Deusa Celestial

Ao contrário do que se esperaria, os Celtas parecem não ter tido divindades exclusivamente dedicadas à lua, mas sim ao céu noturno em geral, algo que é possível de comprovar principalmente na Gália, com base na epigrafia. Esta “teoria” é de Alan Ward, que a aborda no seu “The Myths of the Gods – Structures in Irish Mythology”, sendo que este artigo pode ser considerado uma extensão da análise de Ward, tendo-a como fundação.
Um aviso: apesar de várias das ideias de Ward estarem erradas, algumas mantêm-se extremamente funcionais atualmente para a interpretação da teologia Celta.

Citando as páginas 23 e 24 da já mencionada obra de Ward:

A Deusa da Lua tem quatro nomes, todos originalmente epítetos. O primeiro e mais popular é Bé bhFionn ‘a Senhora Branca’ (LL 33102, TBFr, TE III 10). O segundo é Éadain (TE I 11) que parece refletir o Celta comum *YANTUDÂNÎ ‘presente poderoso”. O segundo é Dar Earca ‘filha do Deus do Céu, Earc’(CS 83ff). O quarto é Lí Bhan (LU 3312, 3340, SCC) que superficialmente parece significar ‘deleite das mulheres’.
(…)
Agallamh na Seanórach afirma simplesmente que ela [Bé bhFionn] é filha de Earc (AS 6803). Isto é apoiado pela Dinnsheanchas que, dando-lhe outro nome para a ocasião, Engleic, afirma que ela é filha de Earc e amante de Midhir, que a levou para Sliabh na mBan (tal como faz no Tochmharc Éadaine) (MD 3, 40, LL 16565). Assim, Dar Earca, apesar de aparecer apenas numa forma cristianizada como Santa Dar Earca (CS 83ff), pois mostra claramente aspetos de Deusa da Lua, deve ser equacionada a Bé bhFionn.
Lí Bhan também o deve ser. É esposa de Labhraidh (SCC) que já vimos ser um aspeto do Deus do Vento, consequentemente idêntico a Midhir. Ademais, como Bé bhFionn é filha de Earc, é necessariamente filha de Bóinn, Deusa da Água, logo um epíteto digno que basicamente significa ‘deleite das Águas’.
Bé bhFionn é também mãe de Neachtan. Isto é dito explicitamente no caso da encarnação como Fraoch (sobre o qual mais é dito abaixo sob a rúbrica Deus da Fonte) de Neachtan (LL 33102, TBFr). O próprio Neachtan é filho de Labhraidh (MD 3.26, LL 1739) que, como já vimos, é marido de Lí Bhan.
Consequentemente, a Deusa da Lua é mãe de Neachtan.

(…)

Dar Earca é deusa da noite: viaja durante a noite, protege o gado dos lobos e os viajantes dos ladrões (CS 88, 90). O seu nascimento precede o da Deusa da Aurora, Brighid (CS 84).
“Antes da aurora amanhã, duas crianças irão nascer nesta casa. Aquela que é a última no nascimento será a maior em grau. A altura do nascimento será a mais própria para cada uma, pois uma criança – a menor – irá erguer-se após o pôr-do-sol hoje e amanhã durante a aurora a outra criança irá aparecer”. (CS 3)

Apesar de ser um superficial relato de santos humanos de Leinster, este é um relato puramente mitológico do nascimento da Lua e da Aurora.

Antes de partir para a análise em si, gostaria de primeiro deixar alguns avisos quanto à proposta de Ward.

Primeiramente, a análise etimológica do nome Éadain está incorreta, em dois níveis. O Proto-Celta *yantu-dānu- significa ‘presente invejoso’ e não ‘presente poderoso’. Éadain parece ser a forma genitiva singular ou o nominativo plural de éadan, que remonta ao Irlandês Antigo étan, provindo do Proto-Celta *antono- (Etymological Dictionary of Proto-Celtic” pág. 39).

Em segundo lugar, a relação conjugal entre o Deus do Trovão/Tempestade – ao qual Ward chama de Deus do Céu – e a Deusa do Rio – chamada de Deusa das Águas pelo dito cujo – não se verifica na Gália nem na Britânia. Nas conceções teológicas Gaulesas e Britónicas o Deus do Trovão/Tempestade é casado com a Deusa da Soberania.

Com apenas o material citado, podemos definir os básicos quanto à Deusa Celestial Celta. Primeiramente, esta é – na Gália e Britânia – filha do Deus do Trovão/Tempestade e da Deusa da Soberania. Isto seria de esperar de uma teologia Indo-Europeia.
Em segundo lugar, temos a Noite – e por extensão, a Lua – e a Aurora como irmãs, ou seja: a Deusa Celestial foi a primeira a nascer, seguida da Deusa da Aurora e Lareira e, por fim, do Deus do Sol.

Porém, na Gália não dispomos de mitos que recontem como era a visão Gaulesa quanto à identidade da Deusa Celestial. Assim sendo, resta-nos recorrer à epigrafia Galo-Romana.

O primeiro, e melhor exemplo, é o da Deusa Đironā. Đironā, cujo nome provém do Proto-Celta *sterā-onā, ‘grande estrela’, é o exemplo mais claro da existência de uma Deusa Celestial na Gália.
O poema Irlandês “Rioghainn na h-oidhche” fornece uma interessante possibilidade de entender o porque de chamar a uma Deusa ‘Grande Estrela’:

Eu te saúdo,
Tesouro da Noite,
Beleza do Céu,
Tesouro da Noite,
Mãe das Estrelas,
Tesouro da Noite,
Criança adotiva do Sol,
Tesouro da Noite,
Majestade das Estrelas,
Tesouro da Noite.

Parece, então, que o título ‘Grande Estrela’ seria bastante apropriado para uma Deusa de cariz lunar e estelar; a lua poderia, de facto ter sido considerada a maior das estrelas.

Đironā, apresentada sempre como esposa de Apollō, especialmente deste sincretizado com o Deus Grannos, é representada com vários atributos recorrentes, como serpentes, ovos, cornucópias, paterae, vestidos longos e diademas.
Como é notado pelos arqueólogos e eruditos, existe uma grande semelhança às representações da Deusa Hygēa, responsável pela higiene (como o nome indica) e pela limpeza.

Đironā e Grannos

Miranda Aldhouse-Green interpreta os atributos das serpentes e dos ovos como pertencentes a uma divindade que teria funções regenerativas e relacionadas à fertilidade. Ambas as funções estão intimamente ligadas, tendo em conta que os enfermos não estão aptos para serem férteis, pelo menos de um ponto de vista literal e algo arcaico.
Đironā era honrada em locais que envolviam fontes “frias” e termais, e era geralmente acompanhada em culto e dedicações pelo seu consorte Grannos, ele próprio um Deus ligado à cura mas também ao Sol.
O que seria mais apropriado para uma Deusa Celestial do que ter como consorte um Deus Solar?

Em Alesiā (no recinto sagrado com fontes), temos uma Deusa semelhante, mas que é frequentemente mal interpretada. Damonā ou Dāmonā, acompanhada por Apollō Moritascus (*mori-tasko-, ‘texugo marinho’ ?!) ou Apollō Boruos (*berwo-, ‘que ferve, borbulha’), pode ter como antecedente o Proto-Celta *damo-onā ou *dāmā-onā. No primeiro caso, temos *damo-, que significa ’touro’, o que daria o teónimo ‘Grande Toura’. No segundo, temos *dāmā, ‘acompanhante, seguidora’, ou seja, ‘Grande Seguidora’. Não existe forma de comprovar qual a etimologia correta, pois em ambos os casos o o inicial do sufixo -onā sobreporia-se à última vogal da primeira palavra.
Apesar de restar uma cabeça de uma estátua com uma coroa com grinaldas de grãos, assim como uma mão esquerda com uma serpente nela envolta (semelhante à iconografia de Đironā), isto não contribui para a identificação da raiz (“Celtic Culture – a Historical Encyclopedia“, pág. 557).
Porém, trata-se incontestavelmente de uma Deusa Celestial, tendo em conta as semelhanças com Đironā em termos iconográficos, em formas e localização de culto e ainda com os acompanhantes; ambas as Deusas estão ligadas a Deuses do Sol.

Quanto ao porquê de ver a Deusa Celestial como curandeira, existe um relato de Gaius Plinius Secundus (in “Naturalis Historia“) que pode ser usado como prova de tal visão:

Os druidas – é isto que chamam aos seus magos – não têm nada mais sagrado do que o visco e a árvore em que este cresce, desde que seja um carvalho (…) O visco é raro e quando é encontrado, é recolhido com grande pompa, particularmente no sexto dia da lua (…) Saudando a lua com a palavra nativa que significa ‘cura tudo’, preparam um ritual de sacrifício e banquete sob a árvore e trazem dois touros brancos, cujos cornos são atados pela primeira vez naquela ocasião. O sacerdote com vestimentas brancas trepa a árvore e, com uma foice dourada, corta o visco, que é colocado num manto branco.
Então, finalmente, matam as vítimas, rezando a um deus para que torne a sua dádiva propícia para aqueles a quem a conceder. Acreditam que o visco dado em bebida irá garantir fertilidade a qualquer animal que seja estéril e que é um antídoto para todos os venenos.

Como Plinius refere, a lua era vista como uma divindade curadora, um par digno do sol que também tem tais dotes e é, frequentemente, tido como maior curandeiro nos “panteões” Celtas.
A título de curiosidade, em Gaulês ‘cura tudo’ seria Olloiaccā, do Proto-Celta *olyo-yekkā.

Adicionalmente, tendo em conta a importância da lua na contagem do tempo entre Celtas, seria de esperar que uma Deusa Celestial também tivesse uma ligação a este ato e à passagem do tempo em si, especialmente sendo a primogénita do Deus do Trovão/Tempestade.

Teónimos conhecidos: Đironā, Damonā/Dāmonā.
Atributos: Céu noturno, lua, constelações, estrelas, medição do tempo, cura, fertilidade.
Consorte: Grannos (de Đironā), Moritascus (de Damonā/Dāmonā).
Posses: ?
Animais: Serpentes.
Plantas: ?
Cores: Azul-noite (?), branco (?).
Festival principal: Decanoχtes Granni (?).
Oferendas: ?

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