Deus do Sol

Os Deuses do Sol são sem dúvidas os mais bem atestados em toda a Gália e a sua importância é mais que óbvia por tal facto.
Embora a sua presença esteja curiosamente omitida ou dissimulada nos mitos insulares – principalmente no “Mabinogi” – tal deve-se ao desejo de quem registou os mitos de retirar estatuto divino ao sol e da própria “evolução” das mentalidades; ou seja, gradualmente o culto foi esquecido ou substituído por algo menos explícito (como culto a um qualquer santo).

Comecemos, antes de mais, por analisar qual seria o nome dado ao sol pelos Celtas. Existem várias opções no Proto-Celta *sowono-, *swel- *sūli- e *sāwol-.
A primeira opção está atestada na Gália sob a forma de sonnos, nomeadamente numa anotação do calendário de Coligny: sonnocingos.
A segunda opção aparece no teónimo Nantosueltā, cujo significado é ‘vale ensolarado’. A forma Gaulesa provavelmente seria suelos.
A opção *sūli-, sem dúvida a mais curiosa, começou por significar apenas ‘sol’ mas eventualmente surgiu um significado secundário: ‘olho’, ‘visão’. Esta mudança será explicada mais abaixo. A palavra encontra-se atestada na Gália em alguns nomes próprios, como Sūlinus (“Dictionnaire de la Langue Gauloise” pág. 287). Assim sendo, em Gaulês teríamos sūlis.
Apesar de os substantivos com terminação em -i serem maioritariamente femininos, também podem ser masculinos.
Por fim, a última opção permanece por atestar na Gália, apesar de aparecer nas versões antigas das línguas Britónicas (Bretão, Cornualho e Galês). A evolução Gaulesa seria, provavelmente, algo como saūl.

Se queremos de facto descobrir a natureza do Deus Sol Gaulês (e, por extensão, Celta) temos de nos servir de outros Deuses solares Indo-Europeus. Os melhores paralelos, a meu ver, são  Apollōn (Grego Ático) Hēlios e Sūrya.

Hēlios, talvez seja o melhor paralelo por que começar, visto ser o mais familiar às perceções da maioria das pessoas que não está familiarizada com a totalidade das visões Indo-Europeias relativas às divindades solares.
Ora, Hēlios é tido como um Deus solar de cariz mais “original”, ou seja, ele é o próprio Sol e não o seu “auriga”, digamos. Na “Odysseia”, o Titã faz jus ao seu epíteto Panoptes – que tudo vê – e espia Ares e Afrodíte enquanto estes estão na cama, indo depois acusar Ares a Hēphaistos.
Apenas após mencionar este relato já temos algo com que relacionar o Deus do Sol Gaulês, nomeadamente Grannos. Este Deus tem o epíteto de Amarcolitanos, que provém do Proto-Celta *amarko-φlitano- e que significa “Olhar Amplo”. Não só é um paralelo ao vigilante diurno dos céus que é Hēlios, mas também ajuda na explicação mitológica para a passagem de um substantivo para ‘sol’ – *sūli- – adquirir o significado adicional de ‘olho’. Entre os povos Celtas, o sol era um olho no céu, sempre vigilante, para o bem ou para o mal do Homem. De facto, os eruditos da cultura Proto-Indo-Europeia costumam concordar que os Deuses solares eram considerados serem capazes de ver tudo.

Seguidamente, partimos para o Olímpico Apollōn.
Este Deus originalmente não tinha quaisquer associações solares, mas à medida que a cultura Helénica evoluía, o culto a Hēlios perdeu proeminência e deu-se uma ligeira fusão entre este e Apollōn. Porém, Apollōn não é o sol, embora possua características que são frequentemente atribuídas a uma divindade solar.
A mais importante e com paralelos ao culto solar Celta é a capacidade de cura. Em Apollōn, esta capacidade pode ter origens não Indo-Europeias, mas já na “Ilíada” já este era considerado o curandeiro dos Deuses Helénicos. A luz do sol era, portanto, benfazeja.
Temos, novamente um paralelo nos Deuses do Sol Celtas. Pegando novamente no exemplo de Grannos, este aparece referido como Grannos Phoebus, sendo que Phoebus é um epíteto de Apollōn que significa ‘Radiante’; isto assegura-nos de que Grannos é realmente um Deus do Sol. Por outro lado, tinha sempre como centro de culto uma fonte termal, sendo que o principal provavelmente seria Aachen (< Aquis Granni, ‘Águas de Grannos’). Sincretizado como Apollō (note o uso da grafia romanizada) Grannos, este Deus era grandemente venerado pelas suas capacidades de cura, existindo várias dedicações a este.
A ligação de Deuses do Sol Celtas a fontes termais é algo bastante comum. Apollṓnios Rhódios escreveu que entre os Gauleses existia o mito de que as fontes termais teriam origem nas lágrimas do Deus do Sol que caíram à terra. Isto é algo que pode ser comparado pelo seguinte verso da “Canção de Amhairghin“:

Uma lágrima do sol.

Sūrya, por fim, tal como Hēlios era considerado como sendo o próprio sol, possuindo também uma carruagem no qual é transportado (embora esta seja puxada por um cavalo com sete cabeças ou sete cavalos). Sūrya tem como principal festival o Makara Sankaranti, que é principalmente um festival em honra ao sol e de colheitas, no qual os primeiros grãos são dedicados a este Deus.
Novamente, recorremos a Grannos para mais um possível paralelo. Um relato (J. A. MacCulloch, 1911, “The Gods of Gaul and the Continental Celts“) menciona uma prática folclórica de inícios do século XX, segundo o qual os aldeões de Auvergne se reuniam à volta de fogueiras, queimavam tochas de palha e cantavam:

Granno mon ami,
Granno mon père,
Granno ma mère.

Granno, meu amigo,
Granno, meu pai
Granno, minha mãe.”

O relato parece algo duvidoso, mas faz algum sentido quando se adiciona o detalhe do festival chamado Decanoχtes Granni, ‘Dez Noites de Grannos’, que é atestado em Limoges e que será abordado com maior detalhe na página Uēlerios / Calendário. Possivelmente os Decanoχtes Granni teriam ocorrido durante as colheitas primaveris, por volta do mês de Março (“La fête des brandons et le dieu gaulois Grannus” pág. 428).

Existe ainda a questão de haver uma faceta menos amigável do Deus do Sol, que é frequente nas restantes culturas Indo-Europeias: o sol das doenças e da seca. Apollōn era, de facto, também um dador de doença, além de curador destas. Possivelmente o calor do sol poderia ter de facto uma faceta mais implacável associada às secas.

Fica a restar, então, a questão da simbologia. Entre Indo-Europeus, o sol é frequentemente associado ao dourado – como no caso de Sūrya – e também ao amarelo, por extensão.
Porém a questão mais importante é o símbolo a utilizar. Como já é discutido na página Deus do Trovão/Tempestade e na página Simbologia, a roda adquiriu uma associação ao trovão em vez de à habitual conotação solar. Penso que seria provável que a suástica – no sentido anti-horário – tenha sofrido uma mudança de significado para um símbolo puramente solar, deixando a mais habitual ligação a *Perkwunos.
Outro símbolo frequentemente usado em moedas para representar o sol é um círculo com um ponto ou outro círculo no interior deste; trata-se certamente de uma aproximação a um olho.
Segundamente, o animal mais associado a um Deus do Sol é o cavalo, tendo em conta as figuras de cavalos oferecidas a Apollō Belenus.

Escudo de Battersea, no qual a suástica (anti-horária) e motivos circundantes parecem ser de conotação solar.

Moeda dos Suessiones, na qual estão presentes uma suástica (anti-horária) e um cavalo.

Moeda Britónica com mais um símbolo solar e um crescente lunar.

Nota 1: Belenos e Belisamā, ao contrário do que é repetido frequentemente, nunca surgem juntos, tanto quanto sabemos. Belenos apenas surge com uma companheira feminina com nome não identificado.

Nota 2: Apesar de problemática, a origem do teónimo Grannos parece ter origem no Proto-Celta *gwrenso-, ‘calor’, tendo-se dado a seguinte evolução: *gwrenso- > *gwranso- > *gwranno- > grannos.
O significado da palavra é sem dúvida o mais apropriado às características do sol Celta, que é uma fonte de calor e não de fogo, fazendo lembrar o cognato Sânscrito ghrmansá, ‘calor solar’ (“Dictionnaire de la Langue Gauloise”, pág. 183) (“Etymological Dictionary of Proto-Celtic”, pág. 147). Este “calor” seria a essência do próprio sol, que estaria contida no fundo de fontes termais.

Teónimos conhecidos: Grannos, Belenos/Belinos, Moritascus.
Atributos: Dia, sol, calor, fontes termais, maior curador, fertilidade agrícola, vista/olhos, seca.
Consorte: Đironā (de Grannos), Briχtā*1(de Luxouios), Dāmonā/Damonā (de Moritascus)
Posses: Cavalos e carruagem (?).
Animais: Cavalos.
Plantas: Meimendro (?) (Gaulês belenion ou belenuntiā)
Cores: Amarelo e dourado.
Festival principal: Decanoχtes Granni.
Oferendas: Figuras de cavalos em fontes termais, frutos a um fogo.

*1 – este teónimo provém do Proto-Celta *briχtu-, ‘magia, encantamento’, o que lhe retira associação (em princípio) a uma Deusa da Aurora e Lareira, sendo sim uma Deusa Celestial, dado que o nome significaria ‘a mágica’.

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