Deusa da Prosperidade

Curiosamente, esta Deusa é particularmente popular, apesar de não ser frequentemente sujeita a grandes análises de mitologia comparativa, quer entre povos Celtas, quer com outros povos Indo-Europeus. Para ser honesto, apenas conheço uma tentativa concreta (“Lady with a Mead Cup”, de Michael J. Enright).

O título “Deusa da Prosperidade” talvez não seja o melhor para definir os 3 teónimos a que este artigo se refere: Rosmertā, Atesmertā e Cantismertā.

Rosmertā – sem dúvida a mais popular – foi adorada em Alzey, Cologne, Eisenberg, Neumagen, Reinsport, Trèves, Wasserbilig, Andernach e Worms (na Alemanha); Côted’Or, Haute-Marne, Loiret, Meurthe-et-Moselle, Puy-de Dôme, Vosges e Yonne (em França); e, por fim Sarmizegetusa, na Roménia. Tendo a sua grande disseminação, é possível postular que foi adorada pelas seguintes tribos: Eburones, Ēduī < Aeduī < Aiduī, Trībocī e Senones.
Atesmertā apenas tem o seu nome atestado na região de Haute-Marne, em França. A sua localização sugere que foi adorada pelos Suessiones.
Por fim, Cantismertā foi adorada em Lens, na Suíça, o que torna possível que tenha sido objeto de veneração por parte dos Eluētiī (Helvetii).

Certamente que o leitor já reparou que existe um padrão que une os 3 teónimos: o termo smertā. Não há consenso quanto a qual será a raiz Proto-Indo-Europeia deste termo, mas Fleuriot, apoiado posteriormente por Delamarre (“Dictionnaire de la Langue Gauloise”, pág. 277) achou cognatos nas línguas Celtas atuais, nomeadamente no Galês armerth (‘preparação ‘provisão’), armerthu e darmerthu (‘prover’ ‘providenciar’), assim como no Bretão armerh (‘economia’ ‘poupança’). A partir desta análise, podemos chegar a um Proto-Celta *smerto-.

Tendo em conta o que foi concluído por Fleuriot e Delamarre, é possível chegar à etimologia precisa dos 3 teónimos:

  • Rosmertā < *φro-smertā – ‘Grande Provedora’
  • Atesmertā < *ati-smertā – ‘Grande Provedora’
  • Cantismertā < *kanti-smertā – ‘Provedora da assembleia/dos que se reúnem’

É de salientar que *smer não pode significar, ao contrário do que Vendryes afirma, ‘destino’ ou ‘pensamento’ (“Dictionnaire de la Langue Gauloise”, pág. 277), que permanece por atestar nas restantes línguas Celtas. Os termos celtas para as ditas palavras são universalmente descendentes do Proto-Celta *tonketo- ou *sedo/*sīdo- e *menman-, respetivamente.

Rosmertā acompanhada por Mercurius (Autun).

Rosmertā acompanhada por Mercurius (Autun).

Mas quem é Rosmertā (e semelhantes)?

Existem 3 principais teorias: a primeira defende que se trata de uma Deusa da Soberania, à semelhança de Eponā, enquanto que a segunda prefere a visão de que se trata de um género de Deusa da Terra, tal como Nantosueltā. A terceira afirma que Rosmertā é uma Deusa associada à profecia (algo já mencionado acima).
Nenhuma das 3 pode, na verdade, ser aplicada.

Como mencionado no artigo Deusa da Soberania, existe uma inscrição, achada em Lezoux, na qual se pode ler:

“(…) ieuri Rīganī Rosmertīac

“(…) dediquei à Rainha e a Rosmertā

Ou seja, é uma clara distinção entre ambas as figuras da Deusa Soberana e a Deusa da Prosperidade. Contudo, a sua aparição em conjunto numa só inscrição votiva, revela que o seu culto poderia estar relacionado, sendo possível postular que o(a) autor(a) da inscrição – que não está identificado – pertenceria à classe governante e teria deixado a oferenda por ocasião de um rito ou data associados à política local.

Podemos, então, ver Rosmertā como um género de auxiliar da Rainha dos Deuses. No artigo Deusa da Soberania, estabelece-se uma ligação entre a dita Deusa e o hidromel – que é a bebida soberana por excelência – e de como provavelmente existiria um rito pan-Celta que uniria ambos os aspetos, na altura de um novo rei tomar o poder; um casamento entre o rei da tribo mortal e a Rainha da tribo imortal, que tinha poder sobre a terra. Curiosamente, o termo darmerth (mencionado previamente), ‘prover’ ‘providenciar’, aparece na ocasião do banquete de casamento de Pwyll, filho de Rhiannon.
Se tivermos isto em conta, e observarmos a iconografia das representações Galo-Romanas de Rosmertā, podemos concluir que a patera, o balde ou tanque com que é muitas vezes representada, pode estar relacionada com o portar do hidromel “cerimonial” (“Lady with a Mead Cup”, de Michael J. Enright, pág. 243).
Já dizia Diodorus Siculus, no seu “Bibliotheca Historica”):

“Enquanto [os Gauleses] jantam, são servidos por adolescentes masculinos e femininos.”

Se o Deus Ferreiro (veja o respetivo artigo) é encarregue de produzir o hidromel para o festim dos Deuses, a Deusa da Prosperidade está encarregue de o guardar e servir (“Lady with a Mead Cup”, de Michael J. Enright, págs .263 e 264), sob comando da Rainha.

A partir deste ponto de vista, faz sentido que o marido de Rosmertā seja Lugus, normalmente sob o “disfarce” de Mercurius; é aqui que é necessário requerer alguma ajuda da mitologia insular.
O festival irlandês de Lugnasad significa ‘união/contrato de Lug’ e provém do Proto-Celta *lugu-nad-sk-e-āti-. A temática principal é o organizar de jogos e de uma feira para honrar a morte de Tailtiu, a mãe-adotiva de Lug; contudo, o nome do festival parece não ter nada em comum com o evento mitológico descrito. Uma possibilidade que me atrevo a avançar é que poderia ter existido, também, um mito relativo ao casamento de Lug, que deu origem à tão afamada e bem documentada prática dos casamentos que duravam um ano e um dia (“The Year in Ireland: Irish Calendar Customs”, de Kevin Danaher, págs. 167 a 186).
Se esta hipótese tiver pernas para andar, então o reflexo (ou variação) gaulês provavelmente foi preservado no casamento de Lugus e Rosmertā, que teria ocorrido no equivalente gaulês de Lugnasad: Lugunascātis.
A complementaridade de um Deus encarregue de juramentos e de uma Deusa dispensadora de hidromel, formariam um ótimo casal de padroeiros para uma celebração de casamento.

Taça de prata que representa Maia-Rosmertā  e Mercurius-Lugus.

Taça de prata que representa Maia-Rosmertā e Mercurius-Lugus.

A iconografia Galo-Romana também parece ter tendências a ligar Rosmertā e Maia (Deusa helénica e romana), além de, por vezes, atribuir à primeira uma cornucópia. A única interpretação possível, é que Rosmertā também é responsável pelo crescimento e amadurecimento dos frutos das árvores e dos campos.
A partir desta noção, é possível entender o porquê de Rosmertā ser vista como semelhante a Maia (na perspetiva romana), e vice-versa: originalmente, Maia era uma Deusa associada ao processo natural de crescimento, tanto que se julgava que o seu nome estava ligado etimologicamente aos adjetivos maius e maior, ‘maior’; nesses tempos arcaicos, era vista como uma abstração deificada (“The Gods of Ancient Rome: Religion in Everyday Life from Archaic to Imperial Times”, de Robert Turcan, pág. 70). Ou seja, não é uma Deusa da Terra.

Podemos, portanto, reconhecer que a Deusa da Prosperidade engloba a prosperidade não só nos campos e pomares – de forma secundária, digamos – como também a “prosperidade divina”, nos seus atributos de guardiã e repartidora do hidromel e do banquete da imortalidade. Também tem o papel de manter a prosperidade, ordem e paz sociais, na medida em que é sob a sua influência que os costumes dos festins e das tradições matrimoniais são defendidos.

Teónimos conhecidos: Rosmertā, Atesmertā e Cantismertā.
Atributos: Prosperidade na agricultura, prosperidade social e divina, crescimento agrícola, colheitas, deveres sociais femininos, matrimónio.
Consorte: Lugus (e afins).
Posses: Balde/vasilha/tanque de hidromel.
Animais: ?
Plantas: Cevada (componente essencial do hidromel)?
Cores: ?
Festival principal: Lugunascātis.
Oferendas: Cereais (?), frutos (?) e mel (?).

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