Deusas Mães

Um ponto curioso das várias vertentes da religião da Gália é a presença de Deusas Mães cuja natureza poderia ser descrita quase como “genérica”. Utilizo este termo pois o seu grande número de atributos é, por vezes, ambíguo o suficiente para que se gerem interpretações apressadas (que, confesso, aconteceu comigo).

Podemos encontrar atestações dos nomes das Mātres (‘Mães’) e Mātronās (‘Grandes Mães’) em praticamente toda a extensão da Gália, num impressionante total de 84 inscrições, evidenciando que o seu culto chegou a alcançar os confins orientais do Reno, segundo Koch [2006: 1279] e Pedreño [2002: 254], sendo que em muitas situações o seu nome é adaptado à declinação do Latim: Mātrēs e Mātronae.
Para nos auxiliar a desvendar a natureza desta tríade [geralmente] de Deusas, precisamos de analisar a iconografia das suas muitas representações datadas do período Galo-Romano…

Mātronās de Vertault.

Mātronās de Vertault.

No exemplo acima, temos três Deusas que são apresentadas com atributos diferentes, além de idades aparentemente díspares. A primeira Deusa, à esquerda, tem uma criança no colo, com roupa de mulher casada, cabelos trançados, presos e parcialmente cobertos; isto era a aparência tradicional de uma mulher casada, na época. Revela o seio direito, talvez como sinal de que irá amamentar o bebé, e indicando que tem função de proteger as novas gerações, muito provavelmente tendo sido invocada na hora do parto.

A segunda Deusa expõe um rolo de pergaminho. Também tem o seio direito à mostra, apesar de tal não ter uma função aparente, e veste roupa de mulher casada, além de ter o cabelo todo coberto, o que costumava ser um indicador velhice. A sua aparência, assim como o pergaminho provavelmente denotam uma função ligada ao conhecimento relacionado com o passado e a tradição. A terceira Mãe, à direita, segura uma patera ou vasilhame, na mão direita, e outro objeto não claramente identificado, talvez sendo um globo. Está também vestida como uma mulher casada, bem composta, com semelhante à Mãe da esquerda. Especulando sobre o significado destes utensílios, talvez representem as responsabilidades de uma esposa, alternando-se entre o religioso (a patera, usada em libações) e a subsistência da unidade familiar (utensílio não identificado).

Esta escultura, só por si, não é irregular na cultura Galo-Romana, existindo, inclusive estátuas em que carregam cornucópias [Green 1992: 191]. Porém, pode ser encontrada uma imagem muito semelhante à anterior, em termos iconográficos, num relevo em Ptuj, na Eslovénia, quase do outro lado da Europa:

PtujAlém de que várias pequenas representações de uma só Mãe que carrega um bebé, foram encontradas um pouco por toda a Europa ocidental e central. A função destas estatuetas era para permitir o culto doméstico romanizado.

Estatueta em terracota, Saint German-en-Laye.

Estatueta em terracota; Saint German-en-Laye.

Todavia, o motivo de fertilidade humana e prosperidade familiar aparentemente não são as únicas funções destas divindades.

Altares em honra das Mātronās, Bonn.

Altares em honra das Mātronās; Bonn.

A imagem acima revela um conjunto ligeiramente distinto de Deusas, que parecem ter sido autóctones da região de Köln, tendo recebido o epíteto provavelmente germânico, se bem que latinizado, de Aufaniae que talvez seja relativo à localização exata do achado arqueológico, ou da proveniência do dedicante [Green 1992: 196]. Em comparação às três representações anteriores, o ponto em comum é a sua coexistência como uma tríade. Porém, a idade destas Deuses – em comparações aos humanos – é diferente da disposição que já nos é familiar: a Deusa central é claramente jovem, algo indicado pelo seu penteado e face mais delicada, enquanto que as Deusas que a flanqueiam são idosas, tendo em conta os cabelos cobertos e as feições. E, claro, todas carregam o mesmo atributo: cestas ou pratos cheios de frutos e/ou cereais. Estes objetos claramente as associam à colheita, ao produto da fertilidade agrária.

Devemos, então, considerar esta tríade como associada à terra? Não necessariamente. Existe um detalhe que permite afastarmo-nos dessa possibilidade (além dos pontos mencionados no artigo Deusa da Terra): o facto de haver uma quantidade substancial de dedicações feitas em contexto aquático, nomeadamente de fontes.
Antes de mais, começamos com o caso mais aberrante: o do rio Marne. É hoje sabido que o nome deste tributário do Sena provém do Gálico Mātronā [Koch 2006: 1279] que é uma referência direta ao que pode ser uma variação unificada das três Grandes Mães. Porém, este é um caso isolado, o que não permite que tomemos conclusões apressadas quanto à identidade desta Deusa, nem quanto às suas funções, uma vez que representações opostas são muito mais comuns. Por vezes, surgem no contexto de fontes sagradas, juntamente com as Ninfas – como nas cidades de Vaison, Allan, Crestet, Aix-les-Bains, e Grenoble – apesar de ser feita uma distinção clara entre ambos os grupos, com mínima coincidência de funções. Em outras ocasiões, as Mães são unicamente mencionadas por epítetos teónimos locais, como no caso das latinizadas Suleviae (em Gálico correto teríamos Sulou̯i̯ās, ‘Boas Guiadoras’) honradas em Velléron e Vénasque [Hatt 2005: 83-84]. Até mesmo na Península Ibérica, local para onde o seu culto foi levado por via de influência Gálica ou Galo-Romana, as Grandes Mães costumam ser cultuadas em fontes, como em Clunia e Yanguas, detalhe que coincide com a origem gálica [Pedreño 2002: 255].

A princípio, parece que temos várias funções irreconciliáveis, como Hatt parece sugerir [2005: 85], mas tal não tem de ser o caso. A origem exata do culto das Mātres ou Mātronās é desconhecida, mas é tipicamente apontada como sendo originário da região do rio Marne devido à sua etimologia já referida; todavia, tendo em conta a quase desconcertante disseminação do seu culto, creio que seja provável que estas Deusas fossem intrínsecas à religião da Gália. Se tivermos em conta a grande variação de teónimos no território outrora ocupado pelos Gálios, sabemos que até mesmo as divindades que hoje sabemos serem pan-celtas poderiam surgir sob nomes diferentes, como no caso de Lugus, que também era conhecido como Gebrinius (Gebrini̯os) e Visucius (U̯isuci̯os) na Germānia Superior [Koch 2006: 796] [Pedreño 2002: 120, 190]. A explicação de Green [1992: 189, 190-198, 202-204] é a mais satisfatória: a partir de uma origem comum, o culto às Grandes Mães foi-se diversificando, obtendo focos distintos dependendo da região em questão. Green faz a seguinte divisão:

  • Grandes Mães da região de Bourgogne e do vale do rio Ródano: representadas com uma grande variedade de objetos, desde aqueles que representam uma responsabilidade matrimonial feminina, fertilidade agrícola, fertilidade humana, e cura através de água. Podem surgir com elementos associados às Parcae, três Deusas romanas do destino. A ênfase é muito comummente tida como sendo na comunidade e na família, no cariz cíclico da vida.
  • Grandes Mães da região de Trier: este grupo prima por um maior foco na transitoriedade da vida, através de utensílios referentes à fertilidade e prosperidade, como cálice, folhas de palmeira (símbolo de vitória), e patera, mas principalmente através de objetos com significado mais abstrato, como a roca e o pergaminho [Hatt 2005: 90]. Porém, um aspeto mais marcante é a presença de cabeças tricéfalas junto a cada Deusa, o que pode ser interpretado como uma alusão a Lugus, por um motivo que hoje desconhecemos [Pedreño 2002: 254].
  • Grandes Mães da Germānia*: o foco desta região voltou-se para a fertilidade agrícola em sentido bastante literal, através da representação das Deusas com cestas e pratos de frutos/cereais. Porém, apesar de a atividade agrícola não estar associada às classes mais prestigiosas, as dedicações eram muitas vezes feitas por indivíduos de status elevado, como oficiais administrativos e militares. Naturalmente, isto traduziu-se em altares votivos suntuosos e riquíssimos em detalhes, comparativamente aos demais.
    Um aspeto que os altares desta região tornam mais óbvios que os das outras duas áreas, é que o aspeto regional e mais íntimo do culto das Mātres ou Mātronās parece ter-se mantido, a julgar não só pelo número de epítetos regionais ligados a localidades – como Alaferhuiae, Aufaniae, Vacallinahae, Vanginehae… – mas também pela menção a templos com grande afluência pública.

Como podemos classificar este culto? Como já foi dito, parece ter tido ligações a aspetos naturalistas, especialmente a fontes e até mesmo a árvores – carvalhos, principalmente [Green 1992: 152] [Pedreño 2002: 255] – à volta das quais foram construídos santuários tipicamente medicinais no período Galo-Romano. Tal como na Idade do Ferro, estes espaços mantiveram-se como lugares de assembleia, de culto quase familiar, um aspeto que é da esfera de influência destas Deusas.

Grande altar votivo, mostrando sacerdotes e devotos, Bonn.

Grande altar votivo, com sacerdotes e devotos; Bonn.

Por outro lado, a fertilidade era algo também governado por estas Deusas. Um ponto essencial ao seu culto, que dispunha de sacerdotes (como na imagem acima), mas que também era intensamente praticado por leigos, era o ofertar de colheitas. Aliás, é bastante comum surgirem dedicações em que os devotos lhes levam sacrifícios que podem ser frutos, cereais, pão, bolos, e até mesmo grinaldas de flores [Green 1992: 197].
Este ponto leva-me a considerar que apesar de não serem responsáveis pelas colheitas per se, teriam um papel na sua preservação, que por sua vez, garantiria a subsistência da comunidade e das gerações futuras. Assim, as Mães receberiam sacrifícios de porções das messes e, em troca, protegeriam o que fosse armazenado.

Procissão de devotas das Mães, que lhes levam os seus sacrifícios; Bonn

Procissão de devotas das Mães, que lhes levam os seus sacrifícios; Bonn.

Como Hatt [2005: 83-85, 88] refere, é bastante provável que além de estarem associadas a grandes comunidade – como evidenciado pelos epítetos de Italae, Gallae, Germānae, Trānsmarinae, Ollotōtae (do Gálico Ollotōti̯ās, ‘de Todas as Tribos’) – também eram cultuadas por famílias, mas, à semelhança do que ocorria com as Parcae, Larēs, e Fatae; não é em vão que por vezes surgem com o epíteto Domesticae [Green 1992: 202]. Assim, a sua ligação ao passar de gerações também faria todo o sentido. Este último aspeto, aliado às suas representações em diversos estágios da vida, permite que o culto a estas divindades adquira um foco não só no futuro (crianças, juventude), mas também no respeito aos vivos, e aos que já partiram para o Submundo.

Este artigo não poderia terminar sem se fazer menção à conexão com a mitologia galesa. A famosa Modron – cujo nome provém do Gálico Mātronā – que é mencionada como sendo mãe de Mabon fab Modron (Maponos) que foi raptado com apenas 3 dias de idade, também é atualmente referida como podendo ter feito parte do protótipo do episódio em que Gwri, filho de Rhiannon, foi raptado. Koch [2006: 1299-1300] refere que Mabon pode originalmente ter sido filho de Rhiannon – que provém do Britónico Rīgantonā (‘Grande Rainha’) – que é um nome Galês para a Deusa da Soberania. Assim sendo, poderíamos postular que a Deusa da Soberania – Eponā, por exemplo – seria mãe do Deus da Juventude – Maponos – mas que teria abdicado deste por força da tradição, em favor das Mātronās / Mātres.
A grande coincidência entre nomes e motivos pode revelar que uma boa parte do material do “Mabinogi” não é nativo, mas que se trata de um claro traço de mitologia que veio da Gália. Afinal de contas, o culto às Mães surgiu no continente, e estas Deusas são referidas duas vezes juntamente com Eponā [Hatt 2005: 51].

* –a região é conhecida como Germānia devido às invasões dos povos Germânicos, mas todo este território esteve, anteriormente, sob controlo gálico. Todavia, a crescente influência germânica é óbvia em bastantes epítetos de cariz regional que as Mães receberam, e cuja fonética corresponde a reflexos do Proto-Germânico.

Teónimos conhecidos: Mātronās, Mātres, e Sulou̯i̯ās.
Atributos: Prosperidade agrícola e humana, preservação das colheitas, deveres sociais femininos, matrimónio, parto, maternidade, laços familiares, cura, consciência da transitoriedade da existência.
Consorte: Nenhum.
Posses: Pergaminho associado ao destino, cestos de alimentos.
Animais: Cabra [Green 1992: 197]?
Plantas: Carvalho.
Cores: ?
Festival principal: Solstício de Inverno.
Oferendas: Frutos, cereais, pão, pastelaria, flores.

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