Lītus Deru̯odubrī

Sumário
Nome reconstruído: Lītus Deru̯odubrī.
Data atestada: 6ª noite de lua nova.
Data sugerida: 6ª lua de nova dos meses de inverno, idealmente do 3º mês do calendário de Coligny (Riros).
Deuses honrados: Deusa da Prosperidade e Deus do Trovão/Tempestade.
Práticas específicas: usar extrato de Visco album (ou substituto) e oferecê-lo ao Deus do Trovão/Tempestade como forma de lhe atribuir força e de o saciar.

Como já foi referido no artigo Tradições Lunares, o Rito do Visco, relatado por Plinius, na sua obra “Naturalis Historia” (XVI, 95), é de relativa importância para se conhecer melhor os preceitos básicos de como os Gauleses entendiam a passagem do tempo – e o seu significado – além de poder ser comparado a práticas de outros povos Celtas.

Contudo, a mênção de tal rito oferece-nos, também, uma possibilidade de estabelecer um paralelo com outras culturas Indo-Europeias, no que toca ao consumo ritual de plantas. Mas, primeiro, fica a reprodução do afamado excerto:

Os druidas – é isto que chamam aos seus magos – não têm nada mais sagrado do que o visco e a árvore em que este cresce, desde que seja um carvalho (…) O visco é raro e quando é encontrado, é recolhido com grande pompa, particularmente no sexto dia da lua (…) Selecionam este dia, porque a lua, apesar de ainda não estar a meio da sua travessia, já tem considerável poder e influência; e saudam a lua com a palavra nativa que significa ‘cura tudo’. (…) preparam um ritual de sacrifício e banquete sob a árvore e trazem dois touros brancos, cujos cornos são atados pela primeira vez naquela ocasião. O sacerdote com vestimentas brancas trepa a árvore e, com uma foice dourada, corta o visco, que é colocado num manto branco.
Então, finalmente, imolam as vítimas, rezando a um Deus para que torne a sua dádiva propícia para aqueles a quem a conceder. Acreditam que o visco dado em bebida irá garantir fertilidade a qualquer animal que seja estéril e que é um antídoto para todos os venenos.

Podemos, imediatamente, estabelecer – e deduzir – quais eram alguns dos preceitos para levar a cabo o ritual.

A informação claramente partilhada é a seguinte:

  • O visco (Viscum album, da família das Santalaceae) deveria estar no cimo de um carvalho, e não de outra árvore.
  • O rito era levado a cabo no dia (coitados dos druidas se tentassem trepar a uma árvore durante a noite) da 6ª noite do crescente lunar, a contar da lua nova. Ou seja, como, para os Celtas, o dia – período de 24 horas – começava com a noite, deve-se realizar o rito após o amanhecer da 6ª noite.
  • A lua teria influência na data por causa do seu poder curativo (claramente atestado no caso de Đīronā).
  • Pelo menos mais outro Deus estaria envolvido no rito.
  • Levava-se a cabo um banquete após os atos sacrificiais.

De seguida, temos as informações que podemos deduzir…

  • Se o visco era usado, as suas bagas deveriam ter algum papel importante no rito. Assim, somos forçados a reduzir a altura própria para celebrar o rito aos tempos de inverno (http://www.arborilogical.com/how-tos/winter-is-prime-time-to-manage-mistletoe/).
  • Trata-se de um sacrifício tripartido: eram sacrificados dois bois brancos mas, também, o visco. Este tipo de sacrifício costuma ter fins relacionados com a prosperidade, fertilidade e a cura, especialmente em épocas de renovação sazonal.
  • O outro Deus envolvido no rito provavelmente seria Taranus, tendo em conta a sua inerente ligação aos carvalhos, tal como no caso dos outros Deuses Celtas e Indo-Europeus semelhantes (“The Oak and the Thunder-God“, de H. Munro Chadwick). O facto de o visco aparecer num carvalho – quando costuma preferir ser semi-parasita de macieiras, espinheiros-alvar, álamos, choupos… (Tree News, Spring/Summer 2005, Publisher Felix Press) Isto significaria que o Deus teria escolhido especialmente aquela árvore.
  • Utiliza-se o termo ‘imolar’, que significa ‘sacrificar’, especialmente através do fogo. Isto vai de encontro ao que é dito sobre os sacrifícios a Taranus, por Lucanus, em “Pharsalia” (artigo Deus do Trovão/Tempestade).
  • Como o preparado de bagas (e folhas?) de visco seria dado aos animais, presume-se que também as entranhas destes seriam oferecidas aos Deuses – de modo a não serem consumidas pelos participantes – como é costume ser feito. As patas e cabeças também seriam oferecidas ao fogo.
  • O facto de se usarem dois touros brancos, é outro ponto a favor da ligação a um Deus associado ao céu. Iuppiter, Zeús e Perun.

Viscum album

Contudo, falta um último paralelo. Quem estude as tradições religiosas Indo-Europeias certamente já conhecerá a temática Indo-Iraniana dos ritos de soma e haoma (< *sauma < *sew(h)-, ‘pressionar‘): consistiam no preparar do sumo de uma planta misteriosa, cuja identidade exata se desconhece hoje em dia (http://en.wikipedia.org/wiki/Botanical_identity_of_Soma-Haoma). Segundo o “RigVeda” (Livro 1 – Hino XCI; Livro 8 – Hino XVLIII; Livro 9 – Hino I; Soma Mandala), o soma é a substância que atribui imortalidade e força aos Deuses.
De modo semelhante, o haoma, amplamente mencionado no “Avesta” (secção sobre Yasna), é dito que o extrato pode curar, excitar sexualmente, aumentar a força, além de não ter efeitos secundários negativos e fazer bem à alma.

Contudo, apesar de as plantas dadoras de imortalidade de outras características invejáveis, ser um tema comum – com reflexos entre os Saka Haumavarga (um povo iraniano), Helénicos no caso das ambrosía néktar, assim como entre Germânicos no poço de Mímir e nas maçãs de Iðunn (“A Reader in Comparative Indo-European Mythology“, pág. 12, Ranko Matasović) – pode existir mais que uma versão.
Como dito no artigo Deus Ferreiro, a versão Celta parece ter sido o de um banquete preparado pelo dito Deus (Goibniu), além de hidromel que atribuiria invulnerabilidade. Provavelmente teria havido um rito que se centraria neste mito, mas se houve, não sobreviveu até à atualidade.

Porém, parece-me que o rito do visco não teria este explícito fim; um exemplo de como podem existir diferenças, é o poço de Mímir, que não providencia imortalidade, mas sim sabedoria. Por outro lado, as maçãs de Iðunn continham o dom da juventude, algo que é aludido pelo próprio nome da Deusa, que significa ‘A Que Rejuvenesce’ (“Dictionary of Northern Mythology“, pág. 171, por Rudolf Simek).

Segundo o relato, os sacerdotes pediriam ao Deus que teria enviado o sinal – ou seja, feito o visco brotar no carvalho – por bênçãos de prosperidade e fertilidade, dariam aos bois o extrato e, de seguida, matavam-nos e imolavam-nos. Assim, a dádiva do sumo de visco seria anexado ao típico sacrificar de touros (ou bois) associados ao Deus do Trovão/Tempestade (na Lusitâna, temos um registo de que touros era oferecidos a Rēus, um Deus do mesmo cariz – http://www4.uwm.edu/celtic/ekeltoi/volumes/vol6/6_10/garcia_quintela_6_10.html). Em troca de tal sacrifício, a comunidade receberia prosperidade e fertilidade depois do inverno que se fazia sentir.
Quanto à importância mitológica do visco: é algo que desconhecemos por completo. Possivelmente teria uma importância semelhante à do soma/haoma, mas não chegasse para substituir o festim do Deus Ferreiro, tal como o poço de Mímir não substitui as maçãs da juventude.

De seguida, fica uma reconstrução do rito – também disponível para download na página Lītoues / Ritos – e de como este poderia ser aplicado ao dias de hoje: http://www.scribd.com/doc/161221344/Rito-Do-Visco

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