Virtudes

Os leitores que estejam familiarizados com o Reconstrucionismo Nórdico, por exemplo, saberão que existe um conjunto de nove valores, a que se costumam chamar “As Nove Nobres Virtudes”. Estes valores morais, apesar de serem uma lista recente – elaborada por John Yeowell e Johnd e Gibbs-Bailey, membros do grupo Odinic Rite – trata-se de uma catalogação dos valores que são frequentemente mencionados nos textos Nórdicos, que tem sido adaptada por vários grupos e indivíduos. Apesar de não ter existo uma tradição de listar as virtudes culturais Nórdico-Germânicas, estas certamente teriam sido ensinadas de uma forma não necessariamente rígida; era algo que qualquer um aprendia. Os mitos e as sagas podem oferecer um ótimo contexto para compreender as virtudes de um ponto de vista culturalmente Nórdico.

Em outras culturas, como a Helénica, as virtudes seguidas poderão ter sido mais variadas e influenciadas por acréscimo das teorias de vários filósofos.

À semelhança de outros povos ditos “bárbaros”, os povos Celtas não possuíam um código de conduta universal e registado. O que sobreviveu até hoje, é o que nos é legado pelos mitos Irlandeses e Galeses e o respetivo folclore, assim como o que os autores Helénicos e Romanos registaram sobre as tradições dos Gauleses e Britónicos.

Existem, porém, várias tradições morais que eram muito provavelmente honradas de num contexto pan-Celta.
De forma semelhante às virtudes dos Reconstrucionistas Nórdicos, apresento uma lista variada de virtudes, sendo que as primeiras quinze figuram no “Audacht Morainn”; algumas destas figurarão de um estudo feito por Alexei Kondratiev contido no livro “The Apple Branch“.

  • Piedade
  • Justiça
  • Imparcialidade
  • Verdade
  • Consciência
  • Firmeza
  • Generosidade
  • Hospitalidade
  • Honra
  • Estabilidade
  • Beneficência
  • Capacidade
  • Honestidade
  • Eloquência
  • Veracidade no Julgamento
  • Excelência
  • Coragem
  • Lealdade/Juramento
  • Piedade Religiosa / Devoção
  • Respeito

Algumas destas virtudes podem ser aglomeradas em uma só, para haver uma relativa simplificação no ato de as enumerar e também por não haver grande sentido em as manter separadas.

Assim sendo, ficamos com uma lista encurtada na qual figuram:

  • Piedade
  • Justiça 
  • Verdade
  • Honra
  • Eloquência
  • Excelência
  • Hospitalidade
  • Coragem
  • Juramento
  • Respeito
  • Devoção

Segue-se, então, uma explicação de cada uma das virtudes (rata, sg: raton) acima enumeradas.

A Piedade no sentido “leigo” refere-se, obviamente, ao ato de ter empatia para com outros que estão numa posição não favorável. Num sentido ligado à justiça e à lei, tem o significado adicional de leniência, ou seja, de ser brando no julgamento. A este princípio podemos unir a Generosidade.

A Justiça implica ser-se justo, averiguar a particularidade dos casos, conhecer os procedimentos legais, os costumes tradicionais e reger-se por atos compensatórios. Este último ponto é essencial no direito Celta pré-Cristão; as penas tinham, geralmente, um cariz compensatório para com as vítimas de crimes, em vez das atuais penas puramente punitivas. Por exemplo, em vez de simplesmente se prender um ladrão de gado, este ficaria obrigado a restituir os animais roubados e talvez comprar mais alguns ao lesado. A este princípio unimos o princípio da Imparcialidade e da Veracidade no Julgamento e da Consciência.

A Verdade implica ser-se verdadeiro, honesto e sincero nos empreendimentos e comprometimentos em geral. Este princípio é particularmente enfatizado em termos religiosos, com semelhança à dualidade presente no Zoroastrismo entre a verdade (aša) e a mentira (druj). Se tivermos em conta a grande semelhança entre as palavras para ‘homem’ e ‘verdadeiro’ – *u̯iro- e *u̯īro-, respetivamente – perceberemos que é essencial ao Homem ser verdadeiro e honesto para que a ordem estabelecida pelos Deuses possa ser mantida, sendo que a mentira (*gāu̯ā) é contra tais poderes.

A Honra refere-se à face pública de um indivíduo, ao que a sociedade julga deste e dos seus atos; é a reputação. Ser íntegro moralmente, digno de respeito, renome e admiração da tōtā.

A Eloquência refere-se, pois claro, ao uso cuidado das palavras. Já Lucianus Samosatensis – um retor Romano da Antiguidade – relatou que os Gauleses viam as palavras como as suas maiores armas, e não as armas físicas literais. Assim sendo, cada palavra que um Celta pronuncia deve ser cuidadosamente escolhida, isto quando a tarefa em questão não requere um nível de sinceridade que dispense premeditação.
Este princípio da Eloquência tem ligação com o princípio da Verdade, pois as palavras pronunciadas devem ser verdadeiras para que a ordem sejam mantida e a comunidade (assim como os próprios Deuses) possa confiar no indivíduo.

A Excelência é uma qualidade que reúne as já mencionadas Firmeza, Capacidade e Estabilidade; envolve ser-se excelente. Ou seja, o indivíduo deve ser esforçado, empenhado e procurar dar o seu melhor em todos os seus empreendimentos, isto dentro das suas capacidades e limites. Se houver capacidade para tal, um fim deve ser alcançado a qualquer custo que não envolva por em perigo os interesses e tradições da comunidade e dos Deuses (ou seja, deve estar de acordo com as virtudes).
Em Proto-Celta teríamos *wesu- ou *gustu-.

Uma virtude que figura em qualquer lista de virtudes Celtas é a Hospitalidade. A Hospitalidade tem duas dimensões. A primeira consiste – que cabe ao hospedeiro – em ser-se hospitaleiro, gentil, não permitir danos aos hóspedes, zelando pelo seu bem-estar e segurança enquanto estes estão no domínio de um indivíduo. A outra dimensão – que cabe ao hóspede – consiste (de forma simplificada) em respeitar os costumes do hospedeiro, não o sobrecarregar com tarefas desnecessárias, ser prestável para a ordem da casa enquanto se permanece lá, não ser rude…

A Coragem – algo que também não poderia faltar – refere-se, simplesmente, ao ser corajoso, valente, mas principalmente sábio diante de perigos e situações inusitadas; este último ponto implica saber quando é que uma batalha (figurativa ou literal) pode ser ganha ou quando é uma perda de tempo e recursos.
Existem vários termos para ‘coragem’ nas línguas Celtas, um deles *sego-, que figura em vários nomes próprios Gálicos, como Segolātis.

O Juramento é um valor de grande importância, tanto que a palavra Proto-Celta – *lugi̯o- – é origem de um teónimo de grande importância para os Celtas: *Lugu-.
O Juramento une a ele próprio a própria noção de Lealdade, sendo que implica ser-se leal de acordo com o que é comprometido, manter a palavra dada e os juramentos (até o findar destes) em toda e qualquer hipótese, exceto se envolver contradizer juramentos ainda vigentes. Além destes princípios mais “gerais”, existe ainda a noção de se ser leal à comunidade, à família, aos amigos… implica também ter em atenção os atos mercantis. Novamente, temos mais um princípio em que a honestidade é crucial.

O Respeito é algo desejável por qualquer sociedade. Consiste em respeitar as entidades, os costumes, regionais e as legislações municipais, estaduais (quando estes não se opõem a liberdades próprias e alheias dignas); não defender posturas discriminatórias previstas como crime pela legislação (racismo, sexismo, homofobia, etc.).

A Devoção refere-se ao ato de manter os costumes, as cerimónias, lugares sagrados e práticas religiosas. Implica reverência aos Deuses, Ancestrais e Espíritos locais. Este princípio está ligado a todos os que foram mencionados anteriormente, já que cada um destes é considerado um comportamento desejável por parte dos seres divinos. Um Celta deve abster-se das maldades (um termo bastante discutível, visto que a perceção de bem e mal é diferente de cultura para cultura, mas tenhamos em consideração que o conflito não é considerado algo inerentemente mau), evitar a mentira.

 

Esta é, claro, a minha visão. Não faço disto uma regra universal e é por isso mesmo que explicitei todas as virtudes que conheço e que figuram nos mitos listadas.
De certa forma, cabe a cada um saber que virtudes é que são apropriadas, embora não se trate de algo que se possa escolher livremente, pois cada uma está presente numa ou noutra obra mitológica.

Sugiro, então, que o leitor visite as seguintes páginas para que possa ler outras opiniões sobre este assunto:

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