandesa – tem como epítetos Samildánach, ‘igualmente dotado’, e Iludánach, ‘muito dotado’.
No “Cath Maige Tuired” podemos ler uma descrição da totalidade das artes praticadas por Lug:

“O guarda da porta perguntou a Samildánach:
– Qual é a arte que você pratica? – disse ele. – Pois ninguém entra em Tara sem saber uma arte.
– Pergunte-me. – disse ele. – Sou carpinteiro.
E o guarda da porta respondeu:
– Não precisamos de si. Já temos um carpinteiro, Luchtae, filho de Luachaid.
– Pergunte-me, ó guarda da porta! Sou ferreiro.
E o guarda da porta respondeu-lhe:
– Já temos um ferreiro, Colum Cualléinech dos três novos processos.
Ele disse:
– Pergunte-me: sou um campeão.
O guarda da porta respondeu:
– Não precisamos de si, já temos um campeão, Ogma filho de Ethliu.
Ele disse de novo:
– Pergunte-me – disse ele. – Toco harpa.
– Não precisamos de si. Já temos quem toque harpa, Abhcán filho de Bicelmos, que foi
escolhido pelos homens dos três Deuses dos montes dos síd.
Disse ele:
– Pergunte-me: sou um herói.
O guarda da porta respondeu:
– Não precisamos de si. Já temos um herói, Bresal Echarlam filho de Echaid Baethlam.
Então ele disse:
– Pergunte-me, ó guarda da porta! Sou poeta e sou historiador.
– Não precisamos de si. Já temos um poeta e historiador, En filho de Ethaman.
Ele disse:
– Pergunte-me. – disse ele. – Sou feiticeiro.
– Não precisamos de si. Já temos feiticeiros. Muitos são nossos feiticeiros.
Ele disse:
– Pergunte-me: sou médico.
– Não precisamos de si. Já temos Dian Cécht como médico.
– Pergunte-me. – disse ele – Sou copeiro.
– Não precisamos de si. Já temos copeiros, Delt e Drucht e Daithe, Taé e Talom e Trog, Glei e Glan e Glési.
Ele disse:
– Pergunte-me. Sou um bom braseiro.
– Não precisamos de si. Já temos um braseiro, Credne Cerd.
E ele disse de novo:
– Pergunte ao rei – disse ele. – se ele tem um único homem que possua todas estas artes, e se ele tiver, não entrarei em Tara.”

Embora se trate de uma lista bastante ampla, podemos discernir pelo menos quais as artes que eram prezadas entre os Gaélicos da Idade do Ferro até à Idade Média.
Algo que também é possível discernir é como as suas habilidades não estão fixas a apenas uma classe social.
A carpintaria, ferragem e tratamento de braseiros é algo que se encaixa na classe social mais baixa (excluindo os escravos, que nem eram considerados uma classe), a dos produtores.
Os feiticeiros, poetas, historiadores e médicos encaixam-se na classe sacerdotal.
Os heróis, copeiros (?) e campeões claramente pertencem à classe guerreira, que estava encarregue de exercer poder sobre as restantes, com ajuda da classe sacerdotal.
Temos, portanto, uma divindade que não está restringida a apenas um certo tipo de atividades; tem a capacidade de obter excelência em cada uma delas.
Como é dito por Koch, em “Celtic Culture – A Historical Encyclopedia” (pág. 1203), *Lugu- é tratado como um prodígio divino, um génio entre os Deuses, que mesmo conhecendo artes ligadas à classe produtora/artesã, consegue dominar outras das classes regentes.

Algo que também aponta para a sua natureza relacionada ao transcendente, ao que está para vir, é o seu animal por excelência: o corvo. Este animal é descrito e representado exaustivamente em fontes galo-romanas, não só associado a Lugus, mas também a outros Deuses como Nantosueltā e Sucellos.
Para o caso de Lugus, temos o relato algo fictício sobre a fundação de Lugudūnon (> Lyon), registado por  pseudo-Plūtarkhos:

Depois do Arar [o rio Saône], um monte chamado Lūgdūnos que também mudou de nome, daquela vez, pela razão seguinte. Inspirados por um oráculo, depois de terem sido perseguidos por Séséronéos, Mômoros e Atepomaros foram até aquela colina para fundar uma aldeia.
Quando estavam a escavar as fundações, corvos apareceram, voando em todos os sentidos, cobrindo as árvores das redondezas. Versado na ciência dos augúrios, Mômoros batizou a aldeia de Lūgdūnos, pois, na sua língua, corvo diz-se ‘lūgos’ e um monte ‘dūnos’, tal como diz Clitophon no 13º livros dos seus “Ktiseis”.

Não sabemos quanto deste relato foi inspirado pela história real da fundação de Lugudūnon, mas são visíveis pelo menos 3 elementos etimologicamente Celtas. O primeiro é o nome Attepomāros, que remonta ao Proto-Celta *ad-tekwo-māro, ou seja, ‘Grande em Súplicas’, ou seja, ‘a quem muito se suplica’ (que Koch entende como um epíteto de Lugus, “Celtic Culture – A Historical Encyclopedia”, pág. 1291). Depois, temos o elemento dūnos, mais comummente escrito no neutro singular dūnon (daí o latinismo dunum). Por fim, temos **lūgos, que, ao contrário do que o autor afirma, não se trata de um nome para ‘corvo’, mas, certamente, de uma falsa etimologia para o teónimo Lugus; afinal de contas, Lugdunum deriva de *Lugudūnon, ‘Fortaleza de Lugus’.

Algo de interessante é que no testo é referido que Mômoros conhecia o augúrio, ou seja, a arte divinatória de prever o futuro através do voo de pássaros. Isto, conjugado com o facto de corvos serem animais altamente ligados a presságios, pode ser mais uma pista de que Lugus seria um dos dois indivíduos da história, se não ambos. De forma vagamente semelhante, Llefelys tem poderes de divinação no “Cyfranc Lludd a Llefelys“, o que lhe permite descobrir quais são as pragas que o reino de Lludd sofre.
Já num relato de Strabōn (in “Geographica“, IV) este alude a pássaros corvídeos com asas brancas, que possivelmente teriam sido pêgas, que era usados para um rito de divinação.

Curiosamente, foi achado em Lyon um recipiente que representa o Mercurius Galo-Romano acompanhado de animais que não são aqueles tipicamente associados à versão nativa Romana. Entre eles estão um corvo, que voa acima do dito Deus.

Recipiente achado em Lyon.

Recipiente achado em Lyon.

*Lugu- é uma divindade trans-funcional, capaz de se movimentar livremente sem restrições.
Caesar, em “De Bello Gallico” afirma que os Gauleses acreditavam que Mercurius [Lugus] os guiava em viagens. Isto remete-nos para o seu epíteto (ou epíteto alternativo) Ciđđonios – atestado como Cissonius ou Cisonius –  que deriva de *kisto-ono-o-, que significa algo como ‘da Grande Charrua’. Segundo o “Mythes et Dieux de la Gaule“, pág. 217, esta é uma ligação óbvia a Lugus ser padroeiro dos viajantes.
Isto é ainda mais óbvio quando temos em conta um certo detalhe que é atestado em Gales, mas também na Ibéria e na Gália. No conto “Math Fab Mathonwy” (quarto ramo do “Mabinogi”) e nas “Trioedd Ynys Prydain” , é dito que Lleu tem ofício de sapateiro.
Em território Celtibérico, existe uma dedicação por parte de um consórcio de sapateiros a uma tríade de *Lugou̯es:

Lugouibus sacrum L. L. Vrcico collegio sutorum

“”L. L. Urcico dedicou isto aos sagrados Lugoues, pelo consórcio de sapateiros”

 Estamos perante três hipóteses:

  1. Ou *Lugu- domina a arte de fazer sapatos.
  2. Ou tal afirmação é do domínio simbólico, estabelecendo um paralelo entre os sapatos permitirem a deslocação (confortável) e a versatilidade de *Lugu- não só em termos de funções mas na sua capacidade de deslocação entre mundos e formas.
  3. Ambas as coisas.

Ligada a esta capacidade trans-funcional, está a capacidade de *Lugu- de praticar magia. No “Cath Maige Tuired” Lugus usa magia para lutar, além das suas próprias armas, assim como Lleu – no “Cyfranc Lludd a Llefelys” – consegue fornecer a Llud conselhos sobre como magicamente ultrapassar as três opressões que prejudicam o reino do último.

Assim, podemos ainda estabelecer que *Lugu- tem domínio sobre magia, tornando-o ainda mais poderoso. Podemos estabelecer, portanto, um paralelo com *Wōđanaz, que domina a magia assim como as artes guerreiras (existe uma teoria que afirma que *Lugu- influenciou a evolução do culto de *Wōđanaz, mas não vejo razões para crer que não tenham evoluído de forma semelhante de forma natural mas também devido a proximidade territorial). *Lugu- pode, então, ser classificado como uma divindade da primeira função – nomeadamente de cariz mágico-religiosa – de Dumézil.

Algo a ter em conta é que Lugus é representado em forma tríplice, dentro e fora da Gália.
Na Irlanda, uma versão do nascimento de Lug afirma que ele é um de trigémeos.
Na Gália, temos duas representações de uma divindade com três faces, que se crê ser Lugus:

Baixo relevo encontrado em Paris.

Altar achado em Reims.

Parece-me que estamos em condições de definir Lugus:

  • Deus de juramentos
  • Deus de comércio, lucro e viagens
  • Deus trans-funcional

Não poderia, porém, terminar este artigo sem mencionar o que Lugus não é.

Lugus não é uma divindade do sol (ou da lua).
As associações à luz têm sido por demais feitas até hoje, isto não tem muito por onde se lhe pegue. Como já foi dito anteriormente, uma ligação a *leu̯k- seria impossível, já que temos o Proto-Celta *lou̯ko-, que jamais se tornaria em lugus.
Algo que certamente alimentou esta ideia – errada – da ligação à luz foi o que ocorreu nos territórios insulares.
Na língua Galesa, lleu pode significar ‘luz’ e ‘brilho’. Porém, é provável que estejamos perante uma reinterpretação do significado original, tal como aconteceu nos termos para ‘druida’; a palavra para ‘druida’ deriva, originalmente, de *dru-u̯id- (‘conhecimento firme’) – que daria o Gaulês druu̯iđ – sendo que em Galês Médio deu-se um retorno à raiz anterior *deru̯o-u̯id- (ver “Celtic Culture – A Historical Encyclopedia”, pág. 615).
Curiosamente, as divindades Mitrá e Mithra têm cariz solar; Mitrá pertence ao grupo dos Ādityas, que são divindades de classe solar, enquanto que Mithra, num período mais tardio, parece chegar a um ponto de fusão com a própria divindade do sol (que até então tinha sido Hvarə-xšaēta).

Lugus não é uma divindade da tempestade. O Lugus Ibérico, Gaulês e Britónico não o são, mas Lug (Gaélico) pode ser interpretado como tal.
Como pode ler nos artigos Deus do Trovão, Deus do Submundo e Lugunassātis, na Irlanda ocorreu um processo em que algumas divindades aglutinaram a si funções de outras; Lug não foi exceção.
A sua subida ao poder após o destronar de Nuadu e, depois, de Bres, é algo que não ocorre fora da Irlanda. Tipicamente, o sucessor de Nuadu – excluindo o detalhe dos Fomoiri – seria o Deus do Trovão. Porém, Lug tendo já funções deste foi o óbvio candidato.
Os seus outros epítetos Lonnbeimnech (‘atacante destemido’) e Lamhfhada (‘braço longo’) juntamente com a etimologia popular relativamente ao seu nome – que, novamente, é dito significar ‘luz’ – é sinal de que houve uma deslocação de funções, além da ligação à colheita e chuvas de verão. T. F. O’Rahilly, em “Early Irish History and Mythology” (págs. 60 a 65) postula que a sua lança, Gae Assail, seria uma representação do relâmpago.
É seguro afirmar que fora dos territórios ocupados por Gaélicos, esta tarefa de assegurar as chuvas de verão que permitiriam as colheitas, seria tarefa do Deus do Trovão/Tempestade.
Dagda assumiu o trono depois de Lug e creio que o tenha feito mais como Deus do Submundo, isto porque fora da Irlanda este tipo de Deus nunca alcança qualquer tipo de papel soberano sob o panteão; ou seja, Dagda seria a última escolha.

Lugus não é uma divindade da colheita.
Como dito no parágrafo anterior, ao contrário de Lug, Lugus não tem qualquer domínio sob os fenómenos atmosféricos, pois tal cabe a Taranus (e afins).
Assim sendo, num rito de Lugunassātis, um Reconstrucionista Gaulês teria de agradecer a Taranus e não a Lugus por este fenómeno.
Porém, isto não implica que o que for recolhido na colheita não lhe possa ser dedicado também, visto que a própria colheita é um ganho que pode ser armazenado, trabalhado e até vendido.

Teónimos conhecidos: Lugus, Ciđđonios, Uisuciios.
Atributos: Viagens, comércio, riqueza, astúcia, todas as artes, função mágico-religiosa, dia, juramentos, liderança, guerra, caminhos, calçado, assembleias, triplicidade.
Consorte: Rosmertā, Atesmertā, Cantismertā.
Posses: Lança e cavalo (?).
Animais: Cavalos e corvos.
Plantas: Freixo.
Cores: ?
Festival principal: Lugunassātis
Oferendas: Dinheiro e bens manufaturados deixados em encruzilhadas, cimo de montes e no limite de propriedades.

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