Deus Ferreiro

Frequentemente esquecidos – talvez com exceção dos que atualmente se dedicam às artes da ferragem – os Deuses Ferreiros tinham considerável importância na Antiguidade, tanto que relatos dos seus feitos foram bem preservados nos territórios insulares, até aos dias de hoje.

Pelo que tem sido evidenciado nas ilhas no continente, os teónimos mais comumente atribuídos a estes Deuses, eram os que tinham como raiz o PIE *ghwobh ou *gwhobh, que deram origem ao Proto-Celta *goban-: ‘ferreiro’.

A partir de tal raiz, surgiram os três teónimos conhecidos atualmente… Na Irlanda, temos Goibniu, cujo antecedente, em Irlandês Primitivo, teria sido Gobeniū; em Gales, temos Gofannon (ou Gouannon), que teria sido precedido por Gobannonos. Na Gália, encontramos os teónimos Gobannus (achado em Vézelay, no caso dativo singular) e Gobanus (atestado em Berne, também no dativo singular), que são claramente mais aparentados à versão Britónica.

Infelizmente, não dispomos de registos das palavras para ‘ferreiro’ ou de teónimos claramente associados a tais atividades, para que se possa fazer uma comparação ainda mais ampla. Assim sendo, este artigo focar-se-á, principalmente, nos casos insulares – com a ocasional comparação a paralelos Indo-Europeus – terminando no que se verifica na Gália.

Começando com o caso mais ricamente preservado…

Goibniu é o ferreiro da Tuath Dé Danann, e é mencionado, frequentemente, junto a outros Deuses que estão associados a outros ofícios essenciais para um povo da Idade do Ferro. No “Lebar Gabála Érenn”, Goibniu forma um quarteto homens de ofícios juntamente com Luchne, Créidne e Dian Cécht que são, respetivamente, carpinteiros, ourives e médicos. Por outro lado, no “Cath Maige Tuired” Goibniu figura, juntamente com Luchta e Créidne, uma tríade de artesãos encarregue de fornecer armas aos Deuses para estes lutarem contra os Fomoiri.
Nestes dois textos, Goibniu está inserido – juntamente com os seus comparsas – em um grupo que se dedica a ofícios que correspondem, maioritariamente, à terceira função que Dumézil postulou: a função produtora. Digo maioritariamente, pois Dian Cécht talvez seja mais facilmente inserido na primeira função, como curandeiro (algo que pode ser tido como responsabilidade sacerdotal).

De forma semelhante, Gofannon aparece, também, mencionado junto com Amaethon (< Ambaχtonos), seu irmão, que é um Deus associado à produção agrícola, não só tendo em conta as funções que lhe são dadas, nos mitos, mas também devido à etimologia do seu nome: provém do Proto-Celta *ambaχto-, que tem o significado de ‘vassalo’ e ‘servo’; contudo, em Galês Médio, o termo [amaeth] passou a remeter-se a um servo que estivesse encarregue de tratar dos campos agrícolas (“Etymological Dictionary of Proto-Celtic”, pág. 32).
Apesar de não figurar tão amplamente nos mitos galeses como Goibniu aparece nos irlandeses, é possível, ainda, estabelecer mais um paralelo entre os dois. Gofannon não tem associação explícita aos tempos guerra e à produção em massa de armas – tanto que a principal tarefa mitológica que lhe é atribuída é o afiar das partes metálicas do arado do seu irmão Amaethon – mas no livro de Taliesin, no poema “Ymddiddan Myrddin a Thaliesin” são mencionadas as míticas 7 lanças de Gofannon, que foram por ele forjadas.

E quanto a Gobannus (e seus semelhantes)?

Até hoje, não foram achadas quaisquer alusões à produção de armas relativamente este teónimo e suas variações. Contudo, não podemos ser ingénuos ao ponto de negar que as tivesse; afinal de contas, a guerra e a caça faziam parte do dia-a-dia dos povos Celtas, e alguém teria de fabricar as armas: os ferreiros. Talvez pudessem escolher especializar-se na produção de ornamentos – amuletos, fíbulas, torques, etc – ou de peças para uso privado e público – caldeirões, taças, moedas, etc – ou de armas.

Contudo, o maior ferreiro – o Deus Ferreiro – certamente conseguiria produzir tudo isso.

Quanto a associações a outros artesãos divinos, isso também permanece por atestar, até mesmo fora da Irlanda. Alan Ward, no seu “Myths of the Gods – Structures in Irish Mythology” (pág. 17), teoriza que Luchta e Créidne são como que aspetos de Goibniu, por aparecerem sempre junto a ele e nunca terem aparições individualizadas nos mitos. Estou inclinado a aceitar a proposta de Ward, mas com um ponto de vista ligeiramente diferente… A meu ver, Luchta e Créidne são “faces” de Goibniu, tal como Lugus, Brigantiā e Mātronā têm 3 faces (dependendo da perspetiva); no caso de Goibniu, Luchta – o carpinteiro – e Créidne – o ourives e também ferreiro de bronze e latão – representam as duas áreas de “especialização”, além da produção de armas.

Existe ainda o reflexo (tardio) Goibniu: Gobhán Saor. Esta figura mítica, é dita ser o arquiteto responsável pela construção de várias igrejas, oratórios e campanários. Posteriormente, esta figura passou a ser conhecida como Santo Gobban, sendo dito, no livro “Life of St. Abban”:

A fama de Gobban como construtor em madeira, assim como em pedra, persistirá na Irlanda até ao fim dos tempos.”

Porém, isto não quer dizer que Gofannon e Gobannus tenham 3 faces, podem, simplesmente, ter uma só e ser mestres da metalurgia (e construção) na mesma. Temos, de facto, provas de que tal podia ser assim na Gália.

Como já foi mencionado no artigo Deusa da Aurora e Lareira, em Alisiā, foi achada uma inscrição (http://db.edcs.eu/epigr/epi_einzel_en.php?p_belegstelle=CIL+13%2C+11247&r_sortierung=Belegstelle) num vasilhame para libações, em que é mencionado Ucuetis (*1), que é um teónimo alternativo para os que derivam de *goban-. Ora, os vasilhames de libações caem no domínio dos objetos metálicos usados para fins religiosos (algo que poderia ser atribuído a Créidne), o que acrescenta mais um ponto a esta “tese”.

Além do mais, e ainda em Alisiā, foi achada, na cave de um edifício, a seguinte inscrição:

Martialis Dannotali ieuru Ucuetē sosin celiclon etic gobedbi (*2) dugiontio Ucuetin in Alisiā.”

“Martialis [filho] de Dannotalos dedicou a Ucuetis este edifício, e juntamente com os ferreiros que honram Ucuetis em Alisiā.”

A cave estava repleta de restos de metal trabalhado, o que indica que foram ali deixados, propositadamente, como oferendas a Ucuetis.

A cave onde foram achados os restos de metal.

A cave onde foram achados os restos de metal.

Também existe uma dedicação em honra a Gobanus que foi votivamente depositada na localidade de Berne, na Suíça. A dita cuja, escrita numa pequena tábua de zinco diferente do atual (continha chumbo, ferro, cobre, latão e cadmio), que havia sido recolhida do interior de uma fornalha. Pensa-se que teriam usado este subproduto do fundir de minério de zinco devido à grande conexão à arte da ferragem.

Sabemos que foi dedicada a Gobanus por causa da inscrição:

ΔΟΒΝΟΡΗΔΟ ΓΟΒΑΝΟ ΒΡΕΝΟΔΩΡ ΝΑΝΤΑΡΩΡ

Dobnorēdo Gobanō Brenodor Nantaror

“Para Gobanus, Viajante das Profundezas, dos de Brennoduron no vale de Arurā”

Esta tábua de zinco, além de atestar o teónimo Gobanus, ainda fornece um epíteto seu: Dubnorēdos (< *dubno-reydo-). A lógica por detrás deste epíteto é que Gobanus (e afins) teria de viajar pelo interior da terra – quem sabe se não pelo Outro Mundo, também? – para encontrar minérios, para poder forjá-los. É, portanto, um Deus de caráter ctónico, como outros ferreiros divinos Indo-Europeus (Hēphaistos e Völundr).

E, por fim, existe o caso do tesouro de Cobannus (ou seja, Gobannus), que foi achado no centro da Gália oriental. Segundo a análise feita pelos arqueólogos, os objetos em bronze – entre os quais estavam caldeirões e estátuas, entre outros – provieram de um santuário de Gobannus, tendo em conta as inscrições votivas.

Para mais informações sobre o tesouro de Gobannus, podem consultar a obra “The Cobannus Hoard: Gallo-Roman Bronzes and the Process of Romanization”.

A tábua de zinco dedicada a Gobanus.

A tábua de zinco dedicada a Gobanus.

Agora, quanto ao assunto de relações familiares, o nosso conhecimento é algo fragmentado e, em certos pontos, um pouco contraditório. Contudo, sabemos que Gofannon é filho de Dôn, possivelmente uma Deusa associada à própria terra (ver Deusa da Terra); nos tempos antigos, tratar-se-ia, por exemplo, de Nantosueltā.
Contudo, é a sua vida matrimonial que chega a ser confusa. Em Gales, não temos registo de que Gofannon tenha tido alguma esposa, se bem que a ausência de atestação não significa que não tenha existido; um praticante do Reconstrucionismo Britónico provavelmente teria de optar por não lhe atribuir esposa alguma.

É na Irlanda que temos vários possíveis exemplos de Deuses Ferreiros e das suas esposas, como mencionado no artigo Deusa da Aurora e Lareira.

Segundo a análise de Alan Ward, em “Myths of the Gods – Structures in Irish Mythology” (pág. 18), este tipo de Deus aparece sob 4 principais teónimos: Goibniu, Gaibhneann (ou Goibhneann), Bricriu (ou Bricre) e Tuirell Bicreo.

Citando e traduzindo:

No Ciclo de Ulster, contudo, ele [Goibniu] aparece como Bricre Língua Venenosa (Irlandês Antigo Bricriu, genitivo Bricrenn), enquanto que no “Lebar Gabála” e em textos a ele associados, aparece como Tuirell Bricreo (genitivo Tuirill Bicrenn, Tuirill Biccrenn).
O topónimo de County Down, Loch Bricleann (Loughbrickland), indica que a forma original era *Bricliu (genitivo *Briclenn). Isto reflete o Celta Comum *Briktliū, ‘mestre de feitiços’, derivado de *briktlon, um sinónimo de *briktus (Irlandês briocht), ‘feitiço’. Os poderes de feiticeiro são comummente atribuídos a ferreiros, no folclore irlandês, e o Deus Ferreiro partilha tal característica: ele entoa feitiços (di-chan brichtu).
Gaibhneann e Bricre são certamente idênticos. Em primeiro lugar, Gaibhneann – tal como Bricre – providencia, mas não preside, o banquete divino. Em segundo, Bricre (como Tuirell Bricreo) é pai dos gémeos Iuchar e Iucharbha. Brighid, a Deusa da Aurora, é mãe desses dois. Ela também tem aspeto de Bé nGaibhneachta, ‘Esposa de a arte da Ferragem”, o que significa que é casada com Gaibhneann neste aspeto.

Após ler isto, somos remetidos para o que já foi mencionado no artigo Deusa da Aurora e Lareira: Ucuetis, um Deus claramente associado à forja, é casado com Bergusiā. Ora, o teónimo Bergusiā provém, claramente, do PIE *bhergh, que serve de antecedente ao Proto-Celta *brig-, que é raiz de *Brigantī.

Assim sendo, a teoria de Ward é verificável na Gália, além de na Irlanda: o Deus Ferreiro é casado com a Deusa da Aurora e Lareira.

Ao analisar outras mitologias Indo-Europeias, torna-se óbvio que os Deuses associados à forja partilham um conjunto específico de caraterísticas mitológicas.

Völundr e Gofannon/Goibniu são responsáveis pela morte dos filhos de indivíduos de renome. Völundr mata os filhos do rei Niðhad, que o rapta e força a trabalhar para si. Gofannon mata o seu sobrinho Dylan, filho da sua irmã Arianrhod. Goibniu mata Ruadán, filho de Brigid e Bres, no “Cath Maige Tuired”.
A união entre Goibniu (e afins) e Brigid tem um paralelo na relação entre Hēphaistos e Athēnā: ambos os Deuses helénicos são padroeiros das artes plásticas e dos ofícios, sendo que Hēphaistos era mais favorecido pelos homens e Athēnā pelas mulheres. De forma semelhante, os nossos Deuses Ferreiros e Deusas da Aurora e Lareira teriam um séquito semelhante em termos de género.
Hēphaistos, Tvaṣṭṛ e Gofannon/Goibniu forjaram armas grandiosas para os outros Deuses, além de terem – no caso de Hēphaistos e de Goibniu – construído as suas habitações.

Em último lugar, mas de grande importância, está a informação já mencionada no excerto acima citado e traduzido: o tal banquete divino.
No “Altromh Tige Dá Medar” – uma obra escrita nos primórdios do Irlandês Moderno – é dito que o banquete de Goibniu (fleagh Goibhneann) protege a Tuath Dé Danann da velhice e da morte. Além disso, o seu hidromel dava invulnerabilidade a quem o bebesse.
Isto é um ligeiro paralelo com o Deus védico Tvaṣṭṛ. Tvaṣṭṛ era pai de Viśvarūpa, um Deus com três cabeças que representava o ato sacrificial. Uma cabeça representava o sóma (uma bebida que garantia imortalidade), o licor surā e a comida sacrifical. De certa forma, Tvaṣṭṛ era o guardião da receita para a imortalidade divina. (ver “The Broken World of Sacrifice: An Essay in Ancient Indian Ritual”, págs. 53 a 58).

Este banquete divino lembra outras tradições Indo-Europeias (ver “A reader in comparative Indo-European Mythology” de Ranco Matasović, pág. 12) a ambrosía (< *n-mṛto-), o alimento dos Deuses, e néktar (< *nek-terh2), ‘triunfa sobre a morte’.
Existe ainda, o caso das maçãs de Iðunn que davam juventude a quem as comesse, nomeadamente, aos Deuses.

Teónimos conhecidos: Gobannus, Gobanus e Ucuetis.
Atributos: Forja, carpintaria, construção, arquitetura e organizar do banquete divino.
Consorte: Bergusiā (de Ucuetis) e outras Deusas da Aurora e Lareira.
Posses: Pinça e martelo (“Pagan Celtic Britain” de Anne Ross, pág. 251).
Animais: Vaca branca (?) (Goibniu possuía uma vaca chamada Glas Gaibhnenn que produzia imenso leite).
Plantas: ?
Cores: ?
Festival principal: ?
Oferendas: Peças em metal.

*1 – A etimologia deste teónimo é desconhecida, podendo, até, demonstrar preservação do kwProto-Celta. Lambert sugere que se trato de um reflex de *heḱ-, ‘afiado’ ou ‘pontiagudo’, partindo do exemplo do Latim accus com o sufixo agentivo -tis. Assim sendo, podemos estar perante um nome que signifique “O Afiador”, o que seria bastante apropriado.

*2 – O temro gobedbi trata-se do dativo plural de gobeđ, ‘ferreiro’, que deriva do Proto-Celta *gob-et- (“Etymological Dictionary of Proto-Celtic”, pág. 164). Este termo parece ter sido usado para ferreiros mortais em vez do próprio Deus.
Contudo, nada impede o leitor de usar gobanos, tal como se usam os reflexos atuais de *goban nas línguas Celtas vivas; por exemplo: gabha (Irlandês Moderno), gof (Galês Moderno) e gov (Cornualho Moderno).

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