Decannoχti̯āca Grannī

Sumário
Nome reconstruído: Decannoχti̯āca Grannī.
Data atestada: Primavera, Março.
Data sugerida: Após o equinócio de primavera.
Deuses honrados: Grannos, Đīronā (?)
Práticas específicas: Abençoar de árvores de fruto através de fogo, visitar fontes termais, cura.

Apenas sabemos da existência de um festival chamado ‘Dez Noites de Grannos’, devido a uma inscrição votiva – em Latim – achada em Limoges, França, na qual se podia ler (“Dictionnaire de la Langue Gauloise”, pág. 137):

Postumus Du(m)norigis filius uergo(bretus) aquam Martiam Decamnoctiacis Granni d(e) s(ua) p(ecunia) d(edit).

O uercobretus [‘magistrado(a), juiz(a), cônsul’] Postumus, filho de Dumnorīx, ofereceu, de sua bolsa, água Marcial para as Dez Noites de Grannos.

Apesar de sabermos da sua existência, sabemos muito pouco sobre as práticas que nele ocorriam e até a sua data. Porém, a segunda metade da inscrição pode fornecer-nos pistas quanto ao último ponto… Como podem ler, é dito que foi oferecida água “Marcial” por Postumus. Ora, Martiam é o acusativo singular feminino do adjetivo Martius, ou seja, ‘Marcial’, que é relativo a Mars (Marte). A questão é se se trata de água consagrada a Mars ou se é água do mês Março.
Segundo a hipótese avançada por Michel Lejeune – in “Sur une dédicace lémovice à Grannos (information)” – Postumus referir-se-ia a água oferecida de uma fonte dedicada a Mars, a que [Lejeune] chama de fons Martius, ou seja, ‘fonte Marcial’. Tal fonte estaria situada no santuário em que a inscrição foi achada, em Roche-au-Go. O problema de tal interpretação é que não há registo de existir uma fonte ligada a Mars, além de que seria intrigante que água de Mars fosse oferecida a um Deus solar como Grannos.
Outra hipótese – a que subscrevo, se bem que com mínimas reservas – é que a aquam Martiam é água que foi oferecida ou recolhida (chuva?) no mês de Março. Como já deverão saber, o teónimo Mars deu origem ao nome do atual mês de Março – que já existia no calendário pré-Juliano – através da formação adjetival já mencionada previamente: Martius. Assim, teríamos, em Latim, mensis Martius, o ‘mês Marcial’. Esta interpretação também tem as suas falhas, especialmente por não se saber o porquê de Postumus ter oferecido água [supostamente] recolhida em Março, ou seja, na primavera.

Gravura da inscrição de Limoges.

Gravura da inscrição de Limoges.

Antes de avançar com a explicação anterior, é necessário uma “pausa” para discutir um assunto do foro linguístico…

O termo Decamnoctiacis – que significa, preliminarmente, ‘para as Dez Noites’ – deriva do Proto-Celta *dekam-noχt-yo-āko-, mas apresenta uma formação curiosa. Para começar, viola, de certa forma, a tendência linguística Gaulesa de que as antigas terminações em -m  herdadas do Proto-Celta passariam a terminações em -n (exemplo: *kantom (‘100’) > canton). Seguidamente, apresenta a partícula relativa enclítica -io- (*-yo-), e ainda o sufixo adjetival/derivativo -ācos (< *-āko-). E, por fim, é declinado segundo a gramática do Latim, encontrando-se no dativo ou ablativo plural neutro, segundo a análise de Xavier Delamarre (novamente, “Dictionnaire de la Langue Gauloise”, pág. 137).
Lejeune afirma – no documento da sua autoria, previamente mencionado – que o acrescento de -io-, para formar Decamnoction, não seria algo invulgar e que significaria não ‘Dez Noites’ mas sim algo como ‘espaço/período de Dez Noites’. Mantenho-me reservado quanto a esta interpretação. Quanto ao elemento -ācon, Lejeune não consegue decidir a que é que ele se refere, postulando que pode ser uma menção aos participantes do festival ou dos objetos rituais.

Pessoalmente, creio que  noχti̯ācon pode ser traduzido de forma relativamente simples, tendo em conta os sufixos adjetivais e derivativos que tem agregados a si: ‘noitada’, ou seja, uma noite de vigília. Temos, portanto, as Dez Noitadas de Grannos.

Acendendo um 'brandon'.

Acendendo um ‘brandon’.

Voltando ao tema anterior, existem uma importante razão que me convence a acreditar na hipótese da inscrição de Limoges se referir ao mês de Março e não ao Deus Mars.
Trata-se de uma curiosa festividade francesa conhecida como Fête des Brandons, que é abordada por F. Pommerol em “La fête des brandons et le dieu gaulois Grannus”.
Este festival com um historial já antigo tem início no “domingo dos brandons”, que é o primeiro domingo da Quaresma (que costuma ser em Março ou em Abril, no hemisfério norte). Na zona de Auvergne, em cada aldeia, bairro rural, e fazenda isolada, são acesas, ao anoitecer, grandes fogueiras conhecidas como “fogos de alegria”. O povo dança e canta ao redor de tais fogos, chegando até a saltar por cima das chamas. Mas é enquanto tais eventos decorrem, que se procede à celebração das Grannas-mias. As Grannas-mias são tochas de palha que se encaixam sobre uma vara de madeira, de comprimento variável, e que são acesas nas chamas moribundas do “fogo de alegria”. Cada um dos participantes pega numa Granno-mio e vão em procissão através dos campos até aos pomares, cantando (numa espécie de Francês corrompido ou dialeto local):

Granno, mo mio,
Granno, mon pouère,
Granno, mo mouère!

Granno, meu amigo,
Granno, meu pai,
Granno, minha mãe!

Uma vez chegados aos pomares, agitam as Grannas-mias à volta das árvores, dos seus ramos, e troncos e cantam (usando o mesmo tipo de curiosas expressões):

Brando, brandounci,
Tsaque brantso, in plan planei!

Tocha, tochazinha (?),
[Por] Cada ramo, uma cesta cheia!

Após o fim de tal cerimónia, a população voltava às suas casas, e confecionava e comia beignets e crepes.

Ora, para o leitor devidamente informado sobre as tradições religiosas Celtas, tudo isto é incrivelmente semelhante às práticas insulares, nomeadamente às Irlandesas e Escocesas. O acender de uma fogueira chamada “fogo de alegria” é semelhante a um need-fire de Beltane (pelo menos em nome), assim como as danças ao seu redor e o ato de saltar por cima das suas chamas. O fogo das Grannas-mias presume-se ter propriedades protetoras ou propiciadoras de fertilidade, tal como os need-fires. A própria comida pós-celebração é feita a partir de derivados do leite.
Porém, ao contrário de Beltane, este rito tem maior preocupação com a fertilidade agrícola do que com a comunidade e o gado, isto porque a época primaveril também é época de colheita de frutos e até de grãos, dependendo da altura em que foram semeados.
Segundo o ponto de vista de Pommerol, isto trata-se de uma sobrevivência de um festival Celta, e não posso deixar de concordar.

Saltando sobre o 'fogo de alegria'.

Saltando sobre o ‘fogo de alegria’.

Como já devem ter reparado, os três versos cantados a caminho dos pomares invocam uma entidade com um nome estranhamente semelhante a Grannos. Não há forma de se ter a certeza se o teónimo é de facto a origem do vocativo Granno, mas tendo em conta que o Francês é uma língua Latina influenciada por um substrato Gaulês e ainda influências Germânicas, é um milagre que algo assim tenha sido preservado. Porém, que mais poderia ser, visto que não há nenhuma palavra semelhante em Francês (confiem, já procurei)?
Se aceitarmos que de facto se trata de uma evocação a Grannos, falta saber o porquê de lhe chamarem pai e mãe, já que, de acordo com as crenças Celtas registadas, não pode ser nem um, nem outro (especialmente porque não é hermafrodita). Neste caso uma das hipóteses de Pommerol de que tal se deve a este [o Sol] ser “ora um, ora outro, para a Natureza e a Humanidade” encaixaria bem numa perspetiva mais Neopagã eclética do que numa reconstrucionista, não merecendo, portanto, mais atenção.
Pommerol aborda ainda a teoria de que Granno possa ser uma evocação ao grão/cereal, mas tal não seria possível visto que em Gaulês este designa-se itu e em Latim é grānum; o Francês grain deriva desta mesma raiz latina, impossibilitando a transformação para Granno.
Resta então, aceitarmos que Granno se refere a Grannos, teónimo cuja etimologia – e análise do Deus em questão – pode ser verificada no artigo Deus do Sol.

Abençoando uma árvore.

Abençoando uma árvore.

Partindo do princípio que o que foi dito acima se encontra correto, existe algum espaço de manobra para poder fornecer uma reconstrução minimamente plausível de pelo menos parte do que poderia ter feito para dos ritos das Dez Noites.
Tendo em conta a proximidade à primavera, adotei a data de 3 após Atenouion do sexto mês do ano (Cutios, no calendário de Coligny), que costuma calhar sempre após o equinócio de primavera. Quanto à altura do dia, sinceramente, acho que não há problema em celebrar (certas partes) este festival durante o dia, o que faria mais sentido já que se pede a ajuda do Sol para a proteção e maturação dos frutos, para que as colheitas sejam prósperas.
Uma última nota: o festival é dedicado a Grannos e não se sabe se outros Deuses solares tinham algum festival semelhante. A meu ver, não haveria grande problema em adaptar o festival a outro Deus a que se tem devoção (por exemplo, “Decannoχti̯ācā Belenī”).

Rito “formal” solitário ou comunitário

Este rito tem como objetivo providenciar uma “sessão ritual” decente para que se possa acomodar a adoração a Grannos – principalmente – a bênção dos pomares/campos/jardins e ainda um banquete posterior: http://www.scribd.com/doc/174858737/L%C4%ABtus-Decano%CF%87ton-Granni-Rito-de-Decano%CF%87tes-Granni

Peregrinação a fontes termais

Isto é algo que indubitavelmente aconteceu nos tempos pré-Romanos e que perdurou até aos tempos Galo-Romanos e até aos dias de hoje, se bem que por motivos algo diferentes. Tais razões, e ainda a relação – no ponto de vista Celta – entre águas termais e o calor solar são mencionadas no artigo Deus do Sol.
Não tenho dúvidas de que a peregrinação a uma fonte termal próxima tivesse sido algo muito praticado nas Decanoχtes Granni (Lejeune, na obra mencionada previamente, concorda), com o intuito de pedir a Grannos para que este zelasse pela saúde do visitante e da sua família, mas também para lhe deixar uma ou mais oferendas.
Assim, muito simplesmente: visite uma fonte termal, banhe-se e, se possível, deixe uma oferenda física (de preferência nada que seja orgânico) em troca dos seus pedidos. Caso não seja possível deixar uma oferenda física, uma oração especialmente redigida pode muito bem substituí-la.

Devoção especial a Grannos

Como seria difícil atualmente – e até nos tempos antigos – conseguir celebrar durante 10 dias seguidos, sem negligenciar os nossos deveres, existe esta última alternativa para não deixar passar este festival em branco.
O que fazer para demonstrar alguma devoção especial cabe a cada um e não a apenas um indivíduo. Porém, darei um exemplo do que eu próprio faço quando não posso celebrar de uma forma mais elaborada…

Primeiramente, saúdo sempre Grannos aquando do seu nascer – caso já esteja acordado – ou quando me levanto. Depois, quando este está no seu auge, à hora do almoço, acendo algum incenso (*) como oferenda e recito uma adaptação gaulesa da oração “Sōlē (ao Sol)” por Marcílio Silva dos Brigaecoi (que podem consultar aqui, assim como mais algumas: http://recons-iberoceltica.forumeiros.com/t16-para-o-sol), que dedico a Grannos sempre nesta data:

Grannos teđđios, clusī me,
Ueresio gressu uorūs.

Aredercos Sonnos ollon appisetesio,
Aremertesio epūs rouindūs
Berontio roton Sonni.

Aχtī te, ā Dēue māre,
Tēxiont taras nemos,
In retū ureχtos Taranous,
Ad lautron in uonesiē roudē,
Etic atenousiont in dubumorī.

Ā Granne Amarcolitāne,
Cluton ad te, regisiio tigernon,
In siāi uārī aχtā Brigindū.

Boudicos dauiomāros antrougocarios,
Indemī in pāpābi amđđerābi.

Ne souete raton in anratē.

Canūmī segon clutonc tou,
Ā areseđ noibe belec.

Grannos ardente, ouve-me,
Que aqueces o zelo dos piedosos.

Visível Sol que tudo vês,
Que preparas os cavalos muito brancos
Que carregam a roda do sol. 

Guiados por ti, ó Deus grande,
Atravessarão o céu,
No percurso ditado por Taranus,
Para o banho no crepúsculo rubro,
E rejuvenescer no mar escuro.

Ó Grannos do Olhar Amplo,
Glória a ti, senhor que se ergue,
Nesta aurora guiada por Brigindū.

Vitorioso grande queimor implacável,
Ilumina-me em cada estação.

Não transformes a graça em desgraça.

Canto a tua força e renome,
Ó condutor sagrado e brilhante.

Ao fim do dia, despeço-me do Deus, jurando-lhe mais devoção no dia que virá (caso este ainda pertença às Decanoχtes Granni) e agradecendo-lhe caso algum pedido tenha sido ouvido.

* – O meimendro – *belenyo- > belenion – parece ter sido uma erva associada ao Sol, especialmente ao teónimo Belenos/Belinos, que parece ser derivado do da própria planta, podendo, ainda, haver uma ligação ao adjetivo *belo- > belo-, ‘brilhante’ ‘radiante’. Em alternativa ao incenso, possivelmente poderia queimar-se esta erva.

Práticas curativas

Esta pode parecer uma sugestão final estranha, mas acho que um antigo Gaulês agradeceria o facto de ter um tempo ideal para poder cuidar da sua saúde, especialmente por o Deus em questão ser o mais poderoso neste aspeto (assim nos dizem os relatos Romanos, tal como as inúmeras dedicação ao Apollō Galo-Romano).

Ou seja, não descuide desta ótima oportunidade para ir ao médico, já que possivelmente terá Grannos ou outro Deus semelhante a olhar por si. Tendo em conta a associação entre o Sol e a vista, para os Celtas, aqueles com problemas visuais poderiam beneficiar mais ainda. Zele também pela saúde daqueles que lhe são próximos, sem descurar da medicina moderna e até orando/sacrificando para o seu bem-estar.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s