Noibiī / Os Sacros

Esta página dedica-se ao explorar das crenças dos Gauleses à cerca dos três grupos de seres que veneravam: os Deuses, não-deuses  e ancestrais.
Antes de avançar para a análise dos indivíduos de cada grupo, porque não “perder” algum tempo a descrevê-los, para que melhor se possa entender as origens do antigo ponto de vista?

As divisões triplas são consideravelmente comuns entre as culturas Indo-Europeias, tanto que para o leitor informado, encontrar a referência aos “dé, andé ocus duine” no “Lebor Gabála Érenn” – Deuses, não-deuses e homens” – não é algo surpreendente, visto que referências semelhantes existem fora da Irlanda.
Entre os povos Védicos da Índia – que tinham crenças muito semelhantes às encontradas entre as subculturas Celtas – falava-se de devas, pitṛs, gandharvas, apsaras e rsis, ou seja, de Deuses, pais, espíritos naturais (gandharvas e apsaras) e reis. Ora, os pais e reis podem ser agrupados, em termos teóricos, num só grupo de ancestrais, enquanto que os dois tipos de espíritos naturais também podem ser agrupados num só grupo.
Na Grécia Helénica, falava-se nos θεοί, δαίμονες e ἥρωες: Deuses, daimones e heróis.
Entre os Nórdicos, de forma algo semelhante ao que ocorreu na mitologia Védica, o número de seres foi multiplicado: existem os Æsir e os Vanir, sendo que ambos são Deuses. No domínio dos espíritos – chamados coletivamente de Vættir  temos principalmente os Álfar (elfos) e os Dvegar (anões), assim como os Sjövættir que são guardiões de águas específicas. Já na categoria de ancestrais, temos os Einherjar, os mortos que são enviados para outros destinos que não Valhalla e talvez as Dísir.
Por fim na Gália, temos obviamente os Deuses (Dēuī), claramente representados antes e após a conquista Romana. Os antepassados são aludidos no frequente uso dado aos cadáveres de guerreiros e outros indivíduos em espaços rituais e sociais. Apesar de haver poucas provas da adoração dos não-deuses (andēuī) (espíritos naturais, é possível ver um exemplo nas amplas representações dos  Genii Cucullati em grande parte da Europa outrora ocupada por Celtas (exceto nos territórios Gaélicos).

Mas tudo isto levanta mais questões… qual é a natureza de cada um destes seres?

Os Deuses, num ponto de vista Indo-Europeu, são invariavelmente imortais, não no sentido de serem indestrutíveis, mas de terem uma longevidade infinita. Isto deve-se ao facto de frequentemente consumirem um alimento ou bebida que lhes garanta tal proeza; temos, por exemplo, ambrosia, as maçãs de Iðunn, soma e possivelmente haoma. Tais alimentos e bebidas eram providenciados aos Deuses por uma outra divindade. Tendo em conta o que foi preservado da mitologia original dos Gaélicos e Britónicos, podemos concluir que o Deus Ferreiro – principalmente conhecido como Gobannos – está encarregue de tomar esta função; Gofannon (< Gobannonos), em Gales, produzia uma bebida que garantia a imortalidade, enquanto que Goibniu (< Gobeniū), na Irlanda, dava um festim que protegia a Tuath Dé Danann de doenças e idade avançada.
Porem não é apenas isto que os separa de nós e dos não-deuses. Os Deuses têm capacidades muito para além do que algum de nós poderia alcançar e isso reflete-se diretamente no que é transmitido nos mitos – apesar de ter havido um processo de humanização – e no que é óbvio no mundo à nossa volta. Sem os Deuses, não existiria o mundo e são eles que nos protegem das forças que veriam tal ordem benéfica quebrada.
Os Deuses estão sempre do lado dos princípios que regem as comunidades, de acordo com a Verdade, não só no sentido literal mas também no de esta poder denominar a forma propícia para a nossa existência de como o cosmos está organizado.

Pensa-se que os não-deuses têm funções semelhantes aos restantes espíritos das outras culturas Indo-Europeias, mas que estejam mais próximos dos numina e genii locius Romanos, como guardiões de certos locais. É possível que os bucca Cornualhos e os púca e Irlandeses possam ser classificados como não-deuses.
Os não-deuses não são necessariamente endiabrados. Na Irlanda existem costumes para manter espíritos – normalmente os – contentes; os não-deuses são novamente mencionados no Táin Bó Cúailnge: “Bendacht dee agus andee fort, a ingen.” – este excerto significa “que os Deuses e não-deuses te abençoem, mulher”. Isto aponta claramente para a capacidade de os não-deuses também poderem ser benéficos para os humanos (se bem que não são opostos a nós, nem aos Deuses, mas são retratados como territoriais nos mitos).
Como não existem referências a espíritos relacionados à domesticidade nos mitos ou em achados arqueológicos, como os lares Romanos, os domovoi Eslavos e os tomte Nórdicos, irei abster-me de referi-los; chego até a duvidar de que alguma vez tenham estado presentes nos cultos Celtas, de forma semelhante ao que acontecia na cultura Védica.

Sobre os ancestrais não resta muito a dizer que já não seja conhecido pelo leitor com conhecimento sobre as tradições Gaélicas e Britónicas de que os mortos visitem os vivos na data do princípio do inverno. Porém, parece ter havido mais crenças relativas às almas dos defuntos, que são particularmente mais óbvias na Gália.
Como já foi referido anteriormente, os cadáveres de guerreiros era frequentemente dispostos expostos em santuários e até mesmo em locais fora deste, como em muralhas. De uma forma semelhante ao culto aos heróis Helénico, os guerreiros mortos em combate eram especialmente honrados. Era frequente manter-se crânios de guerreiros expostos, embora a razão seja ambígua; pensa-se que como a cabeça era vista como a zona onde a alma residia, que ao manter o crânio se poderia obter especial atenção por parte do guerreiro defunto,  no dia-a-dia (como protetor desde o Outro Mundo).
Ainda tendo em conta a classe guerreira, os indivíduos regentes eram frequentemente enterrados em montes funerários juntamente com oferendas de grande qualidade, sendo que o melhor exemplo é o túmulo achado em Hochdorf, na Alemanha. Adicionalmente, foram encontradas estátuas em arenito de indivíduos masculinos que são interpretadas como efígies de chefes/reis (a ausência de atributos que identifiquem como uma figura divina não deixam qualquer outra hipótese), como a encontrada em Glauberg.
Por outro lado existem vários cemitérios antigos Gauleses que mostram que houve deposição de oferendas ao longo de um período alargado de tempo e não apenas uma única vez (como seria de esperar se apenas honrassem os mortos na altura do funeral). Isto sugere que pelo menos em alturas importantes do ano os ancestrais eram lembrados e honrados. É comum encontrarem-se cemitérios e montes funerários perto de santuários, como em Acy-Romance e Glauberg, o que é certamente uma indicação de que os mortos eram depositados perto de espaços sagrados para facilitar o culto a estes.

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