Deusa do Santuário (?)

Este foi, sem dúvida, o artigo mais complicado de escrever, especialmente devido à falta de atestação e representações da Deusa em questão, assim como a suspeita ausência quase total de cognatos Celtas e até Indo-Europeus. Contudo, será o artigo mais curto de todos.

Provavelmente não haverá interessado na religão Celta que não se tenha deparado com Nemetonā. Este teónimo, atestado em inscrições em Klein-Winternheim, Altripp e Trier. Apesar de parecer óbvio qual poderá ser a etimologia do teónimo, essa é, na verdade, uma das razões para a escrita deste artigo. Estamos, claramente, perante um reflexo do Proto-Celta *nemeto-onā.
E então, o que é que significa?
Como Xavier Delamarre (“Dictionnaire de la Langue Gauloise“, pág. 233) e Ranko Matasović (“Etymological Dictionary of Proto-Celtic“, pág. 288) bem dizem, *nemeto- pode ter dois significados, não apenas um.

  • O mais famoso atualmente, é o de ‘santuário’ e ‘recinto sagrado’, que evoluiu para o Gaulês nemeton (nominativo neutro singular).
  • O segundo significado pode ser ‘privilégio’ em termos sociais – nemetos (nominativo masculino singular), em Gaulês – que pode ser adjetivado como *nemeto-yo- (> nemetios), ‘priveligiado’.

E aqui está uma das grandes dificuldades para entendermos este problema: trata-se de um teónimo ou epíteto (ou ambos)?
Tratando-se de *Nemeto(m)-onā, o significado será ‘Grande Santuário’.
Contudo, se se tratar de *Nemeto(s)-onā, passa a querer dizer ‘Grande Privilégio’.

Gravura da inscrição de Bath, da autoria de um homem dos Treuerī.

Isto é tudo menos uma escolha fácil, que se torna ainda mais complicada tendo em conta a falta de iconografia concreta.

Segundo que é dito por John T. Koch (“Celtic Culture – A Historical Encyclopedia“, pág. 1351), foi achada uma estatueta de Nemetonā em Trier, mas infelizmente, tem-me sido impossível encontrar alguma imagem da dita cuja, quer na Internet, quer em livros. Assim sendo, teremos de continuar a guiar-nos por teónimos e afins.

Ora, algo que geralmente é ignorado é que Nemetonā aparece assimilada à Deusa Victoria na inscrição de Altrip (“Mythes et Dieux de la Gaule“, de J. J. Hatt, pág. 180), o que certamente é uma pequena ajuda para os problemas de interpretação. Victoria era relativamente afamada entre os Romanos, e os seus atributos eram uma coroa de louros e alguns símbolos de prosperidade como espigas de trigo. Não sei como é que a Nemetonā de Trier foi representada, mas provavelmente teria, pelo menos, os ditos símbolos de prosperidade.
A razão por detrás da associação de Nemetonā a Victoria provavelmente seriam conotações bélicas, que fazem lembrar os santuários de cariz [total ou parcialmente)] militar, como o de Ribemont-sur-Ancre e Gournay-sur-Aronde em que se podiam encontrar postes nos quais foram dispostas armaduras como forma de celebração de vitórias militares (ver artigo Recintos Sagrados e Templos).

Representação artística de cadáveres de soldados expostos no nemeton de Ribemont-sur-Ancre.

Representação artística de cadáveres de soldados, e suas armas e armaduras, expostos no nemeton de Ribemont-sur-Ancre.

Para complementar esta possível associação bélica, é de notar que Nemetonā aparece juntamente com Loucetios (cujo nome é romanizado como Leucetius e Loucetius) – que é sincretizado com Mars – em Klein-Winterheim (“Celtic Culture – A Historical Encyclopedia“, pág. 1192) e em Altrip (“Mythes et Dieux de la Gaule“, de J. J. Hatt, pág. 180). Contudo, este detalhe de uma possível relação conjugal de Nemetonā, tanto pode facilitar a análise, como dificultá-la.
Associada a Nemetonā, está Ancamnā (< *an-acamnā, ‘não dura’?), que é esposa de Lēnus, em Am Irminenwingert. Esta Deusa possuiu grandes atributos tribais – como padroeira dos Trēuerī – como mencionado no artigo Deus da Lei (“Mythes et Dieux de la Gaule”, J. J. Hatt, págs. 128 e 129).

Por um lado, temos alguma segurança de que teria uma ligação com a guerra e a vitória, já que o seu possível consorte é sincretizado com Mars.
Por outro, temos a questão da etimologia… O teónimo Loucetios deriva do Proto-Celta *lowk(k)et-yo-, e significa ‘Relampejante’ – *low(k)et- > louce significa ‘relâmpago’ – como John T. Koch afirma (“Celtic Culture – A Historical Encyclopedia“, pág. 1192). Parece um nome mais apropriado para um Deus celestial, mas, Koch faz uma relação interessante a mítica aura dos guerreiros, chamada lúan em Irlandês Antigo. Pessoalmente, penso que pode haver uma possível ligação à Claidheamh Soluis, a coruscante espada de Nuadu (“The Four Jewels of the Tuatha Dé Danann’, págs. 73 a 88″).

É possível dar a volta a este problema, se tivermos em conta que Taranus – que é claramente um Deus do Trovão/Tempestade – apesar de poder ser associado (de forma algo secundária) a cursos de água, nunca foi associado a Mars, apenas a Iuppiter/ Iuppiter Optimus Maximus. Porém, Noudons e Lēnus são indubitavelmente ligados a fontes e rios (“Mythes et Dieux de la Gaule“, de J. J. Hatt, pág. 90), sendo que ambos são sincretizados com Mars e aqui [Celtocrābiion] classificados como Deuses da Lei (ou seja, dignos do título de Toutātis). Loucetios, por mais descabido que o seu nome possa ser, também obedece as estes dois critérios (“Mythes et Dieux de la Gaule“, de J. J. Hatt, pág. 192)
Apesar de o mistério de Loucetios parecer estar praticamente resolvido, pelo menos quanto às suas funções, Nemetonā ainda permanece um pouco “distante”. A sua suposta ligação aos nemetā é viável?
No que toca a “personificações” de espaços sagrados, apenas consegui encontrar Vé, também conhecido como Loður, que além de ser o responsável por atribuir os 5 sentidos ao primeiros humanos, também parece ter sido o je ne sais quoi que atribuía cariz sagrado a um santuário nórdico (“The Northern Tradition“, de Galina Krasskova, pág. 82).
Se Nemetonā provir de *Nemeto(s)-onā, então é possível que como Deusa associada ao privilégio social – ou ao privilégio sagrado, como diz John Koch – que também ela, além de o Deus da Lei, estaria encarregue de decidir quem seria digno o suficiente para penetrar num santuário. Afinal, como bem sabemos, era possível ser excluído dos ritos – certamente como punição por ofensa ou crime, como ocorria entre os povos Germânicos (sagas de EyrbyggjaViga-Glúms) – se os druuides o achassem punição suficiente (“De Bello Gallico“). Na verdade, durante um rito Gaulês que envolvesse um banquete, a posição social era extremamente importante.

Em conclusão, Nemetonā parece estar associada à guerra num sentido mais nobre e heróico, ao estatuto social, e, possivelmente com a sacralidade dos santuários e ao protocolo a eles associado (“Mythes et Dieux de la Gaule“, de J. J. Hatt, pág. 197).

Teónimos conhecidos: Nemetonā e Ancamnā.
Atributos: Guerra, vitória, estatuto social, santuários (?).
Consorte: Loucetios e Lēnus.
Posses: ?
Animais: ?
Plantas: ?
Cores: ?
Festival principal: ?
Oferendas: Peças de armadura, troféus.

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