Tradições Lunares

A Lua tinha uma importância considerável na cultura pan-Celta, apesar de haver poucas provas de veneração, exceto no caso de Đironā (*sterā-onā, ‘grande estrela’). Provavelmente poderá ter havido bem mais que adoração da Lua – adoração celestial: da Lua e das estrelas juntas. Đironā, assim como Arianrhod (cujo nome em Britónico seria Argantorotā, ‘roda de prata’) assim como um templo encontrado no túmulo de Magdalenberg podem servir como provas desta teoria. Para mais informação sobre aos astros noturnos, leia o artigo Deusa Celestial.

O nome da lua variava – e ainda varia – nas línguas Celtas. Existem três palavras em Proto-Celta que persistem nas línguas Celtas que sobreviveram: * ēskyo-, *lugrā e *lowxsnā.
Antes de mais, *ēskyo- só está atestada em Irlandês Antigo, mas como tinha género neutro no Proto-Celta e masculino no Irlandês Antigo, inviabiliza que esta palavra tenha sido usada em Gaulês; poderia ter sido usada para descrever o brilho da Lua, mas nunca mais que isso. O uso dado à palavra pode dever-se a um substrato pré-Celta, que pode também explicar o porquê de o Sol poder ter sido visto como feminino na Irlanda pré-Cristã, em contraste com a tradição dominante de ver o Sol como masculino nas restantes culturas Celtas.
A palavra mais comummente utilizada, *lugrā, é a mais provável de ter sido usada na Gália, já que é atestada em três línguas P-Celta que sobreviveram: Galês, Cornualho e Bretão. A palavra teria sido, muito simplesmente, lugrā.
Por fim, temos*lowxsnā, que só é encontrado no Irlandês Antigo, mas é possível que tenha sido mais comum. Em Gaulês teríamos tido lounnā e, mais tardiamente, lōnnā.

Apesar de não sabermos exatamente como as culturas Celtas viam a Lua deificada, sabemos como interpretavam as suas fases.
A prova mais concreta provém do folklore Gaélico da Irlanda e Escócia. A fonte para este ponto provém da seguinte página: http://www.tairis.co.uk/index.php?option=com_content&view=article&id=68:prayer-to-the-moon&catid=42:daily-practices&Itemid=1. Para evitar infringir direitos de autor, preparei uma simples lista que enumera os atributos que eram dados a cada fase lunar:

Lua Nova (*nowyo-lugrā > nouiolugrā):

  • Semear (exceto cebolas e repolho crespo/couves)
  • Viajar
  • Casar
  • Crescimento
  • Divinação (tendo em conta a interpretação de Delamarre dos termos prinni loudin e prinni laget do calendário de Coligny, pág. 253 “Dictionnaire de la Langue Gauloise“)

Lua Crescente e Cheia (*φlāno-lugrā > lānolugrā)

  • Cortar cabelo, ramos (podar) e ervas
  • Chacinar animais
  • Artesanato, tarefas domésticas
  • Curas

Lua Minguante (*wanno-lugrā > uannolugrā, ‘Lua fraca’):

  • Cortar madeira
  • Arar
  • Colher
  • Castrar animais
  • Guerra

Lua Escura (*dubu-lugrā > dubulugrā, ‘Lua escura/sombria’):

  • Não cortar madeira
  • Não chacinar animais
  • Não viajar

Podemos perguntar-nos se estas eram de facto tradições pan-Celtas. É praticamente impossível saber, excetuando talvez um relato de Plinius o Ancião; regiro ao Ritual de Carvalho e Visco.
Apesar de sabermos se é de facto é um rito autêntico, parece que pelo menos é inspirado por práticas Celtas conhecidas: o sacrifício de touros, a importância de carvalhos e de visco e o folklore lunar previamente mencionado.
Caso nunca tenha ouvido falar dele, fica aqui o relato (também disponível como parte do artigo Deusa Celestial):

Os druidas – é isto que chamam aos seus magos – não têm nada mais sagrado do que o visco e a árvore em que este cresce, desde que seja um carvalho (…) O visco é raro e quando é encontrado, é recolhido com grande pompa, particularmente no sexto dia da lua (…) Saudando a lua com a palavra nativa que significa ‘cura tudo’, preparam um ritual de sacrifício e banquete sob a árvore e trazem dois touros brancos, cujos cornos são atados pela primeira vez naquela ocasião. O sacerdote com vestimentas brancas trepa a árvore e, com uma foice dourada, corta o visco, que é colocado num manto branco.
Então, finalmente, matam as vítimas, rezando a um Deus para que torne a sua dádiva propícia para aqueles a quem a conceder. Acreditam que o visco dado em bebida irá garantir fertilidade a qualquer animal que seja estéril e que é um antídoto para todos os venenos.

Como leu, o rito supostamente aconteceria no “sexto dia da Lua”, que é mais ou menos quando a fase crescente começa. De acordo com a lista acima – e o conteúdo fornecido no website Tairis – a Lua crescente era considerada propícia para curas assim como para matar animais. O Ritual de Carvalho e Visco une ambos os factos – para ter a cura, precisamos de sacrificar; isto é algo que seria de esperar de uma mentalidade Celta (e Indo-Europeia, de facto).
Porém, se este rito existiu, certamente não era celebrado todos os meses. Para começar, bois brancos são relativamente raros, logo, sacrificar um par todos os meses seria algo impossível. Depois, não sabemos o que os druuides usavam para preparar a bebida: eram as folhas ou as bagas do visco? A última opção (que parece mais provável) também invalidaria que fosse esta fosse uma celebração mensal, pois as bagas desta planta só amadurecem durante o Inverno. Mesmo que usassem as folhas, correriam os risco de extinguir as plantas.
Assim sendo, é mais provável que apenas tenha sido celebrado durante um mês ou mais meses invernais.

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3 respostas a Tradições Lunares

  1. sobre o sacrifício, algumas ordens meso-druidas defendem que a colheita do visco somente se dava próximo ao solstício de inverno, na lua crescente, sendo então realizado apenas uma vez por ano

    • É certamente plausível que a prática tenha sido mais popular durante a época do solstício, se bem que é impossível saber se estava restringida ao mês do dito evento astronómico ou se todo o inverno seria válido para a celebração do rito.

      Se não me engano, há uns anos atrás foi encontrado um cadáver de um indivíduo sacrificado – talvez na Irlanda? – que se descobriu ter ingerido visco previamente à sua morte. Isto apenas nos diz que o homem morreu no inverno, mas não a altura precisa. Contudo, ao menos já é um bom indicador que a tradição de ingerir visco para fins rituais seria algo comum entre Celtas. 🙂

  2. pelo que aprendi, eram usadas as bagas de visco, e se tem todo um preparo para se confeccionar o tônico, ainda mais que o alcool destilado só foi introduzido na europa pelos árabes, então não dava para se utilizá-lo como “conservante”…
    sobre a ingestão de visco, eu já lí que isto era muito usado para condenações ou suicidios…

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