Deus do Trovão/Tempestade

Não poderia haver um panteão Indo-Europeu sem esta classe de divindade, e a religiosidade Gaulesa estaria incompleta sem ele.

A nomenclatura usada – bastante direta e precisa, devo acrescentar – deve-se ao facto de estes Deuses serem “descendentes” diretos do Proto-Indo-Europeu (PIE) *Perkʷunos, um teónimo resconstruído, que provém do termo *perku, ‘carvalho’. Essencialmente, além de estabelecer uma ligação com a dita árvore (sagrada para todos os Deuses com a mesma função, de origem Indo-Europeia), também poderia estar relacionado com *per- ‘atacar’, *per-g- ‘chacinar’.
Havia uma variante deste teónimo, proveniente do PIE *(s)tenH-, ‘trovão’. Esta é verificável em no Proto-Germânico *þonaroz ou *þunraz, Hitita tarhun (que adquiriu o significado ‘derrotar’)e, como seria de esperar, no Proto-Celta *torano-.

De facto não há melhor representação do Deus Gaulês do Trovão/Tempestade do que Taranus, quer em etimologia, quer em iconografia e em funções.
Segundo Lucanus, na sua “Pharsalia“, Taranus era um dos Deuses que recebia sacrifícios humanos, além de ser um dos mais importantes para os Gauleses. Gaius Iulius Caesar também o menciona, mas sob o sincretismo com Iuppiter; após a conquista, Taranus aparece sincretizado com IOM, Iuppiter Optimus Maximus.

Porém, existem bem mais informação sobre Taranus em outras obras e mesmo paralelos incríveis com outros Deuses Indo-Europeus.

Há um relato (in HATT, 1989:188-9) sobre a morte de São Vicente, que menciona um rito dos Gauleses durante os tempos do Solstício de Verão:

No o território antigo (ligado a vila de Agen) na região de Metenses, mais corretamente de Nemetenses ou Vernemetenses, que é uma das mais conhecidas cidades da Gália, a multidão sacríleja dos pagãos tinha o costume de se reunir para celebrar cerimónias não de uma verdadeira religião, mas de uma ilusão sedutora, num santuário consagrado a um de seus deuses.
Sem dúvida que os demónios que ali habitavam, enganavam, através de suas manobras mentirosas, os olhos e os espíritos da multidão que se encontrava reunida, de tal modo que este povo infeliz acreditava assistir a algum milagre divino, aonde não havia senão artifícios diabólicos. Com efeito, transpondo a porta deste mesmo templo, como se ela fosse empurrada por uma vontade divina ou, falando mais verdadeiramente, por um demônio que ali morava, uma roda inflamada costumava sair dali e descer o cimo da colina até um riacho que corria para a direita.
Ela em seguida tornava a subir a encosta, até o templo do santuário, por um movimento inverso, vomitando chamas. Esta ilusão se esvaneceu quando em oposição a ela, foi feito o sinal da cruz. A multidão furiosa dos pagãos, levou o santo à morte.”

Porém, este não é um evento isolado.
Olivares Pedreño, no seu “Los Dioses de la Hispania Céltica” menciona um evento semelhante, que decorreu na França e na Alemanha:

O ritual consistia em lançar, durante a noite, uma ou mais rodas feitas de um certo material coberto com palha ou outro material vegetal, desde picos de ontanhas até aos vales. (…) Em algumas regiões, como Hesse, acreditava-se que os sítios onde as rodas flamejantes passavam ficavam protegidos de tempestades e granizo.
Numa aldeia do Baixo Konz, era objetivo de alguns jovens guiar as rodas  desde o topo da montanha Stromberg até às águas do Moselle. Caso a roda flamejante chegasse à margem sem ficar presa nas vinhas que estavam plantadas à volta deste e as chamas fossem apagadas pelas águas do rio, previa-se que haveria uma colheita abundante de uvas. Se, porém, isto não acontecesse, ambas as colheitas e o gado sofreriam.

É bastante óbvio a que divindade a que estes relatos se referem. O mencionar de montanhas, rodas flamejantes, gado e tempestades só pode estar ligado a Taranus. Existem provas de que havia um festival em honra deste no tempo do Solstício de Verão.

Na Gália, em Narbonne, existe um mosaico que refere o “aniversário” de Iuppiter ser celebrado a 20 de Junho, altura em que os recém-nascidos eram “batizados”. Esta celebração, é diferente  de qualquer outra conhecida em Roma, por isso é bastante provável que havia um substrato Gaulês. Por esta razão, com a chegada do Cristianismo, o Solstício de Verão foi tão facilmente dedicado a São João Batista.
Temos ainda outra mais uma prova, com base em uma inscrição:

TARANIS DITIS PATER HOC MODO APVT EOS PLACATVR: IN ALVEO LIGNEO ALIQVOD HOMINES CREMANTVR

Pode ser tentativamente traduzida como: Taranis é aplacado do seguinte modo: num rio lenhoso são cremados/queimados um certo número de homens”.
Apesar de aparentemente não ligado à cerimónia descrita anteriormente, estabelece mais uma ligação com a água e o fogo.

Olivares Pedreño, de novo em “Los Dioses de la Hispania Céltica“, vê uma ligação mitológica entre este rito do meio do verão e a forma como Indra derrota Vṛtrá, um Asura que é descrito como im dragão ou serpente, e postula o seguinte:

A informação mais reveladora da relação entre o Júpiter indígena e os riachos nas províncias Gaulesas e Germânicas provém maioritariamente, primeiramente, de várias colunas de Júpiter encontradas em tais contextos.
Este monumentos representam vários elementos: na parte inferior, há um plinto com quatro frontes e em cada está a face de uma divindade (Viergotterstein); acima do plinto, está um segundo elemento, frequentemente octogonal, com relevos de divindades planetárias. É no cimo desta estrutura que a coluna propriamente dita está construída, representando um tronco de uma árvore, encimada por uma capital  na qual está um Júpiter num trono, ou do último a cavalgar, frequentemente como um guerreiro, sobre um gigante com cauda de peixe. Por vezes, Júpiter carrega a típica roda Celta ou uma representação de um relâmpago. Se houver uma inscrição, geralmente é dedicada a Iuppiter Optimus Maximus, accompanhado por Juno.
A maioria destas colunas apareceram perto de riachos no percurso do Reno no território dos Mediomatrici e dos Treveri, ou seja, terras ocupadas por Celtas, enquanto que não existem mais em outros territórios do Império Romano. Curiosamente, os nomes dos dedicadores são sempre de origem Celta.
Isto fez com que muitos investigadores concluam que estas colunas de Júpiter, apesar de cheias de elementos culturais Romanos, são manifestações artísticas de crenças religiosas e mitos Celtas.

Para Gricourt e Hollard, esta ligação entre colunas e fontes é perfeitamente compreensível e afirmam que não minimizam a divindade em termos de hierarquia, nem lhe dão atributos relacionados com a saúde.
A chave está, para estes investigadores, nas funções míticas e religiosas que a figura esculpida no topo da coluna tinha. O episódio em que o cavaleiro assimilado a Júpiter cavalga o seu corcel contra um monstro serpentino tem muita semelhança ao mito Védico sobre a confrontação entre o Deus Indra e o demónio Vṛtrá. É dito que o monstro manteve as águas cativas, perturbando assim a ordem do universo; (Vṛtrá) é por vezes representado como sendo extremamente magro e com as costelas bem definidas, visto que é o demónio da seca, más colheitas e, assim sendo, fome na comunidade.
A vitória de Indra teria libertado as águas para estas fluírem novamente como rios.
(…)
Este tipo de mito que opõe um Deus da Tempestade contra um dragão ou serpente anfíbia com características antropomórficas é bastante comum entre Celtas e Indo-Iranianos, mas também em várias religiões de origem Indo-Europeia.

Infelizmente, os Vedas são ignorados por muitos Reconstrucionistas quando procuram material comparativo. Assim sendo, irei citar um hino do Rig-Veda que fala sobre quando Indra frustrou o plano de Vṛtrá.

[01-032] Hino XXXII. Indra.
Irei declarar as ações másculas de Indra, a primeira que ele alcançou, o possuidor do Trovão. Ele matou o Dragão, depois libertou as águas e rachou os canais até às torrentes das montanhas. Ele chacinou o Dragão que se deitava na montanha: o seu celestial relâmpago feito por Tvastar. Como gado, o fluxo das águas deslizou até ao oceano. Impetuoso como um touro, escolhou o Soma e em três sagradas taças bebeu os sumos. Maghavan agarrou o trovão como sua arma e atingiu até à morte o primogénito dos dragões. Enquanto que tu, Indra, chacinaste o primogénito do dragão e superaste os feitiços dos encantadores. Então, dando vida ao Sol, à Aurora e ao Céu, não achaste nenhum inimigo que se opusesse a ti.  Indra, com o seu próprio e mortal trovão despedaçou Vṛtrá, o pior dos Vṛtrás. Como troncos de árvores, quando o machado os cortou, prostrado no solo está o Dragão. Ele, como um guerreiro forte e louco, desafiou Indra, o impetuoso muito-chacinador Herói. Não quebrou o choque das armas, mas esmagou o inimigo de Indra que derrubou fortes enquanto caía. Sem pés e mãos, ainda assim desafiou Indra, que o atingiu com o seu raio entre os ombros. Emasculado, mas ainda assim reivindicando vigor viril, ficou Vṛtrá com membros espalhados e cortados.
Enquanto mente como um rio que embate nas margens, as águas ganham coragem e fluem acima dele. O Dragão está debaixo dos pés das torrentes que Indra na sua grandeza havia englobado. Humilhada estava a força da mãe de Vṛtrá: Indra tinha lançado o seu raio letal contra ela. A mãe estava acima, o filho estava por baixo e como uma vaca ao lado do seu bezerro, estava Danu. Enrolada nas incessantes correntes que fluíam para sempre em frente. As águas levaram o corpo sem nome de Vṛtrá: o inimigo de Indra afundou-se na escuridão.
Guardadas por Ahi ficaram os escravos de Dasas, as águas ficaram como gado seguro pelo ladrão. Mas ele, quando puniu Vṛtrá, abriu uma caverna onde as cheias ficaram aprisionadas. A cauda de um cavalo era tua quando ele, ó Indra, foi atingido pelo teu raio; tu, Deus sem igual. Tu que ganhaste de volta o gado, ganhaste o Soma; soltaste para que corressem livremente os Sete Rios. Nada o beneficiou, nem relâmpago, nem trovão, saraivada ou névoa que se tinham espalhado à sua volta: quando Indra e o Dragão lutaram em batalha, Maghavan ganhou a vitória para sempre.
(…)
Indra é Rei de tudo o que se mexe e não se mexe, de criaturas mansas e cornudas, é o Possuidor do Trovão. Governa sobre todos os homens como Soberano, contendo todos como raios numa roda.

Tendo em conta tudo o que foi dito acima, é possível reconstruir tentativamente as fundações de um mito Gaulês sobre Taranus e o aprisionamento das águas.

  1. Um monstro serpentino decide apoderar-se das águas do rio mais importante (o que está mais próximo da tribo a contar a história ou uma fonte mítica de todos os rios).
  2. O monstro consegue chegar à origem do rio e aprisiona (engole?) a sua Deusa tutelar (por exemplo, a Deusa do Marne é Mātronā).
  3. O rio deixa de fluir, pondo em perigo as colheitas e o gado e, por extensão, a tribo.
  4. Os elementos da tribo imploram a Taranus que os venha auxiliar.
  5. Taranus ouve o suplicar da tribo e pede ao Deus Ferreiro que prepare a cerveja da imortalidade/invulnerabilidade para ele (veja as linhas sobre a imortalidade dos Deuses na página Noibioi / Os Sacros).
  6. Taranus bebe uma grande quantidade de cerveja, preparando-se para a batalha e parte, montando o seu cavalo.
  7. Ao chegar, faz o seu cavalo pisar o monstro e este foge.
  8. Mais tarde, Taranus atira uma roda flamejante ao monstro, libertando assim a Deusa do Rio e as águas.
  9. Taranus retorna ao seu dūnon (forte) celestial e a Deusa do Rio à fonte do seu rio, enquanto que o monstro volta ao seu lar subterrâneo ou submarino.

Uma placa do caldeirão de Gundestrup pode, de facto, representar tal episódio:

Repare na figura que carrega uma roda – que uns dizem estar quebrada, mas que a meu ver apenas é uma representação estilística de uma roda inteira, mas cortada a meio para não se sobrepor ao Deus – e na serpente cornuda que está sob os pés da figura “humana” completa. Esta serpente pode muito bem ser o equivalente a Vṛtrá (algo que será abordado noutro artigo).

Além destas semelhanças, Taranus também pode ser identificado com outros Deuses Indo-Europeus, nomeadamente Perun e Perkūnas, um Deus Eslavo e outro Báltico (estes dois grupos, juntamente com os Celtas, têm muito de semelhante com os Védicos).

Segundo os mitos, Veles (já mencionado no artigo Deus do Submundo) além de poder ser um Deus, também lhe foi atribuída a função de monstro serpentino. É dito que Veles abandona o submundo para roubar o gado de Perun e que o último é forçado a punir afugentar Veles para obter o gado de volta. Tentando atingi-lo com relâmpagos, Perun perseguiria Veles de volta até ao submundo, obtendo de volta a sua propriedade e restaurando a ordem cósmica.
Além desta associação mitológica, os símbolos de ambos os Deuses são muito semelhantes. Perun é representado por figuras semelhantes a rodas, que são chamadas de gromoviti znaci, ‘marcas de trovão’, enquanto que Taranus está quase sempre acompanhado por uma roda raiada, que pode ter seis (número mais comum), oito ou doze raios.

Gromoviti znaci.

Estatueta de Taranus

As semelhanças entre estes três mitos pode fazer com que o Deus do Trovão/Tempestade Gaulês (e Britónico) possa ser encaixado na segunda função de Georges Dumézil, que está tipicamente relacionada com Deuses guerreiros . Porém, como seria de esperar, não traduz a totalidade dos atributos de Taranus.

Por fim, pegando no que foi dito no artigo Deus do Submundo, no que toca aos epítetos de Dagda, o leitor pode agora ter clara noção de como alguns são claramente designados para serem atribuídos a um Deus do Trovão/Tempestade:

  • Cerrce, que – segundo a interpretação de Marcílio Silva dos Brigaecoi, que segue a hipótese sugerida por William Sayers (“Cerrce, an archaic epithet of the Dagda, Cernunnos and Conall Cernach” – “Journal of Indo-European Studies“) – pode ter origem em *kerkyo- (“que envolve”), *kwerkyo- (“dono”) ou *kwerkwyo- (“que rodeia” “que encerra”); pode muito bem ser uma versão Q-Celta do Proto-Indo-Europeu *perkw que deu origem ao teónimo do Teus Trovão/Tempestade *Perkwunos.
  • Áed, que é claramente proveniente de *aydu-, “fogo” (pensa-se que *aydu- seria o nome dado a um fogo sacrificial, diferente do fogo comum *teφnet-) e que se esperaria que fosse epíteto de um Deus do Trovão/Tempestade, visto que o fogo sagrado teria uma relação com o fogo celestial (relâmpago).

Dito tudo isto, fica uma concisa lista de atributos deste Deus.
Teónimos conhecidos
: Taranus, Taranis
Atributos: Um dos primeiros Deuses, criador, ligado à fertilidade vegetativa através de meios celestiais (chuva e relâmpago),céu, montanhas, mudar das estações, fogo sacrificial (*aydu- > aidu), rei dos Deuses (funções soberanas), mundo superior (Albios), grande força, grande sede (de bebidas alcoólicas), carvalhos, chacinador de monstros (função guerreira).
Consorte: Eponā (de Taranus, sincretizado com Iuppiter Optimus Maximus), Medunā (presume-se).
Posses: Roda, Carro (?), Clava.
Animais: Cavalos, touros, águias.
Plantas: Carvalho.
Cores: Cobre (por aproximação aos restantes Deuses IE semelhantes), vermelho (relacionada à soberania e classe guerreira entre Celtas).
Festival principal: Sonnassodion Sami (Solstício de Verão) / Mediosamīnos (Meio do Verão)
Oferendas: Libar, queimar comida (preferência para carne), bebidas alcoólicas (preferência para cerveja) e objetos votivos num fogo sacrifical especificamente dedicado ao Deus.

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