Deus Selvagem/Pastoril

Talvez alguns possam ficar impressionados por saberem que esta denominação se aplica ao famoso Cernunnos, entre outros, mas não há título que seja mais apropriado.

Ao contrário do que se diz entre Neopagãos, após anos de por de lado informação, Cernunnos e os seus semelhantes não têm qualquer ligação com a morte e afins. Em vez de tal, está relacionado com a vida animal, com a caça e com a disparidade entre os espaços não domados pelo Homem e a civilização e a interdependência destes.
Não há em toda a iconografia destes Deuses algo que aponte para uma ligação com o Dīs Pater Gaulês, como já foi feito óbvio no artigo Deus do Submundo.
Assim sendo, o que nos resta?

Primeiramente, podemos de analisar a etimologia dos teónimos que foram preservados até aos dias de hoje.
Em Montagnac, Herault, foi descoberto em caracteres gregos, o teónimo καρνονου – a frase completa é “αλλετ[ει]υος καρνονου αλ[ι]σο[ντ]εας” – que é traduzido para o nosso alfabeto como Carnonū, que pode ser a forma dos casos dativo (tardio), ablativo ou instrumental do nominativo Carnonos. Fazendo uma regressão ao Proto-Celta, ficamos com *karno-ono-, ou seja, “grandes chifres”.
Por outro lado, o teónimo Cernunnos apresenta um curioso afastamento do Proto-Celta *karno-, sendo que a única variação conhecida e atestada é *korno-. Porém, apesar das diferenças linguísticas, que podem muito bem ser corrupções, a imagem da divindade clarifica que se trata de uma do mesmo tipo.

Existem várias imagens e registos destes Deuses em grande parte da Gália, embora a grande maioria pertença ao período Galo-Romano.
Começando pelas representações mais antigas…

Placa A do caldeirão de Gundestrup.

Nesta afamada representação (feita por artesãos da Trácia, a pedido de Celtas), vemos um Deus Selvagem/Pastoril, rodeado de animais: um veado, dois touros, três leões, e um lobo. Junto dele está uma figura (provavelmente não divina, pela ausência de um torque) montada num ser aquático.
Esta imagem tem paralelos com um selo achado na Índia, que representa o Deus Védico chamado Paśupati, “Senhor dos Animais”.

Selo de Mohenjo-daro.

Apesar de Paśupati ser atualmente um epíteto de Śiva, na altura em que o selo foi feito, esta divindade estava ainda por aparecer como hoje a conhecemos. Isto significa, obviamente, que Paśupati – e várias outras divindades Védicas cujas funções foram amalgamadas em Śiva – ainda retinha um culto e identidade independente.

Pondo de parte teorias fantasiosas sobre a divindade Celta – que tratarei por Carnonos doravante – estar a fazer Yoga, as semelhanças iconográficas são impressionantes: ambos estão rodeados de animais, ambos estão serenos e ambos possuem chifres (do animal cornudo mais importante, respetivamente).
Mas o Carnonos do caldeirão de Gundestrup tem algo mais a ele associado. O mais notório é sem dúvida a serpente cornuda que Carnonos segura por detrás da cabeça, que é precisamente o método de pegar em serpentes se não se desejar ser mordido; isto indica que ao contrário do que acontece com os restantes animais, Carnonos tem de se esforçar para manter a serpente sob controlo. Como já foi dito no artigo Deus do Trovão/Tempestade, esta serpente é muito provavelmente um demónio da seca.
Na outra mão, Carnonos segura um torque. Este ponto também é curioso, pois já tem um no pescoço. Pode-se especular que está de alguma forma a impedir a serpente de o obter, ou seja, de atingir poder (equiparável ao) divino e estatuto.
Novamente mencionando o artigo anterior, os povos Celtas (assim como os Bálticos e Eslavos) tinham bastantes semelhanças em mitologia e cultura com os Védicos, o que torna estes métodos comparativos ainda mais apropriados.

A outra representação mais antiga é a de Val Camonica.

Petroglifo de Val Camonica.

Nesta representação também temos uma divindade com chifres de veado, também vestida. No braço esquerdo tem um torque, e no lado direito do seu corpo tem uma figura ondulante, que poderá ser uma serpente. Em frente de Carnonos, está uma figura menor, presumivelmente um homem (repare nos genitais obviamente expostos entre as pernas).

Posteriormente a estas representações, apenas temos exemplos Galo-Romanos.
À exceção da representação do pillier des nautes, encontrado em Lutetia (Paris), que apenas mostra a cabeça de Carnonos, as restantes revelam alguns atributos que podemos interpretar.

Deus Selvagem/Pastoril de Reims.

Deus Selvagem/Pastoril de Etang-sur-Arroux.

Ambas as representações acima mostram Carnonos sentado, com as pernas cruzadas – a posição mais comum, assim parece – mas aí as semelhanças param.
No exemplo de Reims, Carnonos é mostrado na companhia de duas divindades, Apollō à esquerda e Mercurius à direita. Acima destes três, está um rato (amplamente associado à pobreza e pragas, como nos exemplos de “Cyfranc Lludd a Llefelys” e no Terceiro Ramo do “Mabinogion“) e abaixo um boi e um veado, que pode ser considerada uma representação da dualidade entre o domesticado e o selvagem. Carnonos segura um saco do qual saem grãos ou moedas.
No exemplo de Etang-sur-Arroux, temos Carnonos a segurar duas serpentes cornudas pela cabeça, enquanto que tem um torque no colo, para além do que traz ao pescoço. A figura apresenta duas ranhuras no topo da cabeça para a inserção de cornos. Na parte traseira da estátua, na zona da nuca, estão duas outras faces de menores dimensões.

A título de curiosidade e não só, é possível que em Gales o Deus Selvagem/Pastoril esteja presente nos mitos do “Mabonogi” sob o nome de Gwydion. Se tivermos em conta a proposta de John T. Koch (“Celtic Culture – A Historical Encyclopedia“, pág. 867) de que o nome Gwydion pode provir do Galo-Britónico Uidugenos – “nascido da madeira/floresta” – que por sua vez provém de *widu-geno-, as únicas divindades que poderiam-nos ocorrer seriam o Deus do Submundo e o Deus Selvagem/Pastoril.
Mas como o Deus do Submundo – como visto no respetivo artigo – é a raison d’être da vegetação, seria plausível estabelecer o Deus Selvagem/Pastoril não só como filho deste, mas como tendo o seu lar em bosques.
Mas apesar de Gwydion poder ser muito provavelmente um reflexo de uma divindade, é óbvio que lhe foram adicionadas características que não esperaríamos encontrar encontrar, nomeadamente as capacidades mágicas e de eloquência. Porém, a etimologia do nome e a maioria dos atos de Gwydion, como criar Lleu fora dos limites da sociedade como um pária, de facto remetem-nos para uma divindade semelhante a Carnonos.

Tendo tudo o que foi dito em conta, é óbvio que estamos perante uma divindade relacionada com as atividades relacionadas com a riqueza através dos animais – a caça, pastorícia e criação de gado – além da dicotomia associada entre os locais ermos e estábulos, vacarias, etc. Tudo isto o ligaria, adicionalmente, ao comércio e explicaria à ligação com Mercurius (Lugus) e o porquê de Cernunnos aparecer no pillier des nautes.
Podemos, então, classificar o Deus Selvagem/Pastoril como um deus da terceira função, de acordo com o padrão de Georges Dumézil que relaciona esta função com a terra e a economia.
É, portanto, essencialmente semelhante a Paśupati, Pan e Silvanus.

Teónimos conhecidos: Carnonos, Cernunnos.
Atributos: Animais selvagens e domésticos, caça, criação de gado, pastorícia, bosques e espaços para criação de animais, comércio.
Consorte: ?
Posses: ?
Animais: Veados, todos (?).
Plantas: ?
Cores: ?
Festival principal: Equinócio de Primavera (Samalinoχđ Uesonniās) (per Ara de Marecos*) e Equinócio de Outono (Samalinoχđ Uogiami) (chacina, cio dos veados).
Oferendas: Deixar comida num bosque (?), parte do lucro obtido por métodos relacionados à caça e criação de animais.

(* – http://pt.scribd.com/doc/65088975/Sobre-o-Equinocio-Vernal)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s