Dumnou̯āpūs / “Cosmologia”

Creio que a cosmologia Gaulesa é essencialmente semelhante às das tribos Gaélicas e Eslavas pré-Cristãs, por isso expandirei esta tese referindo ocasionalmente estas duas culturas, assim como exemplos da Gália.
Para as representações das cosmologia Gaulesa, acho que existem dois possíveis modelos e nenhum exclui o outro, sendo que é algo que depende da perspetiva. Um dos modelos é vertical e o outro é horizontal.

Existem três domínios/mundos:

  • o inferior
  • o médio
  • o superior

O modelo cosmológico vertical força-nos obrigatoriamente a recorrer ao famoso conceito Indo-Europeu da Árvore do Mundo. A Árvore do Mundo é o Axis Mundi, que une todos os mundos de uma cosmologia; esta perspetiva está presente na mitologia Eslava (e também na Nórdica), se se usar um modelo vertical.
Com base em achados linguísticos – págs. 37, 50, 75 e 76 do  “Dictionnaire de la Langue Gauloise” e págs. 29, 61 e 67  do “Etymological Dictionary of Proto-Celtic” – sabemos que os nomes dos três domínios foram preservados, assim como o nome da Árvore do Mundo.
O nome da Árvore do Mundo, em Proto-Celta, é *belyo- que se tornou bile em Irlandês Médio bilion em Gaulês (embora a evolução esperada fosse bellon/billon, mas tal palavra permanece por atestar). Essencialmente, esta palavra era usada para árvores muito grandes ou sagradas, por isso é plausível que tenha sido usada para denominar a Árvore do Mundo.

Então, nas raízes de Bilion temos o mundo inferior, onde os mortos e alguns Espíritos e Deuses vivem. Neste caso, temos a palavra Gaulesa Antumnos, que parece ser uma fusão de duas outras. Pode ser uma mescla de *ande- (‘debaixo’/’abaixo’) e *dumno- (‘mundo’), uma etimologia que é sugerida por Xavier Delamarre, e que provavelmente é a mais correta; esta opção daria ‘mundo inferior’. Pode também ser uma junção de *an- (‘não’, ‘in’) e *dumno-. Felizmente, temos um cognato em Galês Médio desta palavra, que pode comprovar o seu significado: Annwn.
O tronco de Bilion representa o mundo médio, o nosso Midgard, digamos. Pode-se chamar-lhe Dumnos, mas a palavra mais correta é Bitus – *bitu- em Proto-Celta – pois o primeiro termo é consideravelmente genérico. De facto, o termo *bitu- deriva do Proto-Indo-Europeu *gwiH-tu-, ‘vida’; logo, o termo aplica-se ao mundo dos mortais.
Por fim, chegamos aos ramos de Bilion, que suportam o mundo superior: Albios – *albyo- em Proto-Celta. Esta palavra pode ter sido usada como título do Deus do Trovão/Tempestade como Albiorīx (“rei do mundo superior”). Podem ser encontrados cognatos desta palavra em Galês (que, como o Gaulês, é uma língua P-Celta): elbid (Galês Antigo) e eluyd (Galês Médio).

A descrição destes mundos será feita mais abaixo, por agora irei focar-me em Bilion. Qual é a natureza desta árvore gigantesca? Tal como em todas as outras culturas IE, geralmente tais árvores costumam ter uma espécie, por isso ficam aqui os candidatos:

  • O carvalho (*derwo- > deruos) é o mais provável, pois é sabido que os druidas Gauleses não celebrariam quaisquer ritos sem estarem na presence dos ramos desta árvore. Não só simbolizava os poderes de Taranus, mas também é uma árvore provedora de comida (bolotas), madeira resistente e era frequentemente hospedeira do visco, que também era uma planta reverenciada. Além disso, os Druidas derivam o seu nome desta árvore:
    *derw-o-weyd- (PIE) > *derwo-weyd- (PC) > *druwid- (PC) > druuiđ (Gaulês)
  • O teixo (*eburo- > eburos / *iwo- > iuos) é diretamente relacionado com a morte e o renascimento e, assim sendo, com o Deus do Submundo, tendo em conta o folklore Celta sobrevivente e os relatos Romanos de suicídios cometidos ingerindo agulhas desta árvore.
  • Incluo o espinheiro-alvar (*skʷiyat- > spiiađ) apenas por causa da sua grande popularidade na Britânia, apesar das origens deste “fascínio” permaneçam como um mistério. Este é, obviamente, a opção menos provável.

Por outro lado, temos o sistema horizontal, também presente nas mitologias Eslava e Gaélica. Essencialmente, quando os Eslavos antigos não organizavam o seu cosmos de forma vertical, faziam-no horizontalmente e as “categorias” eram três: terra, mar e o que está além.
Isto é muito semelhante à visão Gaélica de um cosmos dividido em mar, terra e céu, em que o mar corresponde ao submundo/mundo dos mortos, a terra ao mundo médio e o céu ao mundo superior. Há, de facto, provas de que pelo menos uma tribo Gaulesa via a sua cosmologia deste modo. Um relato de Ptolomy, filho de Lagus, fala da história de Celtas que viviam na costa do mar Adriático e que se encontraram com Alexandre o Grande no Danúbio; quando este lhes perguntou o que eles temiam mais, eles responderam que era que o céu lhes caísse em cima. Isto é um ligeiro paralelo do seguinte excerto do “Táin Bó Cuailnge”:

“‘Iremos manter-nos no local onde estamos agora,’ disseram os guerreiros, ‘mas a não ser que o solo trema debaixo de nós ou os céus caiam sobre nós, não fugiremos daqui.’”
Tendo tudo isto em conta, aqui fica um pequeno sumário do que foi dito acima:

Submundo – Mar (*mori- > mori) / Subsolo (*uφo-gdon- > uodū)– Antumnos
Mundo Médio – Terra (*talamon- > talamū) – Bitus
Mundo Superior – Céu (*nemos- > nemos) – Albios

Agora que todos os domínios foram identificados, precisamos de estabelecer exatamente como são, ou pelo menos tentar. Antumnos, Bitus e Albios têm as suas próprias características, habitantes e vários outros atributos que são importantes se se quiser reconstruir o Politeísmo Gaulês.

Antumnos > Este é o domínio dos mortos, alguns espíritos e alguns Deuses e Deusas ctónicos. Porém, a sua localização é um pouco difícil de determinar, pois existem dois “tipos” principais de Outro Mundo num contexto pan-Celta. Assim sendo, ambos terão de ser analisados antes que uma decisão definitiva possa ser tomada.
Como pode ter lido antes, os Celtas acreditavam que após a morte viajavam para o Outro Mundo e, pelo que tenho estudado, havia vários destinos possíveis.

O mais popular é o Outro Mundo além-mar.
Os relatos de Procopius de Caesarea (500 EC – 565 EC) falam das almas de Gauleses abandonarem os corpos e deixarem as suas terras, indo para o noroeste da Gália para tomarem navios fantasmas. Uma vez abordo, as almas eram transportadas para o costa da Grã-Bretanha e uma vez lá, partiam para outro local, presumivelmente para os limites ocidentais do mundo.
Talvez fossem para um local semelhante à Gaélica Tír nÓg, a Terra da Juventude. Este local é considerado uma ilha nos limites ocidentais dos mapas, para onde os Tuatha Dé Danann fugiram.
Encontramos uma crença paralela na Galiza e Bretanha. Nessas terras, mesmo atualmente, há mitos que falam de almas viajarem até à costa, onde apanham um barco para o oeste. Na Galiza, há também uma procissão de almas, que viaja até aos promontórios – a dita Santa Compaña (Companhia Santa).

O problema destas versões é que foram registadas muito depois de os Celtas indígenas terem sido subjugados e contêm alguns elementos monásticos. Porém, a crença de que as almas partiam para onde o Sol desaparecia e terminava a sua viagem diária aparece num número considerável de culturas antigas, por isso é possível que alguns Celtas – os Gauleses incluídos – que vivessem perto da costa, ou na dita cuja, partilhassem esta crença.

Por outro lado, existem os famosos montes Síd da Irlanda. Basicamente, estes montes supostamente são a entrada para o Outro Mundo, que é habitado pelos Aes Síd (povo do Síd), que são imortais. Mas a palavra Síd não se aplica só a montes, mas também a cavernas ou uma região subterrânea vasta a que se pode ganhar acesso de várias formas. O melhor exemplo do ultimo caso é o conto do príncipe Loegaire mac Crimthainn: este príncipe mergulha num lago e debaixo das águas deste, descobre um magnífico reino. Após ultrapassar vários obstáculos, foi-lhe permitido ficar lá na presença dos Síd. Isto claramente indica uma crença opcional de que havia uma região subterrânea que podia ser acedida ao mergulhar em corpos de água.

Mas sobre Gales, onde os nossos “irmãos” Britónicos viveram, que mais gostaria de falar. Noutras mitologias, não há um nome específico para o Outro Mundo, mas em Galês Médio, como já vimos anteriormente, é chamado de Annwn. Esta palavra pode ter vários significados, mas o que interessa é que é bastante semelhante ao nosso Antumnos. Diz-se que Annwn está debaixo da terra ou de lagos, em alguns poemas antigos.
Esta é a minha perspetiva: Antumnos está debaixo do solo e pode ser acedido através de lagos, rios e cavernas. Isto justifica o porquê de os Gauleses deixarem oferendas – principalmente armas – aos seus antepassados e alguns Deuses em buracos profundos, lagos e rios.

Estes são os Deuses que fazem de Antumnos o seu lar, a tempo inteiro ou periodicamente:

  • Deus do Submundo
  • Deus da Lei (?)
  • Deusa da Terra (como esposa do Deus do Submundo ela poderia resguardar-se em Antumnos durante o inverno)
  • Deusa da Soberania (na édicula de Castel, é dito que ela desce a Antumnos perto do Solstício de Inverno)
  • Deusa do Rio
  • Deus Campeão (como psicopompo, seria o seu lar natural)
  • Deus Ferreiro
  • Deus da Juventude (?)

Porém, os portões de Antumnos não estão sempre abertos. Existem duas alturas do ano em que os portões estão abertos a todos, mortais e almas que já partiram:

  • Beloteneđ (Gaulês) / Beltene (Irlandês Antigo)
  • Trīnoχtes Samoni (Gaulês) / Samain (Irlandês Antigo) (de acordo com “Macgnímartha Finn“).

Apesar de estar situado debaixo do solo, o Outro Mundo não é um local escuro e ameaçador. É a terra de juventude eternal, visto que as almas são indestrutíveis (segundo os druuides), e o “tempo” é sempre solarengo, como se fosse sempre primavera o verão. Não há falta dos melhores frutos, grãos e vegetais. Há bastante água, mead e cerveja. E os animais que lá vivem podem ser consumidos durante todo o ano, pois não podem morrer, regeneram-se sempre.
Logicamente, as almas (anamones, sing: anamū) não ficam sempre em Antumnos para toda a eternidade, são enviadas para novos corpos, quase certamente de descendentes, quando a altura é apropriada.

Bitus > Este é o mundo de todos os seres mortais, onde os poderes dos Deuses de baixo e de cima atuam. Dado o limitado conhecimento que os povos antigos tinham do mundo – cientificamente – os Gauleses, assim como os outros povos Celtas, certamente viam o mundo como achatado, em vez de ser uma esfera.
Mas qual a sua forma? Acho que existem duas possibilidades. Uma é que achavam que era Redondo… não se pode justificar isto, mas parece-me plausível.
A segunda hipótese é que o viam como rectangular. Isto pode soar bastante estranho, mas como os nemetā tinham esta forma, talvez possa ser uma reflexão de como achavam que Bitus estava organizado.

Ao contrário do que se pode esperar, Bitus é o lar de um número elevado de seres. Nós humanos, animais, plantas, fungos, etc. Também existem os não-deuses (andēuoi). Os seguintes Deuses também podem fazer de Bitus o seu lar permanente ou temporário.

  • Deusa da Aurora e Lareira
  • Deusa do Rio
  • Deusa da Soberania
  • Deusa da Terra
  • Deus da Lei
  • Deus Ferreiro
  • Deusa Guerreira
  • Deusa do Santuário
  • Deusa da Prosperidade
  • Deus da Juventude (?)
  • Deus Selvagem/Pastoril

 

Albios > Este é, simplesmente, o céu. Mas a natureza do céu nas religiões Indo-Europeias pode variar de acordo com as perspetivas das culturas. Pode ser ou uma grande estrada feita de um metal ou um grande oceano o rio celestial.
Os melhores exemplos provêm das mitologias Védica e Persa. Na conceção Védica, o céu é um oceano e o seu governante é o Deus Varuṇa, que também rege todos os outros corpos de água. O porquê de o céu ser visto como um oceano talvez se deva à forma como as nuvens parecem fluir através deste e das grandes quantidades de água que às vezes caem dele – as monções.
No Zoroastrianismo, temos uma visão oposta: o céu é sólido. No mito de criação presente no “Bundahishn”, um dos “elementos” básicos criados por Ahuramazdā é o céu, que é descrito como feito de pedra e metal.

E então nós Celtas? Tendo em conta que não há qualquer prova de que algum povo Celta tenha considerado o céu uma região aquática, é bastante improvável que tenha havido tal perceção. Os Celtas, assim como ouras culturas Europeias, viam o céu como feito de um material duro – pelo menos a partir da Idade do Bronze – para justificar o movimento do Sol, Lua e do Deus do Trovão também. Assim como em outras mitologias Europeias, estes três eram movidos pelos céus em carroças puxadas por cavalos ou outros animais; o céu era uma grande estrada. Não se esqueça do que escrevi sobre os medos dos Gaélicos e Gauleses: temiam que o céu lhes caísse em cima, não que os encharcasse/inundasse.

Assim como em Antumnos, existem entradas para Albios, mas são nos cumes de montanhas; de facto, os cumes eram vistos como parte de Albios, onde oferendas podem ter sido deixadas. Os humanos não podem ter acesso a Albios, exceto às montanhas. É como se fosse um reino proibido, reservado a apenas alguns Deuses e Deusas (e pássaros, no que toca a seres mortais):

  • Deus do Trovão/Tempestade
  • Deusa Celestial
  • Deus do Sol
  • Deusa da Aurora e Lareira
  • Gémeos Divinos

Nota: O Deus Multi-Habilidoso não está incluído em nenhuma destas listas pois tem características e funções bastante liminares. Por isto, não ficaria surpreso se ele andasse de mundo em mundo sem uma casa permanente; um nómada divino, digamos.

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